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Por que algumas pessoas se apaixonam por assassinos? A ciência começa a dar respostas

Fenômeno é conhecido como hibristofilia: ciência alerta que redes sociais como o TikTok, programas de TV sobre crimes reais e a mídia favorecem a idealização de criminosos violentos.

14 ago 2026 - 05h34
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No filme _A irresistível face do mal_, o ator Zac Efron interpretou o assassino em série Ted Bundy: quando transformamos um criminoso em personagem de culto, mesmo que sem querer, corremos o risco de banalizar sua violência e ofuscar aqueles que a sofreram. Netflix
No filme _A irresistível face do mal_, o ator Zac Efron interpretou o assassino em série Ted Bundy: quando transformamos um criminoso em personagem de culto, mesmo que sem querer, corremos o risco de banalizar sua violência e ofuscar aqueles que a sofreram. Netflix
Foto: The Conversation

Em pleno julgamento contra Ted Bundy, um dos assassinos em série mais conhecidos dos Estados Unidos, muitas mulheres começaram a enviar para ele cartas de conteúdo romântico. Era a década de 1970. Anos depois, em plena era das redes sociais, circulam no TikTok vídeos que mostram criminosos violentos como se fossem estrelas de cinema.

Esse fenômeno tem um nome: hibristofilia. Trata-se da atração romântica ou sexual por criminosos perigosos, e parece ser mais frequente entre as mulheres, embora o fenômeno ainda não tenha sido estudado em profundidade.

O termo vem do grego e significa algo como "afinidade por quem comete um ultraje". Também é conhecido como "síndrome de Bonnie e Clyde". Não é classificado como doença nos manuais de psiquiatria, mas pode causar mal-estar e danos à pessoa. Existem dois tipos: passivo — quando alguém admira à distância, escreve cartas ou fantasia em "mudar o outro com seu amor" — ou ativo/agressivo — quando a pessoa colabora com seu parceiro para cometer o crime.

A hibristofilia, portanto, nem sempre fica na esfera da fantasia. Alguns criminosos exploram e manipulam seus admiradores para conseguir cúmplices, apoio logístico ou até mesmo para fugir. Isso obriga a considerar a existência de redes de apoio romântico, inclusive dentro das prisões (como ocorreu com Joyce Mitchell em 2015, uma funcionária de uma prisão do estado de Nova York que ajudou dois condenados a fugir). Do ponto de vista da vitimologia, os "apaixonados" podem se tornar vítimas secundárias, expostas a danos emocionais, financeiros ou físicos.

A fascinação pelos "bad boys"

Por que isso acontece? O conceito foi descrito em 1986 pelo psicólogo neozelandês John Money, embora a fascinação pelos "bad boys" seja muito mais antiga. Algumas explicações apontam para a busca por emoções fortes (um aumento da adrenalina). Outras, para a confusão entre a dominância que muitos agressores demonstram e a noção de força e proteção. Também o desejo de "salvar" alguém ferido. Às vezes, influenciam a baixa autoestima, a ausência da figura paterna, a solidão ou até mesmo um trauma infantil. Mas também foram observados casos em mulheres bem-sucedidas e sem histórico de maus-tratos. Portanto, não há uma causa única, e fatores pessoais, culturais e sociais influenciam.

As evidências científicas sobre a hibristofilia são escassas. Grande parte do que foi publicado é teórico ou anedótico. Alguns trabalhos, no entanto, começam a oferecer dados. Um grupo de pesquisadores analisou vídeos do TikTok e descobriu que, na maioria deles, os criminosos eram sexualmente objetificados ou romantizados. A constatação mais clara foi o que chamaram de "banalização do trauma": a minimização, muitas vezes lúdica, dos crimes e do sofrimento das vítimas.

E a mídia e a cultura popular reforçam esse fenômeno. Filmes e séries costumam retratar criminosos como carismáticos ou incompreendidos. Quando Ted Bundy foi interpretado no cinema por Zac Efron, o charme do ator fez com que muitos esquecessem a gravidade de seus crimes. O auge das histórias reais de crimes e a divulgação nas redes sociais amplificam esse efeito. Aumentam os vídeos que apresentam criminosos como ídolos sexuais, justificando seus atos e transformando a violência em piada.

A hibristofilia se alimenta, assim, de um ambiente que transforma criminosos em celebridades. Ciclos de notícias contínuos, documentários e comunidades digitais projetam uma aura de mistério. Em fóruns sobre crimes reais, compartilham-se fotos, justificam-se crimes e chega-se até a competir sobre quem escreve mais cartas a um preso.

Esse interesse não é novo. Ao longo da história, criminosos condenados, inclusive assassinos em série, tornaram-se objetos de desejo. Alguns receberam cartas com fotos íntimas e conteúdo sexual explícito. Richard Ramirez, conhecido como o "Night Stalker", casou-se na prisão com uma admiradora. Charles Manson, Jeffrey Dahmer e até mesmo terroristas e autores de tiroteios em escolas receberam cartas, presentes e pedidos de casamento. O que eles têm em comum é a fama que lhes foi conferida pela mídia e a aura sombria que os transformou em figuras de culto.

Não é algo exclusivo das mulheres

Embora se costume pensar que seja algo feminino, também há casos de hibristofilia entre homens. No Reino Unido, três homens se sentiram atraídos pela assassina Joanne Dennehy. A obsessão deles foi tão grande que acabaram ajudando-a a esconder cadáveres, enganar a polícia e planejar mais ataques. Nenhum deles tinha antecedentes criminais. Os juízes chamaram isso de "hibristofilia agressiva em homens". Esse exemplo mostra que a atração por um criminoso pode arrastar pessoas comuns para uma vida de crime.

Geração Z e vídeos do TikTok

Atualmente, alguns integrantes da Geração Z apresentam um padrão preocupante no que diz respeito à hibristofilia. Um estudo recente analisou milhares de vídeos no TikTok sobre o tema e identificou sete ideias recorrentes: perdoar mais um criminoso se ele for atraente, confundir o ator com o assassino real, justificar seus atos por causa de uma infância difícil, idealizar o "garoto mau", fantasiar com a ideia de que ele proteja o parceiro, acreditar que o amor pode mudá-lo e brincar com a violência como se fosse erótica. Em todos os casos, o infrator é idealizado e a empatia é direcionada para ele.

O que podemos fazer como sociedade e como usuários? Primeiro, questionar a forma como consumimos essas histórias. Perguntar a nós mesmos quem ganha com cada tendência e quem perde. Dar mais espaço às vítimas e à prevenção do que ao brilho do criminoso. Se um conteúdo nos provoca fascínio por alguém perigoso, parar e pensar por quê. Nas redes sociais, não recompensar com um "curtir" esses comportamentos nem compartilhar material que idealize a violência.

A hibristofilia é pouco frequente, mas a forma de contar essas histórias pode alimentar essa fascinação. Quando transformamos um criminoso em personagem de culto, mesmo que sem querer, corremos o risco de banalizar sua violência e ofuscar aqueles que a sofreram. Contar esses casos sem enfeites nem romantismo ajuda a evitar que a violência seja confundida com algo atraente.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Dolores Fernández Pérez não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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