Por que a Crimeia virou alvo estratégico da Ucrânia na guerra
Kiev intensifica ataques à logística russa na península, região-chave para o abastecimento e as operações militares de Moscou no sul da Ucrânia. Instalações de energia e combustíveis são alguns dos alvos.Com o recrudescimento da ofensiva de Kiev na Crimeia, as forças armadas ucranianas buscam isolar do continente, à medida do possível, a península anexada pela Rússia. Drones de longo alcance vêm sendo usados em ataques a veículos na estrada entre Rostov-no-Don e Melitopol e a navios da frota secreta russa no Mar de Azov e no Mar Negro. Além disso, a Ucrânia tem mirado também instalações de energia utilizadas pelas forças armadas do Kremlin.
O comandante das forças de sistemas não tripulados da Ucrânia, Robert "Magyar" Brovdi, afirma que 196 navios russos e mais de cem instalações de energia foram atingidos desde o início de julho. Esses dados, no entanto, não puderam ser confirmados de forma independente pela DW.
Mesmo assim, problemas no abastecimento das forças armadas russas e da população civil na República Autônoma da Crimeia são visíveis. No final de maio, as autoridades da região distribuíram vales-combustível, que se esgotaram em 24 horas. Em seguida, gasolina passou a ser comercializada no mercado clandestino. Em junho, foi declarado estado de emergência na Crimeia e em Sebastopol (que tem status administrativo próprio), devido às repetidas interrupções no fornecimento de energia elétrica, água, telefonia móvel e internet em diversas regiões.
O que relatam os moradores
Nina é aposentada e vive em um vilarejo próximo a Feodósia, no sudeste da península. Ela conta à DW que não pode cozinhar devido às quedas de energia e que o transporte público circula de forma irregular por falta de combustível. Mas o que ela mais teme é que não haja energia elétrica no inverno (atualmente, o hemisfério norte vive o verão)
Os blecautes de maior duração ocorrem no norte da Crimeia. É lá que mora Ivan (nome fictício). Ele conta à DW que, por um tempo, não foi possível obter combustível nem com vales nem com dinheiro - exceto para policiais, funcionários públicos ou profissionais da área da saúde. Segundo ele, a região sofreu um colapso por vários dias, quando os carros simplesmente pararam e as pessoas não sabiam o que fazer. A maioria das lojas já não mantinha mais produtos perecíveis, porque refrigeradores e freezers estavam desligados, diz Ivan. "Ficamos sem laticínios, peixe e carne. Apenas algumas lojas mantém um gerador de energia, mas lá os preços são muito mais altos do que eram antes", conta.
Pequenas iniciativas voluntárias estão prestando auxílio, como é o caso da blogueira Olena Gerasimenko. Em parceria com empresários de Simferopol, ela leva água potável a pessoas afetadas por cortes de energia e para hospitais e creches. No seu blog, ela relata as críticas da população com a falta de assistência por parte das "autoridades" instaladas pela Rússia na Crimeia.
Além disso, há relatos nas redes sociais de que os moradores do norte da Crimeia, devido à falta de meios de comunicação e às quedas de energia, passaram a enviar suas correspondências por meio de linhas de ônibus. Esses veículos, porém, não circulam mais regularmente.
Qual a estratégica da Ucrânia
O exército ucraniano tenta bloquear as rotas de abastecimento da Crimeia atacando principalmente pequenos petroleiros e rebocadores russos que transportam petróleo para navios maiores e combustível para a Crimeia. Paralelamente, Kiev está destruindo subestações de energia na região.
Segundo o comandante Brovdi, porém, a Ucrânia poupa deliberadamente a ponte de Kerch. A estrutura liga a península à região russa de Krasnodar através do estreito de Kerch. Brovdi afirmou recentemente, em entrevista ao jornalista britânico Caolan Robertson, que a ponte rodoviária e ferroviária deve ser preservada como um corredor de fuga da Crimeia. Não se trata de destruí-la, mas, sim, de cortar o abastecimento das tropas russas, disse Brovdi. "Queremos tornar impossível para a máquina militar russa permanecer e operar ali."
O especialista militar Ivan Kirichevski serve em uma unidade de drones. Em entrevista à DW, ele destaca a importância dos ataques aéreos na Crimeia para a frente de batalha em terra. "Para que os russos não cheguem nem perto de Zaporíjia, é preciso exercer pressão sobre as rotas de abastecimento deles no sul ocupado da Ucrânia. Isso vale sobretudo para a Crimeia. O bloqueio do tráfego marítimo no Mar de Azov e no Mar Negro tem, essencialmente, o mesmo objetivo", afirma Kirichevski. "A Crimeia já serve há tempo demais aos russos como uma base logística segura, de onde eles conduzem as ofensivas no sul da Ucrânia", complementa.
O especialista militar e fundador da organização Reaktive Post, Pavlo Naroshni, também descreve a Crimeia como um enorme porto seguro. Segundo ele, as tropas russas nas regiões de Kherson e Zaporíjia dependeriam, em grande parte, dessa base. Por muito tempo, a logística passou essencialmente pela península, mas agora essa fonte de abastecimento está cortada de dois lados - por terra, devido a ataques à rodovia M-14, e por mar, por causa das ofensivas a meios de transporte próximos à ponte da Crimeia. "Dessa forma, não estamos isolando apenas a Crimeia, mas também as tropas russas no sul da Ucrânia", afirma Naroshni à DW. A entidade fundada por ele fornece, de forma direcionada, equipamentos essenciais à artilharia ucraniana na linha de frente.
Situação não é pior do que nas cidades da Ucrânia, diz comandante
Atualmente, até três milhões de pessoas na Crimeia dependem da Rússia, explica Naroshni. "Uma usina termelétrica que garantia até 60% do abastecimento total de energia elétrica da Crimeia foi destruída. O abastecimento de derivados de petróleo está interrompido. A população já enfrenta dificuldades, mesmo com as necessidades do dia a dia", diz ele.
No outono europeu, adverte o especialista, os problemas se agravarão ainda mais com o início da temporada de aquecimento. "Putin terá então que se preocupar não apenas com questões militares, mas também com os problemas da população", afirma Naroshni.
Para Sidharth Kaushal, do Royal United Services Institute (Rusi) de Londres, os ataques a usinas de energia não constituem automaticamente uma violação do direito internacional. Especialmente se essas instalações tiverem importância militar e as ofensivas respeitarem o princípio da proporcionalidade. Segundo especialistas ucranianos, as estruturas atacadas fornecem principalmente energia elétrica para instalações militares. Em entrevista à DW, Kaushal diz que um bloqueio em grande escala por Kiev poderia forçar Moscou a negociar um cessar-fogo.
Enquanto isso, o comandante Brovdi pede paciência. "Peço desculpas aos moradores da Crimeia, aos ucranianos, pelos transtornos atuais. Eles estão enfrentando restrições aos benefícios dos quais desfrutaram durante toda a vida - no abastecimento de energia elétrica, água e comunicações. Mas eles não estão em situação pior do que as pessoas em Kharkiv, Dnipro, Sumy, Zaporíjia, Nikopol, Kherson e em centenas de outras cidades ucranianas que são alvo de ataques diários".
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