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O que a eliminação da Copa realmente revela sobre a seleção e o futebol brasileiro

A imagem mais justa do futebol brasileiro é a de uma potência desigual: estruturas de excelência concentradas em poucos clubes e regiões convivem com uma rede de formação precária, pouco protegida e mal articulada em escala nacional

15 jul 2026 - 14h04
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No último dia 5 de julho, a seleção brasileira de futebol somou mais quatro anos ao maior jejum de títulos mundiais da sua história do país. Antes mesmo do apito final do jogo contra a Noruega, já se formava o habitual tribunal da derrota. Em poucas horas, um resultado coletivo virou uma sucessão de responsabilidades individuais, condensadas na pergunta que costuma dominar o debate brasileiro após cada eliminação: afinal, de quem foi a culpa?

No dia seguinte, uma das falas mais interessantes de se ouvir foi a do ex-lateral da seleção duas vezes campeão mundial, Cafu. Em vez de procurar culpados, ele defendeu que Ancelotti tivesse tempo para reconstruir a equipe e dirigiu sua preocupação às categorias de base: "hoje não estamos formando jogadores, estamos formando competidores". Quem jogou como poucos não estava falando de raça, talento ou sorte. Estava falando das condições necessárias para formar jogadores. É a partir dessa perspectiva que proponho aqui analisar a eliminação do Brasil.

As seleções que seguem vivas mostram caminhos diferentes

A Noruega que eliminou o Brasil retornava à Copa do Mundo depois de 28 anos. Essa volta não se explica apenas pela geração de Haaland e Ødegaard, mas por um investimento de longo prazo na formação: crianças e adolescentes permanecem o máximo possível nos clubes locais, treinadores de base recebem formação e a infraestrutura se expande para diminuir as barreiras impostas pelo clima e pelas distâncias. Não se trata de copiar a Noruega, mas de notar que o país tratou sua geografia e suas desigualdades de acesso não como problemas externos, mas como condições a partir das quais construir sua política de formação.

A França mantém, desde antes do título de 1998, uma rede de 16 polos regionais de pré-formação que combina alto rendimento e escolarização para jovens de 13 a 15 anos, antes dos centros de formação dos clubes. Clairefontaine é apenas o mais conhecido desses polos, não uma fábrica isolada de craques. O Marrocos, nas quartas de final com 19 dos 26 convocados nascidos fora do país, articulou a Academia Mohammed VI, infraestrutura, coordenação federativa e financiamento público e privado. A Espanha mostra como clubes, "canteras", competições de base e seleções inferiores produzem continuidade quando o trabalho das categorias se organiza em torno de um modelo de jogo.

A Argentina oferece outra pista. A virada por 3 a 2 sobre o Egito, depois de perder por dois gols até os minutos finais, foi interpretada como demonstração de experiência e capacidade de reagir à adversidade. No vocabulário do futebol brasileiro, isso costuma ser chamado de time "raçudo" ou "cascudo". É tentador tratar essa qualidade como expressão de um espírito nacional, mas ela também tem técnica, tática e história: a "raça" não é apenas uma disposição psicológica, é aprendizado e treino coletivo.

O Brasil não é um vazio. É uma potência desigual

É preciso evitar o diagnóstico apressado de que o Brasil não possui estruturas de formação. Possui, e algumas altamente sofisticadas: em diferentes gerações, Palmeiras, Flamengo e Santos formaram jogadores como Endrick e Estêvão, Vini Jr. e Neymar. A própria CBF destacou que 22 dos 26 convocados para esta Copa passaram pelas seleções brasileiras de base, e o país segue como maior exportador de jogadores do mundo. O problema está no que esses dados escondem: produzir muitos jogadores não significa protegê-los bem, assim como exportar em massa não garante uma seleção equilibrada. A imagem mais justa do futebol brasileiro não é a de um vazio, mas a de uma potência desigual: estruturas de excelência concentradas em poucos clubes e regiões, orientadas pelo mercado, convivem com uma ampla rede de formação precária, pouco protegida e mal articulada em escala nacional.

O Certificado de Clube Formador estabelece requisitos técnicos, educacionais, médicos e de proteção, mas a lista atual da CBF reúne apenas 81 organizações no país — 49 delas no Sudeste e nenhuma na Região Norte. Grande parte da formação brasileira ocorre fora desse padrão, e a certificação esportiva não substitui a fiscalização das instalações.

No incêndio do Ninho do Urubu, em 2019, que matou dez adolescentes, a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro aponta que o centro de treinamento não tinha alvará municipal e que a aprovação dos Bombeiros não abrangia os módulos usados como dormitórios. A tragédia expôs a distância entre os padrões formais e a proteção efetiva dos jovens.

Essa geografia da formação se sobrepõe à geografia da desigualdade. Em um país com 8,5 milhões de quilômetros quadrados e 5.570 municípios, viajar para um teste, mudar de cidade ainda adolescente e permanecer na escola não são detalhes laterais da trajetória de um jogador: são parte do próprio mecanismo de seleção. Antes que a habilidade seja avaliada em campo, muitos jovens já foram excluídos pela distância, pelos custos e pela ausência de redes capazes de sustentar sua formação. Muito talento se perde antes do teste, não durante ele.

A objeção conhecida vem acompanhada da memória: "mas ganhamos cinco Copas sem nada disso". O Brasil, porém, nunca venceu no vazio. Em 1958, foi à Suécia com exames médicos, psicólogo e uma comissão organizada. Em 1970, a seleção símbolo do futebol-arte foi uma das mais preparadas fisicamente de sua época. Em 1994 e 2002, mesmo os craques que atuavam na Europa haviam amadurecido em clubes brasileiros: a seleção ainda se alimentava de um ecossistema doméstico denso.

O que mudou não foi o talento brasileiro, mas o ambiente competitivo na Copa do Mundo e em outros torneios internacionais. Mais federações passaram a investir em categorias de base, formação de treinadores e ciência do esporte, e equipes periféricas chegaram às Copas mais organizadas. A própria competição ficou maior: em 2026, a Copa passou de 32 para 48 seleções, com uma fase eliminatória adicional antes das oitavas.

Cuidar do futebol como política pública

Se o diagnóstico é institucional, a resposta não pode se resumir à troca de um treinador ou à próxima convocação. Também não pode ser terceirizada à CBF, uma entidade privada com interesses próprios. Tratar a formação no futebol como política pública exige distribuir tarefas: à confederação e às federações cabe organizar competições, licenciar estruturas e coordenar as seleções; aos clubes, garantir formação técnica e proteção; ao poder público, assegurar que escola, saúde, fiscalização e direitos acompanhem os jovens em um percurso que atravessa municípios e estados.

O ponto de partida é aproximar as condições de formação dos lugares onde o talento nasce: criar redes territoriais em vez de um único centro; formar treinadores também nas periferias e no interior; vincular o licenciamento à melhoria efetiva das instalações; acompanhar deslocamentos e evasão escolar. A maioria dos jovens que entra nesse percurso não chegará ao profissional, e uma política responsável não pode medir seu sucesso apenas pelos poucos que serão vendidos ou convocados, mas pela proteção oferecida a todos os que ficaram pelo caminho.

Nada disso significa burocratizar o jogo ou sufocar o improviso, que nunca surgiu do nada: nasceu de campos, quadras, ruas, clubes, famílias, treinadores, tempo e convivência. O Brasil não precisa aprender a produzir talento. Precisa deixar de tratar como acaso aquilo que só pode ser sustentado por cuidado, continuidade e responsabilidade coletiva. O desafio não é fabricar craques, mas impedir que o país continue dependendo da sorte para encontrá-los e do culpado da vez para explicar por que eles não formaram uma seleção campeã.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Álex Kalil não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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