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Opção por usinas a gás revela contradição do Brasil com metas de mitigação climática

Ao priorizar combustíveis fósseis em detrimento de alternativas renováveis já competitivas, o Brasil sinaliza um afastamento das trajetórias necessárias para limitar o aquecimento global e reduzir vulnerabilidades socioambientais

21 abr 2026 - 13h50
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A leitura dos resultados do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP 2026), ocorrido em março, revela mais do que uma decisão técnica: evidencia uma escolha política e estrutural que contraria o discurso de transição energética do governo brasileiro.

Em um cenário global de urgência climática, o Brasil opta por expandir sua matriz com base em combustíveis fósseis, reforçando uma dependência que a literatura científica já aponta como incompatível com metas de mitigação de emissões.

Os números do certame são evidentes. Dos 104 empreendimentos contratados, 90 são usinas a gás natural, sendo 60 novos projetos. Soma-se a isso a contratação de usinas a carvão e óleo. O que se observa, portanto, é uma expansão concentrada em fontes fósseis, com destaque para novos ativos de vida útil longa.

Essa escolha ganha contornos ainda mais críticos quando analisada espacialmente. As 60 novas usinas a gás se concentram sobretudo no Nordeste e no Sudeste, com destaque para Ceará (2.683 MW), Sergipe (1.565 MW), Rio de Janeiro (1.010 MW), Piauí (973 MW) e Espírito Santo (966 MW). Trata-se, em grande parte, de regiões com elevado potencial para geração renovável, especialmente eólica e solar. A expansão fóssil nesses territórios não decorre de ausência de alternativas, mas da priorização deliberada de um modelo energético mais intensivo em carbono.

Impacto gigantesco

Ao direcionar investimentos para novas termelétricas, o país cria um efeito de lock-in tecnológico, consolidando uma infraestrutura que tende a operar por décadas. Esse fenômeno é amplamente discutido na literatura como um dos principais entraves à descarbonização do setor energético. Na prática, significa comprometer a capacidade futura de transição, ao manter ativos que exigem continuidade operacional para viabilizar seu retorno econômico.

Os impactos dessa decisão não são abstratos. Estimativas indicam que os empreendimentos contratados podem emitir cerca de 14.985 toneladas de CO₂ por hora de operação. Em termos comparativos, isso equivale à emissão diária de aproximadamente 4,6 milhões de veículos. A magnitude desse número explicita o desalinhamento com as recomendações do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas - IPCC , que reforça a necessidade de redução imediata e substancial das emissões no setor energético.

Além da dimensão climática, há também implicações territoriais e sociais. A concentração dos empreendimentos em determinadas regiões reforça desigualdades históricas na distribuição de infraestrutura e investimentos. Ao mesmo tempo, o potencial de soluções descentralizadas, como a geração solar distribuída, segue subaproveitado, apesar de seu papel estratégico na democratização do acesso à energia e na redução de perdas no sistema.

Casos específicos, como o projeto de armazenamento subterrâneo de gás em Pilar (AL), ilustram outro ponto crítico: a adoção de tecnologias ainda pouco consolidadas no contexto nacional, com riscos ambientais relevantes e baixo nível de debate público. A ausência de transparência e participação social em decisões dessa magnitude compromete a legitimidade do planejamento energético.

O Leilão de 2026, portanto, não deve ser interpretado apenas como um mecanismo de garantia de suprimento. Ele materializa uma diretriz de longo prazo. Ao priorizar combustíveis fósseis em detrimento de alternativas renováveis já competitivas, o Brasil sinaliza um afastamento das trajetórias necessárias para limitar o aquecimento global e reduzir vulnerabilidades socioambientais.

Se o planejamento energético define o futuro, o que se observa é uma escolha por um modelo que já deveria estar sendo superado. A questão que se impõe não é apenas técnica, mas estratégica: até que ponto o país está disposto a alinhar seu desenvolvimento às evidências científicas e aos compromissos climáticos assumidos .

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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