Script = https://s1.trrsf.com/update-1785845726/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

O preço da guerra no Oriente Médio para as cadeias de energia, transportes, medicamentos e fertilizantes

A interrupção de rotas estratégicas, a alta dos custos logísticos, o aumento do custo dos seguros e a volatilidade do petróleo estão produzindo efeitos em cascata que atingem diferentes setores da economia mundial

12 ago 2026 - 06h16
Compartilhar
Exibir comentários

Os últimos desdobramentos da guerra entre Estados Unidos e Irã recolocaram no centro do debate uma questão de amplo alcance e muitas consequências: de que modo um conflito regional pode afetar simultaneamente as cadeias globais de energia, transporte, derivados de petróleo, medicamentos e fertilizantes?

A segurança dessas cadeias de suprimentos é um componente importante da estratégia econômica e geopolítica global. A interrupção de rotas estratégicas, a alta dos custos logísticos, o aumento do custo dos seguros e a volatilidade do petróleo estão produzindo efeitos em cascata que atingem diferentes setores da economia mundial.

Os efeitos desse cenário podem ser percebidos em três indicadores: o preço do petróleo, o fluxo de embarcações e o custo dos seguros marítimos. Recentemente, por exemplo, a Lloyd's, de Londres, maior praça seguradora do mundo, cobriu os riscos de uma única travessia do Estreito de Hormuz por um superpetroleiro com uma apólice superior a US$ 10 milhões. A alta do petróleo e sua volatilidade criam um ambiente de insegurança danoso ao mundo negocial.

Insegurança e longas travessias

O Estreito de Hormuz é um dos corredores marítimos mais estratégicos do mundo para o transporte de petróleo. As atuais interrupções nessa rota afetam o abastecimento de energia e desencadeiam impactos em cascata sobre cadeias globais de suprimentos.

Ao mesmo tempo, no ponto oposto a Hormuz, os Houthis mantêm ataques no Estreito de Bab-el-Mandeb, principal acesso ao Mar Vermelho.

Após bombardeios recentes ao porto de Damieta, no Egito, próximo à entrada do Canal de Suez (rota marítima mais curta entre Europa e Ásia), a região também passou a representar uma área de risco. Com isso, deixou de ser uma alternativa segura para a Arábia Saudita exportar petróleo pelo porto de Yanbu, no Mar Vermelho, tanto é que o tráfego de navios em algumas dessas rotas teve redução de até 95%.

Paralelamente, o Canal do Panamá registra aumento de travessias, operando próximo da capacidade máxima. Entretanto, a seca provocada pelo fenômeno El Niño obrigou a restringir a tonelagem das embarcações e criou dificuldades adicionais para os superpetroleiros.

O aumento da demanda também ampliou as filas de espera, transformando travessias de cerca de dez horas em viagens que podem superar dez dias, elevando o custo do frete. Para o Brasil, isso tem impacto direto sobre o agronegócio.

A disrupção estratégica da cadeia de suprimentos

De imediato, a guerra acirra os desafios de produção, transporte e comercialização dos derivados de petróleo. A interrupção ou o encarecimento das principais rotas comerciais do Oriente Médio colocou sob pressão cadeias produtivas altamente dependentes desses insumos. Destaca-se a cadeia farmacêutica de suprimentos — estimada em US$ 2 bilhões em 2022 e com projeção de US$ 5 bilhões em 2032.

Sua estabilidade no fornecimento de medicamentos essenciais, como analgésicos, antibióticos, antirretrovirais e fármacos oncológicos, depende da circulação contínua de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs), matérias-primas, embalagens e produtos acabados. Em alguns medicamentos, essa relação começa na própria síntese do princípio ativo: o fenol de origem petroquímica, por exemplo, integra a produção convencional de aspirina e paracetamol. Em outros, como a penicilina, obtida por fermentação, e a tirzepatida, um peptídeo sintético, a relação com a petroquímica ocorre em diferentes etapas do processo industrial, sob a forma de solventes, reagentes, resinas e plásticos.

Derivados petroquímicos também são usados em revestimentos de comprimidos de liberação controlada. O Eudragit, polímero acrílico protegido por um conjunto de cerca de 23 mil patentes, é usado há mais de 70 anos para controlar a liberação de princípios ativos no organismo.

Neste segmento, a disrupção da cadeia de suprimentos pode ser provocada por fatores como escassez global de IFAs e falhas na rede de frio (temperatura inadequada), além de crises geopolíticas que comprometem o tráfego aéreo e marítimo. No momento, o bloqueio contínuo das principais rotas do Oriente Médio reúne praticamente todos esses fatores, exercendo uma pressão sem precedentes sobre a cadeia farmacêutica em escala global.

As consequências dos bloqueios já são sentidas. No Reino Unido, em janeiro de 2026, as disrupções na cadeia de suprimentos elevaram o custo da aspirina em 1.000%. Segundo levantamento da National Pharmacy Association (NPA), 86% das farmácias pesquisadas não conseguiram atender às solicitações do medicamento. De modo geral, o país também apresenta elevada dependência de IFAs importados, dos quais aproximadamente 25% vêm da Índia e mais de 40% são comprados da China.

Os Estados Unidos importam cerca de 40% dos IFAs da Índia e 16% da China. Assim, as disrupções na produção de derivados de petróleo — especialmente na indústria indiana — também atingem diretamente o mercado americano. No momento, o país vive um impasse entre a constatação da inexequibilidade de uma solução militar e a dificuldade de produzir respostas diplomáticas capazes de reduzir as tensões na região. Ao mesmo tempo, sinaliza a intenção de impor tarifas de 100% sobre medicamentos genéricos importados da Índia a partir de 2028, medida que tende a adicionar novos fatores de instabilidade ao mercado farmacêutico internacional.

O impacto sobre o Brasil

A dependência brasileira de IFAs provenientes da Índia e da China alcança cerca de 95%. Isso torna o país particularmente vulnerável às flutuações do preço do petróleo, aos gargalos logísticos e às crises geopolíticas.

Entre os insumos de importância estratégica para o Brasil encontram-se também os fertilizantes. Estes são obtidos a partir do gás natural, que pode ou não estar associado ao petróleo. O Irã possui a segunda maior reserva do mundo deste gás, composto principalmente por metano e utilizado como matéria-prima na produção de fertilizantes nitrogenados. A partir dele obtém-se hidrogênio empregado na fabricação de amônia, matéria-prima de substâncias como a ureia, amplamente utilizada na agricultura como fonte de nitrogênio.

Os efeitos da pressão sobre os preços da energia e do gás natural são particularmente relevantes para o Brasil. Em 2025, a dependência de fertilizantes importados ultrapassou 85% do consumo nacional, atingindo o recorde de 45,5 milhões de toneladas.

China (24%), Índia (15%), Brasil (10%) e Estados Unidos (10%) respondem juntos por quase 60% do consumo mundial de fertilizantes nitrogenados. Entre eles, o Brasil ocupa a posição mais sensível, dada sua reduzida produção doméstica. Em 2022, ainda que com vários anos de atraso, foi lançado o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), cuja principal meta é reduzir a dependência externa para cerca de 50% do consumo até 2050.

A utilização intensiva de fertilizantes nitrogenados também amplia as emissões de óxido nitroso (N₂O), gás com potencial de aquecimento cerca de 265 vezes superior ao dióxido de carbono. Uma resposta possível seria incentivar a produção nacional de fertilizantes verdes, reduzindo a dependência de importações provenientes de regiões de alto risco geopolítico. No Brasil, existem quase vinte projetos nessa direção, mas a maior parte permanece na fase de estudos de viabilidade, reflexo de uma governança fragmentada e da baixa articulação entre os diferentes ministérios envolvidos.

Ao que tudo indica, não há perspectiva de mudanças significativas no curto prazo. Se a instabilidade no Oriente Médio persistir — e especialmente caso seus efeitos se somem aos da guerra na Ucrânia —, a tendência global é de aumento dos custos, ampliação das restrições logísticas e maior pressão sobre o abastecimento de medicamentos genéricos e fertilizantes.

Em um mundo cada vez mais dependente de cadeias globais altamente especializadas, a cadeia de suprimentos deixou de ser apenas uma questão comercial para tornar-se um componente da estratégia nacional. Enquanto isso, superpetroleiros operam quase simbolicamente, retêm contêineres e enfrentam longas filas para atravessar estreitos e canais. Um futuro incerto, em que o comércio internacional volta a percorrer o caminho marítimo de Vasco da Gama, contornando o Cabo da Boa Esperança para escapar dos mais modernos drones.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Carlos Roberto Oliveira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra