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O que as tatuagens dos jogadores da Copa do Mundo revelam sobre seus amores, vida e crenças

Enquanto milhões de pessoas assistem à Copa do Mundo de 2026, as tatuagens dos jogadores estarão à mostra, oferecendo um vislumbre da vida interior das maiores estrelas do futebol

19 jun 2026 - 07h38
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As tatuagens nas pernas do meio-campista argentino Leandro Paredes: contratos de publicidade fazem da arte corporal um dos poucos espaços de liberdade pessoal de jogadores de ponta, e as tatuagens podem ser vistas como uma pequena janela para sua alma. Marcelo Endelli/Getty Images
As tatuagens nas pernas do meio-campista argentino Leandro Paredes: contratos de publicidade fazem da arte corporal um dos poucos espaços de liberdade pessoal de jogadores de ponta, e as tatuagens podem ser vistas como uma pequena janela para sua alma. Marcelo Endelli/Getty Images
Foto: The Conversation

Com o início da Copa do Mundo de 2026, veículos tradicionais de notícias e as redes sociais estão repletos de fotos dos jogadores. E muitos deles estão exibindo suas tatuagens.

A arte corporal se tornou cada vez mais parte do futebol internacional, embora sua prevalência possa variar de acordo com as regiões geográficas. Um estudo com atletas participantes da Copa do Mundo de 2018 constatou que os jogadores latino-americanos eram os que mais tinham tatuagens, seguidos pelos da Oceania e da Europa. Os jogadores africanos e asiáticos são os que menos têm tatuagens.

Venho estudando tatuagens e seus papéis espirituais e religiosos desde 2018. Tatuagens são um investimento de tempo e dinheiro; elas tendem a simbolizar algo importante na vida da pessoa. Para atletas profissionais, no entanto, elas assumem outro nível de significado.

Esses atletas atuam em ambientes controlados, nos quais o que fazem e expressam com seus corpos é altamente regulamentado. Um jogador não pode esquiar, andar de bicicleta, malhar ou tirar férias livremente sem levar em conta as obrigações contratuais com empresas e outros investidores. A maioria dos profissionais que disputam a Copa do Mundo também assinou contratos de patrocínio que regulamentam o que podem publicar em suas redes sociais.

Nesse contexto, as tatuagens continuam sendo um dos poucos espaços de liberdade pessoal. Como meus colegas e eu descobrimos em nossa pesquisa, quem faz tatuagens está optando por revelar o que é importante e sagrado para si.

Decifrando o código

Os sociólogos Sam Belkin e Dale Sheptak argumentam que as tatuagens costumam ser uma forma de os atletas expressarem sua humanidade em ambientes onde podem ser alvo de expectativas irreais ou tratados como um ativo. Belkin e Sheptak escrevem que tatuagens visíveis são um tipo de "comunicação não verbal" que permite aos jogadores serem honestos sobre seus sentimentos pessoais e o que é importante para eles.

Meus colegas e eu analisamos as tatuagens da seleção masculina argentina que venceu a última Copa do Mundo no Catar, em 2022. Examinamos cerca de 200 fotos e descobrimos que 20 dos 26 jogadores do elenco tinham um total de 226 tatuagens.

Uma grande tatuagem de tigre é visível nas costas nuas de um jogador de futebol, enquanto a tatuagem no braço de outro jogador pode ser vista quando eles levantam a mão direita após uma vitória.
Uma grande tatuagem de tigre é visível nas costas nuas de um jogador de futebol, enquanto a tatuagem no braço de outro jogador pode ser vista quando eles levantam a mão direita após uma vitória.
Foto: The Conversation
O argentino Rodrigo De Paul, à esquerda, e Lionel Messi no Estádio Lusail, na cidade de Lusail, no Catar, em 9 de dezembro de 2022, com suas tatuagens à mostra.Simon Bruty/Anychance/Getty Images

Analisamos os dados demográficos da equipe, bem como os desenhos das tatuagens e sua localização nos corpos dos jogadores. Também analisamos entrevistas nas quais alguns deles falaram sobre suas vidas e, em alguns casos, as histórias por trás de suas tatuagens. Ao situar essas tatuagens no contexto mais amplo de suas trajetórias profissionais e da cultura religiosa e popular, conseguimos compreender melhor o que a arte corporal significava para eles.

A maioria dos jogadores expressou suas crenças religiosas por meio das tatuagens: 75% deles - 15 de 20 - exibiam tatuagens de figuras religiosas ligadas ao catolicismo, como a Virgem Maria, Jesus e santos; alguns também tinham tatuagens de pombas associadas ao Espírito Santo e de igrejas.

Também observamos diversidade religiosa. Havia tatuagens de Buda, de santos populares e de objetos espirituais. Um jogador tinha uma tatuagem de um apanhador de sonhos - um aro de salgueiro feito à mão com uma rede trançada que se assemelha a uma teia de aranha, normalmente pendurado acima da cama para oferecer proteção; outro tinha a palavra "energía" tatuada no corpo.

Setenta e cinco por cento dos jogadores tinham tatuagens retratando suas conquistas profissionais. Alguns dos símbolos utilizados eram troféus, camisetas e números. Normalmente, os números tatuados correspondiam aos números das camisetas que vestiam.

Oitenta por cento - 16 jogadores - tinham tatuagens que retratavam o que amavam. Essas tatuagens incluem desenhos de números - geralmente datas de nascimento de seus filhos -, nomes de entes queridos ou os olhos ou lábios de seus parceiros.

Algumas tatuagens representavam sua família ampliada, incluindo pais, avós, pessoas que ajudaram a criá-los e até animais de estimação.

A localização também era importante. Cerca de 60% das tatuagens estavam nos braços e na cabeça, locais que ficavam facilmente visíveis quando eles estavam em campo.

Mas o desenho da tatuagem também determinava sua localização: símbolos religiosos eram geralmente feitos em todo o ombro ou bíceps, ou na parte superior ou inferior da perna. Tatuagens relacionadas à carreira profissional costumavam ficar na perna dominante do jogador. Tatuagens de animais eram geralmente feitas nas costas e não ficavam visíveis durante as partidas.

Nem todas as tatuagens são iguais

Muitos estudiosos que pesquisam o futebol examinaram suas relações com a política e exploraram como o esporte tem sido um palco para a política. Diego Maradona, por exemplo, tatuou o revolucionário marxista argentino e líder guerrilheiro Che Guevara no braço direito e o revolucionário cubano Fidel Castro na panturrilha, expressando sua visão política revolucionária. Nossa equipe de pesquisa não encontrou tatuagens políticas entre os jogadores atuais.

O gênero também é importante quando se analisa tatuagens. As jogadoras costumam ser submetidas a um escrutínio maior do que seus colegas homens. Quando a capitã da seleção argentina feminina, Yamila Rodriguez, revelou tatuagens de Cristiano Ronaldo, ela enfrentou críticas intensas dos torcedores e da mídia por ter o astro português, e não o argentino Lionel Messi, retratado na tatuagem. A experiência de Rodriguez destaca que os corpos das mulheres são alvo de julgamentos pessoais de uma forma que os dos homens não são.

Pernas de quatro jogadores em um campo de futebol, duas delas cobertas de tatuagens.
Pernas de quatro jogadores em um campo de futebol, duas delas cobertas de tatuagens.
Foto: The Conversation
Uma tatuagem do jogador português Cristiano Ronaldo na perna da capitã da seleção feminina da Argentina, Yamila Rodriguez, antes de uma partida contra o Uruguai em Montevidéu, Uruguai, em 28 de outubro de 2025.Eitan Abramovich/ AFP via Getty Images

Esta Copa do Mundo, com seu alcance global sem precedentes, oferece uma oportunidade única de observar os valores, crenças e relacionamentos que os jogadores escolhem exibir em seus corpos. De certa forma, as tatuagens podem ser vistas como uma pequena janela para a alma dos jogadores.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Gustavo Morello não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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