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O paradoxo da Nigéria: entre a falta de combustível interna e exportação recorde

27 ago 2026 - 09h56
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Resumo
Impulsionada pela megarrefinaria Dangote e pela crise no Oriente Médio, a Nigéria tornou-se a maior fornecedora de querosene de aviação para a Europa. No entanto, o mercado desregulamentado e os preços baseados na paridade internacional criaram uma crise interna: as companhias aéreas nigerianas enfrentam escassez, altos custos logísticos e dívidas crescentes, pois não conseguem competir financeiramente com os compradores estrangeiros pelo combustível refinado no próprio país.

Na esteira da guerra no Irã, a Nigéria se tornou o maior fornecedor de querosene de aviação da Europa. Enquanto isso, internamente, as próprias companhias aéreas do país lutam para manter seus tanques cheios.Nos últimos dois meses, a Nigéria emergiu como a maior fornecedora de querosene de aviação para a Europa, ultrapassando os Estados Unidos.

Uma megarrefinaria de 650 mil barris por dia localizada nos arredores de Lagos, pertencente ao homem mais rico da África, Aliko Dangote, tornou-se fonte cada vez mais importante de combustível para o continente após as interrupções no abastecimento provocadas pela guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã.

Durante os meses de pico do verão passado, a maior parte desse abastecimento ainda vinha do Oriente Médio.

Mas, desde o fechamento do estreito de Ormuz no início deste ano, a Europa passou a depender de importações de aproximadamente 700 mil barris por dia para atender à demanda atual da indústria da aviação, segundo a Kpler, empresa privada global de inteligência comercial.

Tanques de combustível vazios na Europa

Em abril, o diretor da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, manifestou preocupação ao afirmar que, naquele momento, a Europa possuía "talvez apenas cerca de seis semanas" de estoque de querosene de aviação.

Menos de dois meses depois, quatro aeroportos do norte da Itália — Bolonha, Veneza, Treviso e Linate, em Milão — chegaram a introduzir restrições temporárias ao uso de combustível de aviação, impondo um limite de 2 mil litros por aeronave em voos de curta distância, segundo a imprensa local, ao mesmo tempo em que davam prioridade a voos médicos e de longa distância.

Desde então, a Europa conseguiu absorver o impacto do fechamento do estreito de Ormuz ao diversificar suas fontes de abastecimento e ampliar as importações de países como a Nigéria. Mas a que custo?

O paradoxo da produção excedente

A Nigéria continua produzindo uma quantidade recorde de querosene de aviação por meio da refinaria Dangote, o equivalente a cerca de 24 milhões de litros por dia. Boa parte desse volume agora é destinada à Europa.

Em contrapartida, o preço do combustível disparou no país da África Ocidental, colocando as companhias aéreas locais em dificuldade para atender à demanda diária estimada.

Pesa ainda a arbitrariedade de quem domina esse mercado. "A Nigéria opera um mercado de combustíveis totalmente desregulamentado, no qual a Dangote define os preços de seus produtos com base na paridade internacional, e não em tarifas domésticas preferenciais", explica Ikemesit Effiong, sócio da consultoria SBM Intelligence, especializada em temas africanos.

"O combustível vai para onde se paga mais", disse à DW, acrescentando que, "neste momento, esse lugar é a Europa, não Lagos".

"A principal lição que os agentes nigerianos estão aprendendo é que capacidade de produção, por si só, não garante preços acessíveis no mercado doméstico."

Embora a refinaria Dangote tenha melhorado significativamente a disponibilidade de combustível no país, historicamente marcado pela escassez crônica e pelas longas filas nos postos, os preços internos continuam entre os mais altos do continente.

Dificuldade para as companhias aéreas locais

No mercado totalmente desregulamentado da Nigéria, as companhias aéreas regionais também precisam competir com compradores internacionais, que normalmente fazem pedidos em volumes maiores e, muitas vezes, negociam diretamente com as refinarias, sem intermediários.

Segundo Effiong, isso por si só confere aos grandes compradores globais vantagens significativas nas negociações em relação às empresas locais de menor porte.

"O resultado é que, embora as companhias aéreas domésticas estejam fisicamente mais próximas da refinaria, elas são economicamente menos competitivas para acessar seus produtos. É como se estivessem do outro lado do mundo", acrescentou.

Desde o início da crise, operadores locais da aviação acumularam mais de 60 bilhões de nairas em dívidas com bancos locais para sustentar suas operações e sobreviver à alta dos preços. O valor equivale a cerca de R$ 243 milhões, na cotação atual.

Muitas empresas foram obrigadas a reduzir rotas importantes e elevar os preços das passagens, gerando frustração e insatisfação entre os passageiros. Além disso, cancelamentos e atrasos de voos continuam aumentando o descontentamento dos viajantes.

Em determinado momento, os preços do querosene de aviação mais do que triplicaram logo após o início da guerra com o Irã. Desde então, recuaram para um mínimo de cerca de 1.600 nairas por litro, ante aproximadamente 900 nairas antes do conflito.

Custos ocultos e acréscimos de preço

A situação atual é agravada pelo fim dos subsídios governamentais aos derivados de petróleo e pelos empréstimos garantidos por petróleo bruto contratados pela estatal petrolífera da Nigéria.

Isso significa que parte da produção futura de petróleo do país está comprometida com o pagamento dessas dívidas, obrigando a refinaria Dangote a importar petróleo bruto para refino, em vez de utilizar as reservas nigerianas.

Mas o problema não está apenas na origem do combustível.

Charles Victor, analista de energia baseado em Lagos, explicou que "o trajeto entre os portões da refinaria e o aeroporto é caro e envolve várias camadas adicionais de custos. Isso inclui armazenamento, transporte marítimo costeiro, transferência do combustível entre tanques e vários intermediários, cada um ficando com uma parcela".

"O problema nunca foi a oferta. O problema é o que acontece com o preço até o combustível chegar à aeronave."

Não há solução sem intervenção do governo?

Para Victor, a solução seria reservar mensalmente uma determinada quantidade de combustível para as companhias aéreas nigerianas e vendê-la de forma direta e equitativa a todos os participantes do setor.

Comprar "diretamente na saída da refinaria, se possível, eliminaria a maior parte dos intermediários que adicionam custos ao longo do processo", afirmou à DW.

Segundo ele, isso permitiria ao menos estabilizar o preço no atacado em torno de 1.200 nairas por litro.

O plano também exigiria melhorias na infraestrutura de armazenamento e distribuição dos aeroportos para "reduzir os custos logísticos que contribuem significativamente para os preços finais", acrescentou Ikemesit.

"Por fim, o governo deveria implementar políticas que incentivem relações comerciais sustentáveis entre a Dangote e as companhias aéreas domésticas."

Mas será que Dangote concordaria com isso?

Operando em sua capacidade máxima de 650 mil barris por dia, a refinaria Dangote foi originalmente construída com o objetivo de transformar o maior produtor de petróleo da África em um exportador líquido de derivados refinados, encerrando sua dependência de combustíveis importados.

No entanto, com uma crise global que projetou a Dangote como fornecedora mundial de combustíveis, esse plano pode continuar sendo apenas um sonho distante.

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