Script = https://s1.trrsf.com/update-1786557910/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Os óvnis estão inspirando uma nova religião?

Pessoas em todo o mundo estão se reunindo em áreas rurais com o objetivo de estabelecer contato com óvnis por meio de diversas técnicas

14 ago 2026 - 05h34
Compartilhar
Exibir comentários

Há anos, denunciantes alegam publicamente que o governo dos Estados Unidos está ocultando o que sabe sobre óvnis (agora formalmente chamados de "fenômenos anômalos não identificados", ou "UAP" na sigla em inglês).

Essas alegações ganharam novo peso em maio passado, quando o Departamento de Defesa dos EUA iniciou o processo de divulgação de centenas de documentos, imagens e vídeos anteriormente secretos como parte do Sistema Presidencial de Revelação e Relatórios sobre Encontros com UAP

Essas revelações recentes levantam uma velha questão: se o governo dos EUA está reconhecendo oficialmente que UAPs foram observados, será que as alegações de contato com inteligências não humanas que supostamente os operam também poderiam ser verdadeiras? Para entender o que uma alegação de contato real significaria, é útil começar pela estrutura que primeiro tentou categorizar esses encontros.

Em 1972, o astrônomo americano J. Allen Hynek propôs uma estrutura de três partes, os "Contatos Imediatos", para classificar experiências com óvnis que vem moldando o campo desde o final da década de 1940.

Um "Contato Imediato de Primeiro Grau" (CE-1) é um avistamento visual a menos de 150 metros de distância. Um CE-2 envolve efeitos fisiológicos no ambiente ao redor. Um CE-3 envolve a observação de entidades não humanas operando o óvni.

Cinco anos após o lançamento do livro de Hynek, em 1977, o filme de Steven Spielberg Contatos Imediatos do Terceiro Grau consolidou o CE-3 na cultura popular.

Esta ilustração, parte da quinta divulgação de registros da iniciativa PURSUE, é uma visualização de um avistamento de UAP que foi reconstruído pelo FBI usando depoimentos de testemunhas oculares para autoridades federais. Departamento de Guerra dos EUA (Arquivo do Caso Gimbal UAP)
Esta ilustração, parte da quinta divulgação de registros da iniciativa PURSUE, é uma visualização de um avistamento de UAP que foi reconstruído pelo FBI usando depoimentos de testemunhas oculares para autoridades federais. Departamento de Guerra dos EUA (Arquivo do Caso Gimbal UAP)
Foto: The Conversation

Comunicação com UAPs

Posteriormente, pesquisadores ampliaram a classificação de Hynek. Um "Contato Imediato do Quarto Grau" refere-se a abdução para dentro de um UAP.

Já um "Contato Imediato de Quinto Grau" (CE-5) alega uma comunicação iniciada por humanos com a inteligência não humana que opera o UAP, sejam extraterrestres, viajantes do tempo ou os chamados seres interdimensionais.

Aqueles que afirmam ter tido tais encontros são comumente chamados — como no filme recém-lançado de Spielberg Disclosure Day ("O Dia da Revelação" no Brasil) — de "experimentadores".

Um CE-5, no entanto, não é apenas uma categoria de experiência. Nas últimas três décadas, ela se transformou em um protocolo ritualístico praticado por uma comunidade global. Grupos se reúnem em áreas rurais ou desabitadas ao redor do mundo com a intenção de iniciar contato usando várias técnicas. Alguns usam apontadores laser para enviar sinais visuais ao céu e contadores Geiger para medir flutuações nos níveis de radiação.

Luz estroboscópica e sincronização musical também foram observadas juntamente com recitações de mantras, bem como na meditação transcendental focada em "sequenciamento coerente de pensamentos" (onde os praticantes visualizam sua consciência se estendendo até o espaço profundo antes de enviar um convite telepático aos operadores de UAPs para visitar a Terra).

Praticantes do protocolo ritual CE-5 também relatam comunicação telepática, "diálogo de fótons" por meio de luzes intermitentes e sensações corporais provenientes dos UAPs, que interpretam como comunicação interespécies.

Xamanismo com um toque tecnológico

Mas o CE-5 é um novo movimento religioso?

Embora os praticantes rejeitem o rótulo de "religião", suas atividades constituem um protocolo que possibilita experiências extraordinárias com entidades superiores que habitam os céus. O fato de seus esforços para se conectar com extraterrestres se basearem na telepatia e em estados alterados de consciência sugere uma forma ritualisticamente associada ao xamanismo, mas com mediação de tecnologia avançada.

Chamar o CE-5 de "religião" também pode reduzir as convicções sobre a presença extraterrestre em questões de realidade a assuntos de crença ou conspiração, refletindo a rejeição cultural de longa data aos óvnis e aos "homenzinhos verdes"

Sejam religiosos ou não, os praticantes do CE-5 se baseiam em 80 anos de tradição sobre óvnis para promover uma cosmologia na qual a consciência é uma propriedade fundamental do Universo que possibilita a comunicação telepática com inteligências superiores não humanas que visitam a Terra.

O protocolo do CE-5 também se assemelha a uma sessão espírita ritualística. Ele combina meditação transcendental, visualização cósmica, comunicação telepática e uma experiência de "comunicação interna" por meio da qual as sensações corporais se tornam sinais diretos de contato extraterrestre.

Isso apresenta paralelos interessantes com a pesquisa da antropóloga Tanya Luhrmann sobre o cristianismo evangélico nos Estados Unidos e como os fiéis sentem que estão em comunicação direta com Deus por meio de sensações corporais e interpretações religiosas de sua voz interior.

Os praticantes do CE-5 consideram os extraterrestres seres benevolentes e altamente inteligentes, fisicamente presentes no espaço e ao redor da Terra.

Seriam eles, como perguntou a estudiosa de estudos religiosos Diana Pasulka em seu livro de 2019 American Cosmic: UFOs, Religion, Technology (ainda não publicado no Brasil), os anjos da era espacial secular? Em vez de um contato genuíno, será que eles representam, na verdade, um desejo inconsciente de reencantar o Cosmos desspiritualizado?

Uma narrativa de salvação

Muitos adeptos do CE-5 acreditam que o governo dos EUA, em parceria com empresas do setor de defesa, está em posse de naves extraterrestres recuperadas e que cientistas realizaram secretamente a engenharia reversa de tecnologias alienígenas.

Essas alegações têm sido apresentadas por figuras com visões semelhantes, como os ex-oficiais militares e de inteligência Coronel Philip J. Corso, Luis Elizondo e David Grusch (que testemunharam sob juramento perante o Congresso dos EUA que existe uma corrida secreta de armamentos para recuperar e explorar tecnologia não humana que caiu ou pousou na Terra). O governo dos EUA negou essas alegações.

Dentro das comunidades CE-5, o evento de "divulgação", no qual o governo admite possuir tecnologia alienígena, também funciona como uma narrativa de salvação. Isso porque a confirmação oficial promete a libertação tecnológica dos combustíveis fósseis, levando ao surgimento de uma civilização de energia livre.

Assim como nos movimentos milenaristas, o mundo pós-divulgação tão aguardado está sempre iminente, mas perpetuamente adiado.

E se os contatos imediatos fossem reais?

O CE-5 apresenta muitas características de um novo movimento religioso que surge da interseção entre ciência, tecnologia e ansiedades modernas. Ele pode, de fato, reencantar um Universo dessacralizado, visto por meio de paradigmas científicos seculares.

Os UAPs, no entanto, representam um desafio incomum. O governo dos EUA reconheceu que os UAPs são reais, mesmo afirmando que não há evidências confirmadas de origem extraterrestre. Assim, é possível que o CE-5 não se baseie exclusivamente na fé e na imaginação, mas nas interpretações dos participantes sobre encontros autênticos com uma inteligência avançada não humana.

Independentemente de as experiências anômalas relatadas durante os CE-5 envolverem contato genuíno com inteligência não humana, a prática certamente surgiu como um ritual de transição cosmológica.

Isso incentiva os participantes a vivenciar o Universo não como um espaço vazio e inerte, mas como uma comunidade cósmica na qual nós, antigos segundo nossos próprios critérios, acabamos de despertar para o nosso lugar na vizinhança galáctica.

De qualquer forma, é hora de os estudiosos das ciências humanas e sociais levarem a sério os UAPs e a possibilidade de inteligência não humana. O estigma está desaparecendo.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Shayne A. P. Dahl não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra