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O soldado russo que desertou e teme ser deportado da Alemanha

19 jul 2026 - 17h41
(atualizado em 20/7/2026 às 04h58)
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Autoridades alemãs têm rejeitado quase todos os pedidos de asilos de russos que se recusam a combater na Ucrânia. A DW ouviu o relato de um deles, que teme ser enviado de volta e morrer no front.Quando a Rússia iniciou a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, Nikita Zvezdov tinha apenas 15 anos. Ele foi convocado para o Exército russo logo após completar 18 anos, em abril de 2024.

Recrutas russos são pressionados a assinar contratos de longo prazo com as Forças Armadas
Recrutas russos são pressionados a assinar contratos de longo prazo com as Forças Armadas
Foto: DW / Deutsche Welle

Pouco antes disso, foi reprovado numa escola profissionalizante que frequentava em Krasnoyarsk. Ele acredita que a expulsão foi deliberada.

Nos últimos anos surgiram relatos de que estudantes russos não apenas foram convocados para o Exército, mas também impedidos de passar nos exames ou deliberadamente reprovados para que sua incorporação militar não fosse prejudicada. Essas informações não foram verificadas.

Em maio de 2024, após receber sua notificação de convocação, Zvezdov foi designado para a unidade militar 25573, perto de Ussuriysk. Soldados dessa unidade morrem com frequência em serviço, e também há relatos de assédio, extorsão e espancamentos. Em vários fóruns na internet, a unidade é conhecida por sua criminalidade.

Zvezdov afirma que oficiais da unidade o pressionavam e também outros recrutas a se comprometerem com um período mais longo de serviço militar. "Prometi a mim mesmo e aos meus parentes que não assinaria um contrato [para o conflito]", diz Zvezdov, assegurando que jamais quis lutar contra a Ucrânia.

"Eles me enviaram para um campo de treinamento onde também faziam o que bem entendiam: oficiais atiravam nas pernas de muitos recrutas, os espancavam e os puniam por tudo o que faziam ou deixavam de fazer", relata Zvezdov.

"Fazer 200 flexões usando máscara de gás e correr 50 voltas com um colete à prova de balas carregando de 25 a 30 quilos extras."

Zvezdov diz que começou a ter pensamentos suicidas e chegou a tentar se jogar de um penhasco, mas foi impedido pelos oficiais. Depois disso, outro oficial o forçou a assinar um contrato de serviço.

O jovem russo não está sozinho nessa experiência. As Forças Armadas russas enfrentam escassez de pessoal, e recrutas são regularmente pressionados a permanecer por períodos mais longos.

As mães de vários soldados russos disseram ao veículo russo Astra, que opera principalmente por meio de seu canal no Telegram e foi classificado pelo governo russo como "agente estrangeiro", que seus filhos foram enganados ou assediados até assinarem contratos.

"Sem outra escolha a não ser fugir"

Um mês após assinar o contrato, Zvezdov foi informado de que seria enviado para unidades que operavam em áreas da Ucrânia ocupadas pela Rússia, perto de Melitopol, conhecidas por apresentarem alto índice de baixas.

"Percebi que, na prática, definitivamente não tinha outra escolha além de fugir. Também não seria possível simplesmente esperar passar [o período do contrato]", explica.

Depois de receber seu primeiro pagamento como soldado, de 40 mil rublos (510 dólares), o jovem solicitou licença, supostamente para estocar suprimentos antes de seguir para a linha de frente. Um ex-presidiário, que também havia sido convocado, foi encarregado de monitorá-lo. Zvezdov deveria fazer contato com ele pelo WhatsApp a cada poucas horas. Mas teve sorte: seu responsável não levou a tarefa muito a sério. Zvezdov jogou fora o uniforme e fugiu para a Armênia.

Mesmo assim, passaram-se mais seis meses até que ele fosse oficialmente classificado como desertor. Nesse intervalo, viajou primeiro para a Bósnia e Herzegovina e depois para a Croácia, onde solicitou asilo político.

Sem esperar pela decisão sobre o pedido de asilo, o jovem russo seguiu viagem e chegou à Alemanha em dezembro de 2025, onde vive seu avô, e novamente solicitou asilo político.

As autoridades alemãs rejeitaram o pedido com base na chamada regra de Dublin, da União Europeia, segundo a qual o país de entrada do solicitante é o responsável por analisar seu caso. No caso de Zvezdov, esse país é a Croácia.

Pelas regras, a Alemanha deve enviá-lo de volta à Croácia em até seis meses, e o prazo termina no fim de julho. Se ele não for transferido até lá, a responsabilidade por seu pedido de asilo passa a ser da Alemanha.

No entanto, segundo ativistas de direitos humanos, desertores russos praticamente não têm chance de obter asilo na Alemanha. Isso apesar de o governo alemão anterior, de orientação mais à esquerda, ter afirmado em 2022 que desertores e aqueles que se recusam a lutar na guerra por uma questão de consciência merecem proteção.

Mas declarações públicas de políticos não alteram a interpretação da lei, diz Alexey Kozlov, gerente de projetos de direitos humanos e pesquisa da Solidarus, em Berlim, organização que apoia a sociedade civil em países da antiga União Soviética.

Muitos pedidos semelhantes foram rejeitados sob a justificativa de que desertores não enfrentariam um "risco real" de perseguição severa ou de envio para a Ucrânia em caso de retorno.

O Escritório Federal de Migração e Refugiados da Alemanha (Bamf) confirma isso. Segundo o órgão, cada pedido de asilo e o risco de perseguição enfrentado pelo requerente são analisados individualmente.

A proteção só é concedida "se houver um temor real, individual e justificado de perseguição", afirmou o Bamf.

Prisões improvisadas e câmaras de tortura

Existem centenas de relatos de desertores russos sendo enviados diretamente para a linha de frente e submetidos a maus-tratos. Desde o início da invasão russa da Ucrânia, o Astra identificou 29 centros ilegais de detenção para objetores de consciência russos, principalmente nas regiões ucranianas ocupadas de Luhansk e Donetsk, mas também em território russo.

As prisões improvisadas funcionam em porões, prédios industriais abandonados, acampamentos, residências particulares e outras estruturas. Milhares de soldados russos e cidadãos ucranianos, incluindo feridos e pessoas com deficiência, passaram por esses locais. Neles, oficiais extorquem dinheiro dos detentos, urinam sobre eles, os deixam passar fome, espancam, torturam ou até matam.

Segundo o Astra, os militares russos criaram algo semelhante a uma "câmara de tortura" na pedreira de Pterivka, em Donetsk.

"Levavam os soldados para lá com a cabeça enfiada num saco", contou ao Astra um ex-subcomandante de pelotão que fugiu de sua unidade em 2024 e pediu anonimato. "Não lhes davam comida. Se você quisesse ir ao banheiro, entregavam um saco e mandavam que fizesse ali mesmo. Nos penduravam no teto pelos braços e pelas pernas."

Ele foi preso ali junto com os soldados sob seu comando porque se recusaram a ir para a linha de frente. Ele afirma que quase todos os seus homens morreram naquele local.

Segundo dados do Bundestag (Parlamento alemão), 126 pessoas foram deportadas de volta para a Rússia ao longo de 2025. Kozlov, da Solidarus, afirma que, desde que a nova coalizão de governo assumiu o poder, há um ano, as já reduzidas chances de obtenção de asilo para desertores russos tornaram-se praticamente nulas.

Asilo na igreja adia deportação

No caso de Zvezdov, após ter o pedido de asilo negado na Alemanha, ele conseguiu o chamado "asilo eclesiástico".

Nessa modalidade de asilo, uma congregação religiosa concorda em abrigar temporariamente refugiados ameaçados de deportação. Não existe um direito legal ao asilo eclesiástico na Alemanha, mas, na prática, quando uma igreja concede esse tipo de proteção, o Estado frequentemente suspende os procedimentos de deportação e reavalia o caso.

Graças a isso, Zvezdov pôde deixar um centro de acolhimento para refugiados e se mudar para uma igreja perto de Aachen, no estado da Renânia do Norte-Vestfália. Lá passa quase todo o dia trabalhando na cozinha ou na manutenção do terreno, e a mudança lhe permitiu permanecer na Alemanha.

No centro onde vivia anteriormente, a polícia alemã foi buscá-lo na noite de 16 de junho. Se ele estivesse lá, provavelmente teria sido deportado para a Croácia no dia seguinte.

Agora, o jovem russo conta as horas até 30 de julho, data em que a responsabilidade por seu pedido de asilo passará a ser das autoridades alemãs.

Em caso de rejeição, Zvezdov não sabe o que fará. O mais provável, diz ele, é tentar encontrar refúgio num país fora da União Europeia. De uma coisa tem certeza: não poderá voltar à Rússia por décadas.

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