Papa Leão 14 viaja à América do Sul em meio a declínio do catolicismo na região
Recém-recuperado de uma cirurgia pulmonar, o papa Leão 14 iniciou uma viagem de 12 dias pela América do Sul para visitar Uruguai, Argentina e Peru. A iniciativa busca conter o declínio do catolicismo na região diante da perda de fiéis e escândalos no clero. A exigente agenda abrange discursos a líderes políticos, como o presidente argentino Javier Milei, além de encontros sociais e o retorno pessoal ao Peru, país onde o pontífice atuou como missionário por duas décadas e moldou sua visão pastoral.
Pontífice terá agenda cheia no Uruguai, Argentina e Peru, semanas após passar por cirurgia no pulmão. No roteiro estarão tensões políticas, o legado de seu antecessor e um aguardado retorno ao país que moldou sua fé.O papa Leão 14 deu início nesta sexta-feira (06/11) a uma ambiciosa viagem de 12 dias pela América do Sul, que deve atrair milhões de fiéis, com um roteiro que inclui uma região de forte tradição católica onde ele viveu por décadas como missionário.
Leão, de 71 anos, irá ao Uruguai, Argentina e Peru, em uma visita que se encerrará em 17 de novembro. A jornada do papa ocorre menos de um mês após a cirurgia em que removeu parte de um pulmão devido a um câncer.
O papa nascido em Chicago, nos Estados Unidos, viveu no Peru por cerca de 20 anos e se tornou cidadão peruano. A viagem, portanto, será marcada por um "retorno a lugares onde ele passou muito tempo e com os quais se sente profundamente conectado", afirmou o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni.
Nesta quarta-feira, Leão disse aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro, em Roma, que espera "fortalecer a fé, renovar a esperança e reacender o fogo da caridade" durante sua passagem pela América do Sul, a região com o maior número de católicos do mundo..
O roteiro da viagem é considerado um dos mais exigentes realizados por um líder católico nas últimas décadas. Leão percorrerá cerca de 31 mil quilômetros, passará por dez cidades e fará 36 discursos.
A América Latina abriga cerca de 40% dos 1,4 bilhão de católicos no mundo. No entanto, a Igreja vem perdendo espaço para movimentos evangélicos, em rápido crescimento no continente, além de enfrentar dificuldades para responder a atitudes sociais mais progressistas e a formas individualizadas de culto. A queda na proporção de fiéis é particularmente notável nos países que Leão visitará.
Líderes católicos locais esperam que a visita do Papa possa revigorar a fé em toda a região e ajudar a restaurar a imagem da Igreja, abalada por escândalos que mancharam sua reputação. Em sua viagem, o papa terá encontros com sobreviventes de abusos sexuais cometidos por membros do clero católico, segundo informou o Vaticano, sem fornecer maiores detalhes.
Vaticano não adota precauções médicas especiais
Em outubro, o Papa passou por uma cirurgia para a retirada de um adenocarcinoma pulmonar, o tipo mais comum de câncer de pulmão. Segundo seus médicos, a doença estava localizada e não seria necessário nenhum tratamento adicional. O Vaticano informou nesta semana que ele se recuperou totalmente da cirurgia e que não estão sendo adotadas precauções especiais para a viagem.
Especialistas médicos ouvidos pela agência de notícias Reuters avaliam que a decisão da equipe médica de autorizar a viagem indica que o risco de complicações decorrentes da cirurgia deve ser baixo, que o pulmão operado estaria totalmente expandido e que as incisões cirúrgicas devem estar cicatrizando sem sinais de infecção.
Eles, no entanto, sugeriram que Leão faça pausas regulares para descansar e considere o uso de oxigênio suplementar, especialmente durante as visitas a locais de grande altitude nos Andes peruanos.
Instabilidades regionais na agenda do papa
O papa tem chegada prevista ao Uruguai na tarde desta sexta-feira, onde permanecerá até domingo, antes de seguir para a Argentina, onde ficará por três dias, e para o Peru, onde passará seis dias. Leão, que nos últimos meses criticou duramente decisões de líderes mundiais, fará discursos dirigidos aos governos de cada país, que serão acompanhados com grande atenção.
No domingo, o papa fará um discurso dirigido ao presidente argentino Javier Milei, um político libertário de direita, aliado próximo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que criticou duramente o papa no início deste ano, após o pontífice ter se manifestado contra a guerra travada pelos EUA no Irã.
Ele também celebrará missas ao ar livre, visitará uma prisão na Argentina e viajará de helicóptero até comunidades andinas remotas no Peru.
Segundo Bruni, os discursos do Papa durante a viagem abordarão uma série de questões que afetam o continente, incluindo a destruição do meio ambiente, o tráfico de armas e a instabilidade política regional. "O papa traz uma mensagem de comunhão e unidade, um convite para que nos reconheçamos uns aos outros [...] como membros de uma mesma família", afirmou.
Seu antecessor, o papa Francisco, nascido na Argentina, visitou o Peru em 2018, mas nunca retornou ao seu país natal. Argentina e Uruguai não recebem visitas papais desde o final da década de 1980.
Uruguai e sua identidade secular
O Uruguai, o primeiro país no roteiro da viagem papal, possui uma identidade secular, com uma separação profundamente enraizada entre a Igreja e o Estado. No país, o Natal é oficialmente chamado de "Dia da Família", e a Semana Santa, de "Semana do Turismo".
Segundo o Vaticano, quase 77% dos 3,5 milhões de habitantes do Uruguai são católicos batizados. No entanto, mais da metade dos uruguaios declara não ter religião - a maior proporção na América Latina -, e apenas uma fração daqueles que se identificam como católicos frequenta a Missa regularmente.
A visita ao país começa com uma cerimônia de boas-vindas na Plaza Independencia, no centro de Montevidéu. No domingo, Leão marcará uma importante data festiva católica que comemora a Virgem dos Trinta e Três — padroeira do Uruguai e um ícone profundamente enraizado na história e no patriotismo do país.
Segundo a tradição, 33 patriotas que lutavam pela independência adquiriram a pequena estátua de madeira, de origem guarani, e a mantiveram consigo quando a independência do Império do Brasil foi declarada, em 25 de agosto de 1825, na cidade uruguaia de Florida. Foi a essa Virgem que os insurgentes confiaram sua fé.
Ao celebrar essa data e comemorar a independência do Uruguai, Leão deve enfatizar que a identidade nacional secular do país está intrinsecamente ligada à sua herança católica. O objetivo é sugerir que, ainda hoje, existe espaço para a fé, mesmo nos países mais secularizados.
Legado controverso do papa Francisco na Argentina
A recusa do papa Francisco em retornar à sua terra natal durante seu pontificado - somada à sua trajetória, que gerou polarização tanto como arcebispo quanto como papa - deixou um legado controverso que acompanhará a visita de Leão ao país.
O papa americano prestará uma homenagem formal ao seu antecessor durante uma visita à catedral de Buenos Aires e, de maneira mais simbólica, ao passar pela prisão federal onde o seu antecessor - o então cardeal Jorge Mario Bergoglio - prestava assistência aos detentos.
Na capital, Leão também se reunirá com o presidente Javier Milei, que, no passado, chegou a afirmar que Francisco era um "representante do mal na Terra" - declaração pela qual Milei pediu desculpas posteriormente.
Contudo, os cortes drásticos nos gastos públicos promovidos por Milei tensionaram as relações com os líderes da Igreja na Argentina. Eles criticaram o governo pelas reduções em verbas destinadas a pessoas com deficiência e por priorizar a ortodoxia econômica em detrimento das necessidades dos mais pobres.
Esse ponto de tensão ficará evidente quando o pontífice visitar o centro de acolhimento Don Orione, em Claypole, ao sul de Buenos Aires, uma instituição católica que abriga mais de 400 pessoas com deficiência e que vem relatando graves dificuldades financeiras decorrentes dos cortes de gastos, valores defasados, inflação e atrasos nos repasses estatais.
Leão 14 também ouvirá relatos sobre as dificuldades econômicas ao se reunir com líderes empresariais, sindicatos, trabalhadores e representantes sociais na Universidade Católica Argentina. Líderes sindicais afirmaram que pretendem informá-lo sobre a crise, incluindo o aumento do desemprego, a pobreza e a erosão do poder de compra das famílias.Segundo dados oficiais, cerca de 32,3% da população argentina vivia na pobreza durante o primeiro semestre de 2026.
Leão 14 celebrará sua primeira missa na Argentina no Monumento de los Españoles, em Buenos Aires, no local onde, em 12 de junho de 1982, o papa João Paulo 2º conduziu orações pela paz em meio à guerra entre a Argentina e o Reino Unido pelas Ilhas Malvinas.
Aguardado retorno ao Peru
O ponto alto da viagem de Leão 14 será, sem dúvida, seu retorno ao Peru, especialmente à sua antiga diocese de Chiclayo, próxima à costa do Pacífico. O papa celebrará missas em todos os locais onde ele atuou anteriormente, incluindo o vilarejo de Santa Cruz de Succhabamba, situado na região montanhosa.
Leão passou duas décadas exercendo seu ministério no Peru, primeiro como padre missionário e, depois, como bispo. Ele atribui a esse país e ao seu povo a formação de sua visão sobre a Igreja e sobre o que significa ser um pastor.
Por conhecer o país tão bem, seus discursos serão acompanhados com grande atenção, especialmente o que irá proferir na praça em frente à catedral de Lima, abordando, segundo o Vaticano, "os desafios e as esperanças para o futuro do povo peruano".
O Peru, uma nação de 34 milhões de habitantes, enfrenta múltiplos desafios: o caos climático provocado pelo fenômeno El Niño, a criminalidade violenta, a pobreza e a desigualdade. Em 2025, 25,7% da população peruana vivia em situação de pobreza.
A presidente ultraconservadora Keiko Fujimori assumiu o poder em julho, prometendo restaurar a ordem em um país assolado pela extorsão e pelos homicídios. A mineração ilegal de ouro e o cultivo de folhas de coca afetam, de maneira particular, os povos indígenas.
Leo se reunirá com grupos populares em Cusco, nos Andes peruanos, e prestará homenagem aos povos indígenas do Peru ao viajar para Pucallpa, na Amazônia peruana, para celebrar uma missa.
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