Premiê da França convoca conferência social após greve geral que levou 1,6 milhão às ruas do país
Após centenas de milhares de pessoas saírem às ruas na quinta-feira (5), o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, anunciou a realização de uma conferência social com representantes das principais centrais sindicais e entidades empresariais. No entanto, a mobilização contra a alta do custo de vida não deve perder força nos próximos dias.
Após greves gerais e protestos que mobilizaram até 1,6 milhão de pessoas por reajustes salariais e poder de compra na França, o premiê Sébastien Lecornu convocou uma conferência social com sindicatos e empresários. Embora o governo avalie elevar o salário mínimo, enfrenta restrições orçamentárias e ceticismo da imprensa. A mobilização pacífica uniu trabalhadores, aposentados e estudantes, afetando escolas e transportes, enquanto novos atos já foram convocados por entidades e coletes amarelos.
Segundo Lecornu, o encontro será dedicado aos salários e ao poder aquisitivo. Até lá, o premiê encarregou o ministro francês do Trabalho, Jean-Pierre Farandou, de concluir as negociações em curso sobre os dois temas. Já ao ministro da Ação e das Contas Públicas, David Amiel, foi dada a missão de continuar as conversas com os representantes do funcionalismo público.
Além de se reunir com as lideranças das principais centrais sindicais, Lecornu deverá se encontrar com os representantes das principais entidades empresariais do país. Por outro lado, organizações estudantis e o movimento dos coletes amarelos já convocaram novos protestos para este sábado (7), nesta que será a quarta grande jornada de manifestações desde o início do movimento, em 17 de outubro.
"Para que o governo recue, não vamos desistir. Nos vemos em 7 de novembro", declarou a União Nacional dos Estudantes da França (Unef).
Segundo a central sindical CGT, os protestos de quinta-feira reuniram 1,6 milhão de pessoas em todo o país; das quais 350 mil em Paris. Já o Ministério francês do Interior contabilizou 575 mil manifestantes em 193 atos, incluindo 65 mil na capital.
Diferentemente dos protestos de 17 de outubro, marcados por episódios de vandalismo e saques à margem dos atos, a maior parte das marchas desta quinta-feira transcorreu de forma pacífica, em um clima festivo, reunindo trabalhadores do setor privado, servidores públicos, aposentados e jovens.
De acordo com o Ministério do Interior, os atos ocorreram de maneira "globalmente tranquila", embora tenham sido registradas violências policiais em algumas cidades. O governo informou ainda a detenção de 448 pessoas e relatou que 53 agentes das forças de segurança ficaram feridos.
"Não há dinheiro"
A imprensa francesa é cética quanto a uma saída rápida da crise. "O que Sébastien Lecornu pode oferecer aos manifestantes que almejam, entre outras coisas, um aumento na remuneração?", questiona o jornal Le Monde nesta sexta-feira (6). Em entrevista ao diário, um ex-assessor do presidente da República, Emmanuel Macron, é categórico: "uma cúpula social significa dinheiro, e, no momento, não há dinheiro".
As organizações sindicais reivindicam um aumento substancial do salário mínimo e, mais amplamente, um aumento das remunerações como um todo. O primeiro-ministro, à frente de um governo em fim de mandato e que alega estar sem recursos, afirma, apesar de tudo, querer "dar respostas às questões relativas ao poder de compra e aos salários".
"A questão que se coloca hoje não é 'vamos ganhar?', mas sim 'quanto vamos ganhar?'", avalia Sophie Binet, dirigente da CGT, que considerou o dia de greve geral um "sucesso". A presidente da central sindical CFDT, Marylise Léon, por sua vez, pede um aumento de € 100 (R$ 615) no salário mínimo e "respostas concretas" para o orçamento dos franceses no final do mês.
O governo assinalou, nos últimos dias, que seria favorável a um aumento das remunerações. O ministro do Trabalho Jean-Pierre Farandou afirmou nesta sexta-feira ao canal TF1 que considera importante elevar o salário mínimo mensal líquido para acima de € 1,5 mil (R$ 9,2 mil). Atualmente, o valor do piso nacional é de € 1.477 (R$ 9 mil) por mês.
União de estudantes, trabalhadores e aposentados
A jornada de protestos desta quinta-feira teve forte participação de estudantes do ensino médio e universitários, que desde o retorno das férias, na segunda-feira (2), retomaram bloqueios e manifestações em diversas partes da França.
Segundo o sindicato Snes-FSU, principal entidade que representa os professores do ensino secundário, quase mil escolas de ensino médio foram bloqueadas ou tiveram as atividades suspensas por decisão administrativa. O governo, por sua vez, contabilizou apenas 81 unidades afetadas entre os cerca de 3.700 estabelecimentos do país.
No ensino superior, o Executivo informou que cerca de um terço das instituições registrou algum tipo de interrupção. Já a União Estudantil afirmou que 90% das aproximadamente 70 universidades francesas aderiram à mobilização, seja por meio de bloqueios, seja com o fechamento dos campi.
A adesão à greve convocada pelas centrais sindicais variou de acordo com a categoria. Segundo o Ministério da Educação, quase 16% dos professores paralisaram as atividades. O Snes-FSU, porém, estima que a taxa de adesão tenha chegado a 52% entre os profissionais das escolas de ensino fundamental e médio.
O setor de transportes registrou impactos limitados. Ainda assim, mais de um em cada três ferroviários da SNCF aderiu à greve, segundo informou o secretário-geral adjunto do sindicato CGT Cheminots, Romain Pitelet.
Nos meios de comunicação, várias emissoras públicas interromperam parcialmente a programação em razão da greve. Jornalistas do canal privado BFMTV também aderiram ao movimento para defender a segurança dos repórteres e a credibilidade do canal, que enfrenta uma crise após ser acusado de veicular declarações racistas. Apesar da paralisação, a emissora continuou exibindo imagens dos protestos com o apoio de colaboradores freelancers.
RFI com AFP
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