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Pesquisa revela como o ambiente insular influenciou a reprodução do lagarto mais típico de Fernando de Noronha

A Mabuia-de-Noronha chegou ao arquipélago por dispersão transoceânica, vinda da África, milhões de anos atrás

8 jun 2026 - 08h28
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A pequena Mabuia-de-Noronha (_Trachylepis atlantica_) é um lagarto originário da África que evoluiu em Fernando de Noronha, ao longo de milhões de anos. Por seu isolamento, o arquipélago funciona um laboratório natural de evolução, e desperta grande interesse científico.
A pequena Mabuia-de-Noronha (_Trachylepis atlantica_) é um lagarto originário da África que evoluiu em Fernando de Noronha, ao longo de milhões de anos. Por seu isolamento, o arquipélago funciona um laboratório natural de evolução, e desperta grande interesse científico.
Foto: Vinicius Gasparotto, CC BY / The Conversation

Quem visita o arquipélago de Fernando de Noronha, situado a cerca de 545 km da costa de Pernambuco, no nordeste do Brasil, logo nota um pequeno lagarto. Aparentemente onipresente, ele circula entre pedras, trilhas e áreas urbanizadas, aproxima-se das pessoas, disputa alimento à vista de todos e raramente foge.

Esse animal é a mabuia-de-Noronha (Trachylepis atlantica), uma espécie que vive exclusivamente nesse arquipélago no Atlântico.

Ao estudar em detalhe a sua reprodução, descobrimos que ela apresenta uma das estratégias reprodutivas mais lentas conhecidas entre seus parentes. Essa estratégia provavelmente se moldou ao longo de uma longa história evolutiva em ambiente insular, mas agora pode se tornar um problema em um mundo em rápida transformação.

Um brasileiro de origem africana

À primeira vista, a mabuia-de-Noronha pode parecer apenas mais um lagarto tropical. Mas sua história evolutiva é incomum. Seus parentes mais próximos pertencem a uma linhagem de origem africana. Como, então, essa linhagem acabou isolada em uma pequena ilha brasileira no meio do Atlântico?

A explicação mais aceita é que os ancestrais da espécie chegaram ao Atlântico Sul por dispersão transoceânica, provavelmente em massas flutuantes de vegetação carregadas por correntes marinhas. Essa jornada talvez não tenha ocorrido em uma única travessia direta até Fernando de Noronha, mas em etapas, possivelmente via paleo-ilhas (que existiram em épocas geológicas passadas) hoje submersas.

Uma vez estabelecidos no arquipélago, esses lagartos permaneceram isolados, provavelmente por milhões de anos, e passaram a viver sob condições muito diferentes daquelas encontradas no continente africano.

Ilhas como laboratórios naturais da evolução

Ilhas oceânicas são frequentemente chamadas de "laboratórios naturais da evolução". Por serem pequenas e isoladas, geralmente abrigam menos espécies do que ambientes continentais. Isso altera profundamente as interações ecológicas.

Muitas vezes, há menos predadores e menos competidores de outras espécies. Ao mesmo tempo, as populações que conseguem colonizar a ilha podem atingir densidades elevadas.

Esse conjunto de condições pode favorecer o surgimento da chamada "síndrome da ilha", um padrão evolutivo que afeta aspectos como comportamento, tamanho corporal, dieta, fisiologia e estratégias reprodutivas.

Quando produzir menos filhotes pode ser vantajoso

Em ambientes continentais, muitos animais enfrentam alta mortalidade causada por predadores e outros riscos. Nesses contextos, produzir muitos filhotes aumenta a chance de que ao menos alguns sobrevivam.

Em ilhas oceânicas, porém, o cenário costuma ser diferente. Com menor pressão de predadores e populações frequentemente densas, a competição por recursos tende a ser intensa entre indivíduos da mesma espécie. Nessas circunstâncias, investir mais energia em menos descendentes pode ser vantajoso. Filhotes maiores podem ter melhores chances de competir por alimento e espaço em ambientes populosos. Foi exatamente esse padrão reprodutivo que encontramos na mabuia-de-Noronha.

O que descobrimos sobre a mabuia-de-Noronha

Para descrever a estratégia reprodutiva da espécie, estudamos indivíduos coletados em campo, espécimes preservados em coleções científicas e espécimes de zoológico.

O padrão que emergiu foi claro. A reprodução ocorre em um período relativamente restrito do ano, na estação seca. Nem todas as fêmeas se reproduzem anualmente: nossos dados sugerem que muitas só se reproduzem a cada dois ou até três anos. Quando isso acontece, produzem apenas dois ovos por vez, um número muito baixo para lagartos desse grupo. Esses ovos, porém, são grandes em relação ao tamanho do corpo materno, o que indica alto investimento em cada filhote.

Em comparação com espécies aparentadas do continente africano e de ilhas maiores, a combinação de poucos ovos mais volumosos e baixa frequência reprodutiva concentrada em um período curto do ano é incomum. Esse é o tipo de ajuste reprodutivo previsto para espécies moldadas sob condições típicas de ilhas oceânicas.

Em Noronha, essa estratégia pode ter sido favorecida pela combinação entre menor pressão de predadores, alta densidade populacional e sazonalidade de recursos. Ali, a disponibilidade de alimento varia ao longo do ano e pode influenciar quando e quanto os animais conseguem investir em reprodução.

Mudanças na ilha e o futuro da espécie

Durante grande parte de sua história evolutiva, a mabuia-de-Noronha provavelmente viveu em um ambiente relativamente estável e com menor pressão de predadores. Nessas condições, investir em poucos filhotes maiores pode ter sido uma estratégia bem-sucedida.

O problema é que adaptações evolutivas refletem o passado. Elas não preparam as espécies para mudanças rápidas.

Com a ocupação humana, Fernando de Noronha passou a abrigar predadores introduzidos, como garças, gatos domésticos, ratos e o grande lagarto invasor conhecido como Teiú. Além disso, o ambiente sofreu transformações associadas à urbanização e maior população humana.

Espécies com reprodução "rápida" tendem a se recuperar mais facilmente de quedas populacionais. Já espécies que produzem poucos filhotes, em intervalos longos, têm menos margem para compensar perdas súbitas. Assim, a mesma estratégia reprodutiva que foi vantajosa em um passado com menor mortalidade de adultos pode hoje tornar a mabuia-de-Noronha menos resiliente diante das novas ameaças.

Em nosso estudo, por exemplo, uma das poucas fêmeas grávidas encontradas havia sido atropelada, o que ilustra como pressões recentes podem afetar até populações aparentemente abundantes.

Tudo isso não significa que a espécie esteja necessariamente em risco imediato. No entanto, compreender como ela vive e se reproduz é fundamental para interpretar sua situação ecológica e orientar ações de conservação, quando necessário.

A mabuia-de-Noronha mostra como ambientes isolados podem moldar profundamente a biologia das espécies. Neste caso, a combinação de menos ovos, porém maiores e reprodução pouco frequente oferece um exemplo claro de como a vida em ilhas pode transformar a reprodução. Aponta também como adaptações vantajosas no passado podem se tornar vulnerabilidades no presente.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Selma Maria Almeida-Santos não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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