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O estado alemão onde 40% devem votar na ultradireita

1 set 2026 - 16h21
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Resumo
O estado da Saxônia-Anhalt pode eleger o primeiro governo de extrema direita da Alemanha no pós-guerra. O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) lidera as pesquisas com mais de 40% dos votos, superando a governante CDU. Impulsionado pela insatisfação econômica histórica e pelo sentimento anti-imigração, o avanço da sigla desperta receios de retrocessos democráticos e encerra décadas de hegemonia conservadora na região.

Saxônia-Anhalt, no leste do país, está prestes a ter o primeiro governo extremista de direita da história da Alemanha no pós-guerra.No centro-leste da Alemanha, o estado da Saxônia-Anhalt é conhecido por abrigar uma das escolas de arquitetura mais célebres do mundo, a Bauhaus, na cidade de Dessau-Rosslau. Foi nesse mesmo estado que, em Wittenberg, Martinho Lutero promoveu a Reforma Protestante, ao pregar suas famosas 95 teses na porta da igreja do castelo local em 1517.

Capital da Saxônia-Anhalt, Magdeburgo possui 244 mil habitantes
Capital da Saxônia-Anhalt, Magdeburgo possui 244 mil habitantes
Foto: DW / Deutsche Welle

Na Saxônia-Anhalt fica também o chamado "triângulo químico" da Alemanha, ao redor de Leuna e Bitterfeld, uma área industrial que concentra empresas que geram cerca de 10 mil empregos. Entre as belezas naturais da região estão a cadeia de montanhas Harz e o rio Elba, que atravessa o estado, vindo do leste em direção ao norte.

A Saxônia-Anhalt possui cerca de 2,1 milhões de habitantes, sendo um estado relativamente pouco povoado. Apenas duas cidades, a capital Magdeburgo e Halle, têm mais de 200 mil habitantes. Na região, a taxa de desemprego é de cerca de 8%, um pouco maior que a média da Alemanha (6,3%).

Apesar de pequeno, o estado atrai no momento a atenção da imprensa internacional. Os eleitores da Saxônia-Anhalt vão às urnas no próximo domingo (06/09) para escolher uma nova Assembleia Legislativa. Pela primeira vez na história da Alemanha no pós‑guerra, o país pode eleger um governador classificado como comprovadamente extremista pelo Departamento Estadual de Proteção da Constituição (BfV).

Atualmente, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), com seu candidato principal Ulrich Siegmund, lidera todas as pesquisas. A legenda possui mais de 40% das intenções de voto. Os conservadores da União Democrata Cristã (CDU), que governaram o estado na maior parte do tempo desde 1990, após a Reunificação da Alemanha, ficam bem atrás, com entre 23% e 26%.

O partido A Esquerda tem 13% das intenções de voto e Partido Social-Democrata (SPD) entre 6 e 7%. Ainda é incerto se o Partido Verde e os liberais atingirão a cláusula de barreira de 5%, e garantirão assentos na Assembleia.

Alerta do ex-governador

As palavras do ex‑governador do estado Reiner Haseloff, da CDU, soaram como um alerta. Em entrevista recente à revista alemã Der Spiegel, ele afirmou que deixaria a Saxônia-Anhalt se a AfD chegasse ao poder.

Atualmente, a AfD ocupa 23 dos 97 assentos na Assembleia Legislativa. Haseloff afirmou ainda que frequentemente sentiu na Assembleia Legislativa um clima parecido ao da "fase final da República de Weimar, no Reichstag [Parlamento alemão], ou mais tarde no Palácio dos Esportes em Berlim". A República de Weimar foi o primeiro Estado democrático alemão e terminou em 1933 com a ascensão dos nazistas ao poder. No Palácio dos Esportes, o ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, aliado próximo de Adolf Hitler, proclamou, em 1943, a "guerra total".

Em janeiro, Haseloff deixou o cargo de governador após 15 anos. Seu sucessor, Sven Schulze, é o candidato da legenda para assumir o governo do estado e tenta atualmente frear o avanço da AfD entre os eleitores. Se ele não conseguir, setembro marcará o fim de uma longa era de governos estaduais liderados pela CDU. Atualmente, os conservadores governam numa coalizão com o SPD e os liberais.

Experimento de 1994

A Saxônia-Anhalt já esteve nos holofotes em julho de 1994, quando o social‑democrata Reinhard Höppner, junto aos verdes, formou um governo minoritário que foi tolerado pelo Partido do Socialismo Democrático (PDS) - sucessor do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED), que governou a Alemanha Oriental.

Uma colaboração com os herdeiros do partido estatal da República Democrática Alemã (RDA), apenas cinco anos depois da queda do Muro de Berlim, foi vista em todo o país, sobretudo pelos conservadores, como um tabu.

Mais tarde, até maio de 2002, Höppner governou sozinho, sem os verdes, e também dependeu dos votos do PDS. O partido, então, e, depois, sua sucessora, a legenda A Esquerda, passaram a fazer parte dos governos em outros estados.

Os eleitores da Saxônia-Anhalt parecem mais inclinados a aceitar e eleger partidos extremistas do que em outras regiões do país. Em 1998, por exemplo, a União do Povo Alemão (DVU), classificada como de extrema direita, conquistou 12,9% dos votos, elegendo deputados estaduais. Contudo, na eleição de 2002, o grupo, totalmente dividido, decidiu não concorrer novamente.

Como a AfD mudaria o estado?

Os altos índices de apoio à AfD hoje, segundo especialistas, são explicados pela grande insatisfação de muitos eleitores no estado com a situação atual da Alemanha. Após a Reunificação, em 1990, a Saxônia-Anhalt perdeu muitos postos de trabalho, tanto na mineração de carvão quanto na indústria química.

Muitos jovens deixaram o estado e não voltaram. Grande parte da população local se opõe à migração, embora a proporção de estrangeiros na região (entre 8 e 9%) esteja muito abaixo da média nacional.

O exemplo da DVU, de cerca de 25 anos atrás, demonstra, segundo diversos observadores, que grupos de extrema direita já possuíam há muito tempo um núcleo firme de eleitores no estado, que hoje apoia a AfD independentemente dos programas eleitorais.

O cientista político Benjamin Höhne, da Universidade de Chemnitz, disse à emissora de rádio Deutschlandfunk que acredita que a AfD planeja grandes reformas caso assuma o governo da Saxônia-Anhalt, nas quais normas liberais e do Estado de direito seriam sistematicamente reduzidas.

"Acho que a AfD está observando muito atentamente os EUA agora". Lá, o governo do presidente Donald Trump segue um caminho semelhante. Höhne, porém, acredita que programas radicais desse tipo são dificilmente viáveis em apenas um estado. "Não dá para virar a alavanca em um único estado e fazer com que tudo siga o roteiro da ultradireita."

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