O que a eliminação da Copa realmente revela sobre a seleção e o futebol brasileiro
A imagem mais justa do futebol brasileiro é a de uma potência desigual: estruturas de excelência concentradas em poucos clubes e regiões convivem com uma rede de formação precária, pouco protegida e mal articulada em escala nacional
No último dia 5 de julho, a seleção brasileira de futebol somou mais quatro anos ao maior jejum de títulos mundiais da sua história do país. Antes mesmo do apito final do jogo contra a Noruega, já se formava o habitual tribunal da derrota. Em poucas horas, um resultado coletivo virou uma sucessão de responsabilidades individuais, condensadas na pergunta que costuma dominar o debate brasileiro após cada eliminação: afinal, de quem foi a culpa?
No dia seguinte, uma das falas mais interessantes de se ouvir foi a do ex-lateral da seleção duas vezes campeão mundial, Cafu. Em vez de procurar culpados, ele defendeu que Ancelotti tivesse tempo para reconstruir a equipe e dirigiu sua preocupação às categorias de base: "hoje não estamos formando jogadores, estamos formando competidores". Quem jogou como poucos não estava falando de raça, talento ou sorte. Estava falando das condições necessárias para formar jogadores. É a partir dessa perspectiva que proponho aqui analisar a eliminação do Brasil.
As seleções que seguem vivas mostram caminhos diferentes
A Noruega que eliminou o Brasil retornava à Copa do Mundo depois de 28 anos. Essa volta não se explica apenas pela geração de Haaland e Ødegaard, mas por um investimento de longo prazo na formação: crianças e adolescentes permanecem o máximo possível nos clubes locais, treinadores de base recebem formação e a infraestrutura se expande para diminuir as barreiras impostas pelo clima e pelas distâncias. Não se trata de copiar a Noruega, mas de notar que o país tratou sua geografia e suas desigualdades de acesso não como problemas externos, mas como condições a partir das quais construir sua política de formação.
A França mantém, desde antes do título de 1998, uma rede de 16 polos regionais de pré-formação que combina alto rendimento e escolarização para jovens de 13 a 15 anos, antes dos centros de formação dos clubes. Clairefontaine é apenas o mais conhecido desses polos, não uma fábrica isolada de craques. O Marrocos, nas quartas de final com 19 dos 26 convocados nascidos fora do país, articulou a Academia Mohammed VI, infraestrutura, coordenação federativa e financiamento público e privado. A Espanha mostra como clubes, "canteras", competições de base e seleções inferiores produzem continuidade quando o trabalho das categorias se organiza em torno de um modelo de jogo.
A Argentina oferece outra pista. A virada por 3 a 2 sobre o Egito, depois de perder por dois gols até os minutos finais, foi interpretada como demonstração de experiência e capacidade de reagir à adversidade. No vocabulário do futebol brasileiro, isso costuma ser chamado de time "raçudo" ou "cascudo". É tentador tratar essa qualidade como expressão de um espírito nacional, mas ela também tem técnica, tática e história: a "raça" não é apenas uma disposição psicológica, é aprendizado e treino coletivo.
O Brasil não é um vazio. É uma potência desigual
É preciso evitar o diagnóstico apressado de que o Brasil não possui estruturas de formação. Possui, e algumas altamente sofisticadas: em diferentes gerações, Palmeiras, Flamengo e Santos formaram jogadores como Endrick e Estêvão, Vini Jr. e Neymar. A própria CBF destacou que 22 dos 26 convocados para esta Copa passaram pelas seleções brasileiras de base, e o país segue como maior exportador de jogadores do mundo. O problema está no que esses dados escondem: produzir muitos jogadores não significa protegê-los bem, assim como exportar em massa não garante uma seleção equilibrada. A imagem mais justa do futebol brasileiro não é a de um vazio, mas a de uma potência desigual: estruturas de excelência concentradas em poucos clubes e regiões, orientadas pelo mercado, convivem com uma ampla rede de formação precária, pouco protegida e mal articulada em escala nacional.
O Certificado de Clube Formador estabelece requisitos técnicos, educacionais, médicos e de proteção, mas a lista atual da CBF reúne apenas 81 organizações no país — 49 delas no Sudeste e nenhuma na Região Norte. Grande parte da formação brasileira ocorre fora desse padrão, e a certificação esportiva não substitui a fiscalização das instalações.
No incêndio do Ninho do Urubu, em 2019, que matou dez adolescentes, a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro aponta que o centro de treinamento não tinha alvará municipal e que a aprovação dos Bombeiros não abrangia os módulos usados como dormitórios. A tragédia expôs a distância entre os padrões formais e a proteção efetiva dos jovens.
Essa geografia da formação se sobrepõe à geografia da desigualdade. Em um país com 8,5 milhões de quilômetros quadrados e 5.570 municípios, viajar para um teste, mudar de cidade ainda adolescente e permanecer na escola não são detalhes laterais da trajetória de um jogador: são parte do próprio mecanismo de seleção. Antes que a habilidade seja avaliada em campo, muitos jovens já foram excluídos pela distância, pelos custos e pela ausência de redes capazes de sustentar sua formação. Muito talento se perde antes do teste, não durante ele.
A objeção conhecida vem acompanhada da memória: "mas ganhamos cinco Copas sem nada disso". O Brasil, porém, nunca venceu no vazio. Em 1958, foi à Suécia com exames médicos, psicólogo e uma comissão organizada. Em 1970, a seleção símbolo do futebol-arte foi uma das mais preparadas fisicamente de sua época. Em 1994 e 2002, mesmo os craques que atuavam na Europa haviam amadurecido em clubes brasileiros: a seleção ainda se alimentava de um ecossistema doméstico denso.
O que mudou não foi o talento brasileiro, mas o ambiente competitivo na Copa do Mundo e em outros torneios internacionais. Mais federações passaram a investir em categorias de base, formação de treinadores e ciência do esporte, e equipes periféricas chegaram às Copas mais organizadas. A própria competição ficou maior: em 2026, a Copa passou de 32 para 48 seleções, com uma fase eliminatória adicional antes das oitavas.
Cuidar do futebol como política pública
Se o diagnóstico é institucional, a resposta não pode se resumir à troca de um treinador ou à próxima convocação. Também não pode ser terceirizada à CBF, uma entidade privada com interesses próprios. Tratar a formação no futebol como política pública exige distribuir tarefas: à confederação e às federações cabe organizar competições, licenciar estruturas e coordenar as seleções; aos clubes, garantir formação técnica e proteção; ao poder público, assegurar que escola, saúde, fiscalização e direitos acompanhem os jovens em um percurso que atravessa municípios e estados.
O ponto de partida é aproximar as condições de formação dos lugares onde o talento nasce: criar redes territoriais em vez de um único centro; formar treinadores também nas periferias e no interior; vincular o licenciamento à melhoria efetiva das instalações; acompanhar deslocamentos e evasão escolar. A maioria dos jovens que entra nesse percurso não chegará ao profissional, e uma política responsável não pode medir seu sucesso apenas pelos poucos que serão vendidos ou convocados, mas pela proteção oferecida a todos os que ficaram pelo caminho.
Nada disso significa burocratizar o jogo ou sufocar o improviso, que nunca surgiu do nada: nasceu de campos, quadras, ruas, clubes, famílias, treinadores, tempo e convivência. O Brasil não precisa aprender a produzir talento. Precisa deixar de tratar como acaso aquilo que só pode ser sustentado por cuidado, continuidade e responsabilidade coletiva. O desafio não é fabricar craques, mas impedir que o país continue dependendo da sorte para encontrá-los e do culpado da vez para explicar por que eles não formaram uma seleção campeã.
Álex Kalil não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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