O preço da guerra no Oriente Médio para as cadeias de energia, transportes, medicamentos e fertilizantes
A interrupção de rotas estratégicas, a alta dos custos logísticos, o aumento do custo dos seguros e a volatilidade do petróleo estão produzindo efeitos em cascata que atingem diferentes setores da economia mundial
Os últimos desdobramentos da guerra entre Estados Unidos e Irã recolocaram no centro do debate uma questão de amplo alcance e muitas consequências: de que modo um conflito regional pode afetar simultaneamente as cadeias globais de energia, transporte, derivados de petróleo, medicamentos e fertilizantes?
A segurança dessas cadeias de suprimentos é um componente importante da estratégia econômica e geopolítica global. A interrupção de rotas estratégicas, a alta dos custos logísticos, o aumento do custo dos seguros e a volatilidade do petróleo estão produzindo efeitos em cascata que atingem diferentes setores da economia mundial.
Os efeitos desse cenário podem ser percebidos em três indicadores: o preço do petróleo, o fluxo de embarcações e o custo dos seguros marítimos. Recentemente, por exemplo, a Lloyd's, de Londres, maior praça seguradora do mundo, cobriu os riscos de uma única travessia do Estreito de Hormuz por um superpetroleiro com uma apólice superior a US$ 10 milhões. A alta do petróleo e sua volatilidade criam um ambiente de insegurança danoso ao mundo negocial.
Insegurança e longas travessias
O Estreito de Hormuz é um dos corredores marítimos mais estratégicos do mundo para o transporte de petróleo. As atuais interrupções nessa rota afetam o abastecimento de energia e desencadeiam impactos em cascata sobre cadeias globais de suprimentos.
Ao mesmo tempo, no ponto oposto a Hormuz, os Houthis mantêm ataques no Estreito de Bab-el-Mandeb, principal acesso ao Mar Vermelho.
Após bombardeios recentes ao porto de Damieta, no Egito, próximo à entrada do Canal de Suez (rota marítima mais curta entre Europa e Ásia), a região também passou a representar uma área de risco. Com isso, deixou de ser uma alternativa segura para a Arábia Saudita exportar petróleo pelo porto de Yanbu, no Mar Vermelho, tanto é que o tráfego de navios em algumas dessas rotas teve redução de até 95%.
Paralelamente, o Canal do Panamá registra aumento de travessias, operando próximo da capacidade máxima. Entretanto, a seca provocada pelo fenômeno El Niño obrigou a restringir a tonelagem das embarcações e criou dificuldades adicionais para os superpetroleiros.
O aumento da demanda também ampliou as filas de espera, transformando travessias de cerca de dez horas em viagens que podem superar dez dias, elevando o custo do frete. Para o Brasil, isso tem impacto direto sobre o agronegócio.
A disrupção estratégica da cadeia de suprimentos
De imediato, a guerra acirra os desafios de produção, transporte e comercialização dos derivados de petróleo. A interrupção ou o encarecimento das principais rotas comerciais do Oriente Médio colocou sob pressão cadeias produtivas altamente dependentes desses insumos. Destaca-se a cadeia farmacêutica de suprimentos — estimada em US$ 2 bilhões em 2022 e com projeção de US$ 5 bilhões em 2032.
Sua estabilidade no fornecimento de medicamentos essenciais, como analgésicos, antibióticos, antirretrovirais e fármacos oncológicos, depende da circulação contínua de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs), matérias-primas, embalagens e produtos acabados. Em alguns medicamentos, essa relação começa na própria síntese do princípio ativo: o fenol de origem petroquímica, por exemplo, integra a produção convencional de aspirina e paracetamol. Em outros, como a penicilina, obtida por fermentação, e a tirzepatida, um peptídeo sintético, a relação com a petroquímica ocorre em diferentes etapas do processo industrial, sob a forma de solventes, reagentes, resinas e plásticos.
Derivados petroquímicos também são usados em revestimentos de comprimidos de liberação controlada. O Eudragit, polímero acrílico protegido por um conjunto de cerca de 23 mil patentes, é usado há mais de 70 anos para controlar a liberação de princípios ativos no organismo.
Neste segmento, a disrupção da cadeia de suprimentos pode ser provocada por fatores como escassez global de IFAs e falhas na rede de frio (temperatura inadequada), além de crises geopolíticas que comprometem o tráfego aéreo e marítimo. No momento, o bloqueio contínuo das principais rotas do Oriente Médio reúne praticamente todos esses fatores, exercendo uma pressão sem precedentes sobre a cadeia farmacêutica em escala global.
As consequências dos bloqueios já são sentidas. No Reino Unido, em janeiro de 2026, as disrupções na cadeia de suprimentos elevaram o custo da aspirina em 1.000%. Segundo levantamento da National Pharmacy Association (NPA), 86% das farmácias pesquisadas não conseguiram atender às solicitações do medicamento. De modo geral, o país também apresenta elevada dependência de IFAs importados, dos quais aproximadamente 25% vêm da Índia e mais de 40% são comprados da China.
Os Estados Unidos importam cerca de 40% dos IFAs da Índia e 16% da China. Assim, as disrupções na produção de derivados de petróleo — especialmente na indústria indiana — também atingem diretamente o mercado americano. No momento, o país vive um impasse entre a constatação da inexequibilidade de uma solução militar e a dificuldade de produzir respostas diplomáticas capazes de reduzir as tensões na região. Ao mesmo tempo, sinaliza a intenção de impor tarifas de 100% sobre medicamentos genéricos importados da Índia a partir de 2028, medida que tende a adicionar novos fatores de instabilidade ao mercado farmacêutico internacional.
O impacto sobre o Brasil
A dependência brasileira de IFAs provenientes da Índia e da China alcança cerca de 95%. Isso torna o país particularmente vulnerável às flutuações do preço do petróleo, aos gargalos logísticos e às crises geopolíticas.
Entre os insumos de importância estratégica para o Brasil encontram-se também os fertilizantes. Estes são obtidos a partir do gás natural, que pode ou não estar associado ao petróleo. O Irã possui a segunda maior reserva do mundo deste gás, composto principalmente por metano e utilizado como matéria-prima na produção de fertilizantes nitrogenados. A partir dele obtém-se hidrogênio empregado na fabricação de amônia, matéria-prima de substâncias como a ureia, amplamente utilizada na agricultura como fonte de nitrogênio.
Os efeitos da pressão sobre os preços da energia e do gás natural são particularmente relevantes para o Brasil. Em 2025, a dependência de fertilizantes importados ultrapassou 85% do consumo nacional, atingindo o recorde de 45,5 milhões de toneladas.
China (24%), Índia (15%), Brasil (10%) e Estados Unidos (10%) respondem juntos por quase 60% do consumo mundial de fertilizantes nitrogenados. Entre eles, o Brasil ocupa a posição mais sensível, dada sua reduzida produção doméstica. Em 2022, ainda que com vários anos de atraso, foi lançado o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), cuja principal meta é reduzir a dependência externa para cerca de 50% do consumo até 2050.
A utilização intensiva de fertilizantes nitrogenados também amplia as emissões de óxido nitroso (N₂O), gás com potencial de aquecimento cerca de 265 vezes superior ao dióxido de carbono. Uma resposta possível seria incentivar a produção nacional de fertilizantes verdes, reduzindo a dependência de importações provenientes de regiões de alto risco geopolítico. No Brasil, existem quase vinte projetos nessa direção, mas a maior parte permanece na fase de estudos de viabilidade, reflexo de uma governança fragmentada e da baixa articulação entre os diferentes ministérios envolvidos.
Ao que tudo indica, não há perspectiva de mudanças significativas no curto prazo. Se a instabilidade no Oriente Médio persistir — e especialmente caso seus efeitos se somem aos da guerra na Ucrânia —, a tendência global é de aumento dos custos, ampliação das restrições logísticas e maior pressão sobre o abastecimento de medicamentos genéricos e fertilizantes.
Em um mundo cada vez mais dependente de cadeias globais altamente especializadas, a cadeia de suprimentos deixou de ser apenas uma questão comercial para tornar-se um componente da estratégia nacional. Enquanto isso, superpetroleiros operam quase simbolicamente, retêm contêineres e enfrentam longas filas para atravessar estreitos e canais. Um futuro incerto, em que o comércio internacional volta a percorrer o caminho marítimo de Vasco da Gama, contornando o Cabo da Boa Esperança para escapar dos mais modernos drones.
Carlos Roberto Oliveira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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