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Entenda a greve dos franceses: salários sobem, mas o dinheiro acaba antes do fim do mês

Centenas de milhares de trabalhadores participam nesta quinta-feira (5) de uma greve nacional na França convocada pelas principais centrais sindicais. Por trás da mobilização está uma preocupação crescente com o custo de vida. Convocados pelas principais centrais sindicais, cerca de 250 mil manifestantes do setor público e privado participavam de atos em 73 cidades no início da tarde. Ao longo do dia, os organizadores esperam reunir até 800 mil pessoas em todo o país.

5 nov 2026 - 13h12
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Resumo
Trabalhadores e estudantes franceses realizam greves e protestos contra a perda do poder de compra, provocada pela inflação que supera os reajustes salariais, agravada pela alta nos custos de energia e alimentos. Com metade da população enfrentando dificuldades financeiras, os sindicatos pressionam o governo por reajustes no salário mínimo, justiça fiscal e investimentos nos serviços públicos. As mobilizações afetam transportes e registram tensões e feridos em confrontos com a polícia.

Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris

Sindicalistas e estudantes participam de protesto em Paris, na França. Em 5 de novembro de 2026.
Sindicalistas e estudantes participam de protesto em Paris, na França. Em 5 de novembro de 2026.
Foto: REUTERS - Sarah Meyssonnier / RFI

A mobilização ocorre após semanas de protestos liderados por estudantes e outros movimentos sociais e reflete um crescente descontentamento com a perda de poder de compra e com a política econômica do governo. 

Entre as principais reivindicações estão o aumento dos salários, a valorização do salário mínimo francês, conhecido como SMIC, uma maior justiça fiscal e mais investimentos nos serviços públicos.  

Uma pesquisa divulgada na quarta-feira (4) por organizações ligadas ao chamado "Pacto pelo Poder de Viver", entre elas a central sindical CFDT, mostra a dimensão da preocupação. Segundo o levantamento, metade dos franceses afirma ter dificuldade para viver com a renda disponível em casa. A questão do poder de compra está hoje no centro do debate social no país. 

Segundo o instituto nacional de estatísticas (INSEE), o poder de compra das famílias francesas caiu 0,6% no segundo trimestre de 2026, após já ter recuado 0,2% no primeiro trimestre. Isso significa que a renda disponível das famílias, corrigida pela inflação, diminuiu. Embora os rendimentos continuem crescendo em termos nominais, esse aumento não é suficiente para compensar a alta dos preços, resultando em perda de poder de compra.

Em setembro, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 3%, enquanto os salários cresceram apenas 1,6% no mesmo período. A forte elevação dos preços da energia e dos combustíveis, decorrente das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, e dos alimentos pesou diretamente no orçamento das famílias. 

Na prática, a sensação de perda de poder de compra permanece generalizada. Em depoimentos frequentes à imprensa francesa, trabalhadores afirmam que, depois de pagar aluguel, contas de energia, telecomunicações, seguros e saúde, o dinheiro que resta já não é suficiente para manter o padrão de consumo anterior, chegando a faltar para as despesas básicas de alimentação antes do fim do mês.

O próprio INSEE estima que a perda de poder de compra deverá continuar ao longo do ano, com uma queda de 0,4% em 2026. 

Outro sinal das dificuldades enfrentadas pelos franceses é a redução da poupança. A taxa de poupança das famílias caiu de 17,9% para 17,2% no segundo trimestre. Embora continue acima da média da União Europeia, situada entre 14% e 15%, a queda sugere que parte da população está recorrendo às reservas acumuladas para manter o nível de consumo diante do aumento dos preços. 

As reivindicações salariais refletem essa realidade.

Trabalhadores ganham menos do que o mínimo 

A Confederação Geral do Trabalho (CGT) afirma que mais de 9 milhões de trabalhadores recebem uma remuneração mensal inferior ao SMIC. O número inclui, porém, trabalhadores em tempo parcial, contratos curtos ou situações em que a remuneração mensal não corresponde a um mês completo de trabalho. Para a central sindical, esse contingente demonstra a crescente fragilidade dos trabalhadores de baixa renda. 

O descontentamento também atinge profissionais qualificados do setor privado. Segundo a Associação Geral dos Engenheiros, Executivos e Técnicos da CGT, esses trabalhadores perderam, em média, 3,6% de poder de compra no último ano. Desde 2007, a perda acumulada alcançaria quase 12%. 

Na manifestação em Paris, há vários funcionários do setor privado, como Ken Armede, eletricista na fábrica de automóveis da Stellantis em Poissy, Yvelines. Ele veio acompanhado de cerca de vinte colegas que também estavam em greve. "Os salários precisam, sem dúvida, ser aumentados, porque tudo está ficando mais caro", disse ele, em entrevista à RFI.

Teste para unidade sindical

A mobilização desta quinta-feira é considerada um teste para os sindicatos, que buscam transformar o tema do poder de compra no principal eixo de pressão sobre o governo nos próximos meses e durante a campanha presidencial de 2027. 

Na terça-feira (3), o ministro do Trabalho, Jean-Pierre Farandou, afirmou perante a Assembleia Nacional que o governo deverá apresentar medidas para estimular a dinâmica salarial no país. Entre as opções em estudo estão uma nova atualização do SMIC e o fortalecimento das negociações salariais nos diferentes setores da economia. 

As exigências sindicais, no entanto, são mais amplas. A CGT defende uma valorização de 10% do salário mínimo, enquanto a CFDT - maior sindicato em número de afiliados - propõe o pagamento de um bônus excepcional de 100 euros para os trabalhadores. 

Além das questões econômicas, os manifestantes pedem a melhoria dos serviços públicos, enquanto organizações de defesa das liberdades civis denunciam, ainda, um endurecimento da resposta das autoridades aos protestos. Segundo elas, o governo vem restringindo percursos previamente negociados com os sindicatos e proibindo algumas manifestações sem justificativa suficiente. 

Estudante ferido

Um estudante de 16 anos ficou ferido na manhã desta quinta-feira em frente ao colégio Denis-Papin, em La Courneuve, região metropolitana de Paris, durante um bloqueio parcial da instituição, segundo o Ministério Público de Bobigny e a polícia.

Desde meados de setembro, vários manifestantes, inclusive menores de idade, foram gravemente feridos durante operações de manutenção da ordem. O Ministério do Interior afirma, por sua vez, que 1.193 policiais e gendarmes também ficaram feridos no período. 

A paralisação desta quinta-feira deve provocar perturbações significativas nos transportes públicos, especialmente na circulação ferroviária. 

No último sábado (31), protestos contra o aumento do custo de vida reuniram entre 320 mil e 500 mil pessoas em diversas cidades francesas, confirmando que a deterioração do poder de compra se tornou uma das principais preocupações dos franceses. 

Com RFI e AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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