O que acontece com a bateria do carro elétrico após a garantia de 8 anos?
Com durabilidade de até 15 anos em aplicações automotivas se bem cuidadas, baterias de lítio exigem descarte correto, ganham 'segunda vida' e impactam o valor de revenda nos usados
Com o avanço dos carros elétricos no Brasil, cresce a atenção à vida útil das baterias, que mantêm até 90% da capacidade após a garantia de oito anos e podem durar até 15 anos com os devidos cuidados. Para evitar riscos ambientais, o descarte deve ser feito em locais homologados, viabilizando a reciclagem de até 99% dos metais. No mercado de usados, a desvalorização pelo custo de reposição tende a ser mitigada pela futura avaliação técnica da saúde da bateria e pelo rastreamento digital do componente.
O crescimento do mercado de carros movidos a energia elétrica no Brasil já deixou de ser apenas uma projeção otimista e se tornou um movimento incontestável nos últimos anos. As vendas de veículos elétricos puros e híbridos atingiram 21% da participação no mercado automotivo em julho de 2026, segundo dados da ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico).
Com o rápido aumento da popularidade da tecnologia, no entanto, surgem novas dúvidas, principalmente relacionadas à durabilidade das baterias de íon de lítio. Em média, os carros movidos a bateria possuem garantia entre oito e dez anos, mantendo autonomia que varia entre 70% e 90% da capacidade original após esse período - desempenho que supera até mesmo as baterias de chumbo-ácido usadas em veículos a combustão. Prova viva de como o alcance se mantém é este empresário que conta com pequena frota de BYD Dolphin Mini.
Ainda assim, algum dia, essas peças ainda precisarão ser trocadas, descartadas ou recicladas.
E esse processo precisa ser feito corretamente, caso contrário, as consequências podem ser prejudiciais tanto para o veículo quanto para o meio ambiente. Isso porque o descarte incorreto desses componentes em lixo comum ou aterros (ato proibido pela Política Nacional de Resíduos Sólidos) pode causar o vazamento de metais pesados e compostos químicos tóxicos, gerando a contaminação crônica de lençois freáticos e do solo, além de riscos de incêndios químicos de difícil extinção.
Trocas e descarte correto das baterias dos carros elétricos
Diante desse cenário, o especialista em carros elétricos da SAE Brasil (Sociedade de Engenheiros da Mobilidade), Wanderlei Marinho, aponta que uma troca segura e eficiente da bateria do carro deve ser feita, sem exceção, em concessionárias ou redes de oficinas autorizadas e homologadas pelo Ibama. "A remoção exige equipamentos de proteção específicos e isolamento elétrico de alta tensão", explica o engenheiro.
Para mitigar os efeitos dos descartes inadequados, Wanderlei propõe soluções de rastreabilidade e investimento em infraestrutura, tais como: punir o desmonte ilegal ou o descarte clandestino por meio do monitoramento eletrônico de veículos que saem de circulação; e subvencionar e expandir usinas de reciclagem locais para que o processo seja economicamente viável perto dos grandes centros urbanos.
Passado o momento em que o reaproveitamento não é mais possível, o próximo e último passo é a reciclagem industrial. Atualmente, a tecnologia mais eficiente combina o desmembramento mecânico das células da bateria com processos de hidrometalurgia.
Com esse método, é possível recuperar entre 93% a 99% dos componentes (como lítio, cobalto, níquel e manganês), e, por fim, reinserí-los na cadeia de produção de novos materiais. A infraestrutura para esse tipo de processo está em rápida expansão no Brasil, justamente para atender a demanda da frota cada vez maior de veículos.
Como manter a saúde da bateria do carro elétrico?
Os oito anos estipulados pelas montadoras ao oferecerem garantias a seus consumidores fazem sentido, sobretudo considerando a perda de capacidade das baterias pelo uso acumulado de recarga e descarga, que é inevitável. Entretanto, elas podem durar mais do que isso, chegando até 15 anos de funcionamento, desde que sejam adotados alguns cuidados especiais, de acordo com estudiosos do tema.
Segundo Bruno Souza, também do setor de manutenção automotiva do Senai-PE, o motorista que visa preservar sua bateria deve "evitar exposição prolongada a temperaturas elevadas, não deixar a carga chegar frequentemente a níveis muito baixos (menos de 20%) durante longos períodos, evitar manter a bateria constantemente em 100% quando isso não for necessário e utilizar carregadores recomendados pelo fabricante".
Em consonância com essa ideia, Wanderlei Marinho indica prestar atenção ao sistema de arrefecimento. "O sistema de gerenciamento térmico do carro protege as células contra degradação por temperatura. Realizar as revisões do fluido de arrefecimento do sistema elétrico conforme o manual é indispensável", pontua ele.
Mercado de usados para carros elétricos
Outra preocupação dos consumidores que envolve as baterias é a desvalorização do valor de revenda do automóvel após o desgaste ou a troca da bateria original. De acordo com Wanderlei, no cenário atual, "há uma depreciação acentuada por causa do receio do consumidor final quanto ao custo de reposição, já que a bateria pode representar uma parcela importante do valor do veículo novo".
Para ele, a tendência é que, em breve, o mercado de usados passará a precificar os carros com base no SoH (State of Health ou Estado de Saúde) da bateria, comprovado por laudos técnicos. Além disso, a indústria global caminha para a adoção do "passaporte da bateria", um registro digital que rastreia todo o histórico de recargas, saúde e uso do componente. "Isso trará transparência e segurança jurídica para o comprador de um veículo usado", conclui o especialista da SAE.
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