Script = https://s1.trrsf.com/update-1784747113/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Mundo

Publicidade

O fazendeiro que quis abandonar o narcotráfico na Colômbia, mas não pôde

Colombianos que cultivam a matéria-prima da cocaína lamentam a falta de apoio para ajudá-los a mudar de cultura.

25 jul 2026 - 18h44
Compartilhar
Exibir comentários
O agricultor de coca Perea diz que não recebeu o apoio financeiro necessário para deixar de cultivar a planta
O agricultor de coca Perea diz que não recebeu o apoio financeiro necessário para deixar de cultivar a planta
Foto: BBC News Brasil

Quando Perea parou de cultivar coca, a matéria-prima usada para produzir cocaína, ele jurou nunca mais plantá-la.

Ele arrancou os arbustos verdes de sua pequena propriedade em uma área remota da província de Meta, na Colômbia — acessível apenas por via fluvial — e os substituiu por culturas legais, como mandioca e banana.

Perea foi um dos milhares de agricultores que aderiram a um programa governamental de substituição de cultivos, criado para ajudá-los a abandonar o plantio de coca.

No entanto, grande parte da assistência prometida nunca chegou, e a falta de estradas, somada às inundações recorrentes, dificultava a venda de sua produção.

Em 2024, desiludido, ele voltou a cultivar coca. "É uma tragédia", diz Perea. "Mas, quando você tem filhos e não tem trabalho, que escolha lhe resta? Se a ajuda nunca chega, você volta a cultivar a planta."

Folhas de coca, que podem ser processadas para produzir a droga cocaína
Folhas de coca, que podem ser processadas para produzir a droga cocaína
Foto: BBC News Brasil

A folha de coca é uma cultura ancestral tradicionalmente usada por comunidades indígenas em chás e medicamentos. No entanto, hoje, a maior parte dela é processada para a produção de cocaína. Estima-se que 70% da oferta global dessa droga ilegal provenha da Colômbia.

"A coca apresenta algumas vantagens importantes em relação a outras culturas", afirma Lucas Marín Llanes, pesquisador colombiano especializado na economia da coca e em estratégias de substituição de cultivos. "As colheitas são rápidas — os agricultores conseguem realizar três ou quatro por ano —, o transporte é mais fácil e eles sabem por qual preço venderão."

Pesquisas das quais Marín participou indicam que o cultivo de coca também pode impulsionar as economias locais, tendo elevado o PIB municipal em até 10% em algumas áreas entre 2014 e 2019.

Programas de substituição foram criados para ajudar os agricultores colombianos de coca a abandonar essa cultura e desenvolver meios de subsistência legais.

Contudo, atualmente, o plantio de coca atinge níveis recordes, ultrapassando 250 mil hectares, e muitos colombianos participantes desses programas relatam sentir-se decepcionados.

Elena Hernández mudou-se para a região de cultivo de coca de Guaviare durante o "boom" da década de 1990, atraída por uma remuneração melhor. "Havia mais dinheiro naquela época; via-se isso em toda parte", diz ela. "Consegui economizar e comprar uma casa pequena."

Mas a indústria da coca também trouxe violência e insegurança. Grupos armados disputavam o controle, enquanto o governo tentava conter a produção por meio da erradicação manual, fumigação aérea e prisões.

Esses esforços cortaram a renda das famílias, mas não conseguiram impedir o cultivo. Por isso, quando um programa nacional de substituição foi lançado pelo governo da época, em 2017, Hernández não hesitou em aderir, juntando-se a cerca de 100 mil famílias às quais foi prometido apoio financeiro em troca de abandonar o cultivo de coca.

Cada família deveria receber 36 milhões de pesos colombianos, hoje equivalentes a cerca de R$ 57 mil, pagos ao longo de dois anos.

"Da forma como nos foi apresentado, parecia muito promissor para o desenvolvimento do nosso território", diz Hernández.

Conhecida como Programa Nacional Integral de Substituição de Cultivos Ilícitos (PNIS), a iniciativa surgiu do acordo de paz de 2016 entre o governo e o maior grupo guerrilheiro da Colômbia, as FARC.

Em troca da erradicação de suas plantações de coca, os agricultores também receberiam apoio técnico — inclusive de agrônomos — e orientações sobre o manejo do solo.

Embora já existissem programas de substituição anteriormente, eles tinham alcance limitado. O PNIS foi a tentativa mais ambiciosa até o momento — e, a princípio, parecia estar funcionando.

Em partes do sul de Meta e em Guaviare, as plantações de coca foram substituídas por limoeiros, cultivos de banana e pequenas criações de animais. Muitos agricultores, como Hernández, mantiveram-se afastados da coca.

No entanto, isso não significa que eles considerem a iniciativa um sucesso.

"O governo não estava muito comprometido conosco, agricultores. Fomos maltratados", explica Hernández, apontando problemas que surgiram logo no início.

Houve atrasos nos pagamentos e, com frequência, o apoio técnico não se concretizava. A presença estatal precária nas áreas rurais e a falta de coordenação entre os órgãos faziam com que o apoio muitas vezes não chegasse às comunidades.

O ímpeto do programa diminuiu à medida que as prioridades políticas mudaram. Iván Duque, que assumiu a presidência da Colômbia em 2018, redirecionou a abordagem do governo para estratégias de erradicação e segurança.

Quando o atual presidente, Gustavo Petro, assumiu o cargo em 2022, o PNIS estava atrasado e enfrentava dificuldades para chegar às comunidades.

Doralba Bejarano diz que tem tranquilidade após deixar de cultivar folhas de coca para a indústria da cocaína
Doralba Bejarano diz que tem tranquilidade após deixar de cultivar folhas de coca para a indústria da cocaína
Foto: BBC News Brasil

Mas alguns agricultores relataram melhorias. Para Doralba Bejarano, de Puerto Rico, no sul de Meta, a situação melhorou à medida que o apoio, antes paralisado, começou a chegar.

"Antes do programa, vivíamos aterrorizados", diz ela. "Tínhamos que esconder a pasta de coca porque a polícia e os militares nos prendiam."

A pasta de coca é uma forma mais concentrada da planta, usada na produção de cocaína, o que permite aos produtores ganhar mais do que com a venda das folhas in natura.

Agora, ela diz ter tranquilidade: "Vou aonde quero. Não tenho motivos para me esconder." Conta que muitas pessoas de sua comunidade estão recebendo apoio do governo para promover e vender culturas que não são de coca, bem como outros produtos alimentícios.

Os desafios enfrentados pela substituição de cultivos também são impulsionados por forças que transcendem as fronteiras da Colômbia — a demanda contínua e enorme por cocaína nos EUA e na Europa, bem como o surgimento de novos mercados em outras regiões.

"Neste momento, há uma demanda crescente e, portanto, haverá oferta para atendê-la", afirma Michael Weintraub, codiretor do Centro de Estudos sobre Segurança e Drogas da Universidade dos Andes, sediado em Bogotá, a capital colombiana. "Isso significa que a Colômbia continuará cultivando coca em um futuro próximo."

Weintraub também descreve o cenário de segurança na Colômbia como "frágil", o que dificulta a atuação eficaz de programas de substituição em muitas áreas rurais.

Embora o acordo de paz de 2016 tenha levado à desmobilização de grande parte das FARC, outros grupos armados ocuparam o vácuo deixado, passando frequentemente a controlar rotas de tráfico e as economias locais.

O atual governo tem buscado enfrentar essa situação por meio de sua política de "Paz Total", que envolve negociações de paz com diversos grupos armados e facções criminosas. No entanto, analistas apontam que os avanços têm sido limitados.

No ano passado, o governo iniciou a implementação do RenHacemos — um programa de substituição que visa aproveitar a base do PNIS e, ao mesmo tempo, corrigir suas falhas — em áreas-piloto.

Além de oferecer apoio financeiro aos agricultores, o programa concentra-se na diversificação das economias locais, indo além da simples substituição da cultura agrícola. O suporte mais amplo incluirá melhorias na infraestrutura viária, acesso ao ensino superior, conectividade digital e melhores condições de moradia.

"A coca é um negócio", afirma Gloria Miranda, diretora do órgão governamental responsável pela substituição de cultivos ilícitos na Colômbia.

"É uma atividade criminosa, mas funciona como qualquer outro negócio. O RenHacemos visa substituir não apenas a planta de coca, mas toda a economia que a cerca — desde o processamento e a agroindústria até o transporte e a logística."

No entanto, para muitos analistas, persistem dúvidas sobre se tais abordagens podem gerar mudanças duradouras. Llanes afirma que o crescimento contínuo do cultivo de coca demonstra que as intervenções recorrentes não funcionaram.

Perea mostra-se cético quanto à possibilidade de receber, em breve, apoio do governo para abandonar o cultivo de coca — tanto ele quanto seus vizinhos.

"O Estado nos abandonou completamente", diz ele, em meio aos pés de coca que cercam seu barraco de madeira desgastada. "Vivemos um dia de cada vez; às vezes, até nos falta comida."

Por enquanto, ele diz que continuará cultivando coca — não por ser um criminoso, mas porque, segundo ele, essa é a sua única opção. "Nós não somos os traficantes; se eu fosse, não estaria vivendo como vivo."

BBC News Brasil BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra