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Novas sanções americanas podem afastar a China do Irã?

28 ago 2026 - 16h35
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Resumo
Os EUA impuseram novas sanções severas ao Irã, mas pouparam grandes bancos chineses para preservar a cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping em setembro. Maior compradora do petróleo iraniano, a China condenou as medidas unilaterais de Washington e busca equilibrar seus interesses no Oriente Médio. Pequim pretende manter suas relações pragmáticas com Teerã, defendendo saídas diplomáticas e a continuidade do comércio bilateral apesar das pressões e ameaças econômicas norte-americanas.

Estratégia dos EUA de impor pressão econômica máxima sobre o Irã é moderada pelo desejo de reduzir tensões com a China.A China reagiu ao que classificou como "sanções unilaterais ilegais" depois que os Estados Unidos anunciaram novas medidas destinadas a cortar todas as possíveis fontes de receita do Irã.

Petroleiro em terminal de importação chinês: compras de petróleo pela China são uma tábua de salvação fundamental para o Irã
Petroleiro em terminal de importação chinês: compras de petróleo pela China são uma tábua de salvação fundamental para o Irã
Foto: DW / Deutsche Welle

Nesta segunda-feira (24/08), o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, descreveu o pacote de sanções como um "Dia D econômico" contra Teerã e advertiu que qualquer envolvimento econômico com o regime iraniano "exporá os responsáveis ao alcance total" do poder dos Estados Unidos.

A China é o principal parceiro comercial do Irã e fornece uma importante tábua de salvação para Teerã, principalmente por meio da compra de petróleo, mas também por meio de serviços bancários, tecnologia e produtos de uso duplo, que podem ser utilizados tanto para fins civis quanto militares.

Questionado sobre a possibilidade de bancos chineses serem incluídos nas novas medidas, Bessent alertou que "ninguém está fora do alcance das sanções dos EUA".

No entanto, com o presidente dos EUA, Donald Trump, previsto para se reunir com seu homólogo chinês, Xi Jinping, em setembro, Washington precisará agir com cautela em qualquer medida que afete as relações comerciais entre China e Irã.

Grandes bancos chineses ainda estão seguros

O pacote inicial de sanções dos EUA evita atingir os principais bancos chineses. Em vez disso, concentra-se em 60 entidades menores, indivíduos e embarcações localizados tanto na China continental quanto em Hong Kong, que fazem parte do ecossistema que sustenta "redes ilícitas de aquisição de tecnologia nuclear e de mísseis, operações cibernéticas e geração de receitas por meio do petróleo".

A China compra até 90% das exportações de petróleo iraniano. Parte desse petróleo é adquirida por refinarias independentes conhecidas como "teapot refineries" (refinarias independentes de menor porte), que posteriormente reclassificam a origem do petróleo ou utilizam intermediários para contornar as sanções americanas.

Em maio, o Ministério do Comércio da China orientou empresas domésticas e refinarias independentes a ignorarem as restrições dos EUA direcionadas a várias dessas refinarias. Na época, Bessent afirmou que as compras chinesas de petróleo iraniano equivalem a "financiar o maior patrocinador estatal do terrorismo".

Pequim equilibra suas relações entre o Irã e seus rivais

Na terça-feira, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, afirmou que a cooperação entre China e Irã "sempre foi conduzida dentro da estrutura do direito internacional e não deve ser objeto de interferência ou interrupção".

A China mantém uma relação pragmática com o Irã, ao mesmo tempo em que apresenta a instabilidade no Oriente Médio como um fracasso da política externa dos EUA. Paralelamente, Pequim busca projetar a imagem de uma superpotência estável e responsável, evitando ser associada a Estados considerados problemáticos que Washington acusa de apoiar.

Além disso, Pequim valoriza suas relações comerciais com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, o que a leva a equilibrar cuidadosamente seus relacionamentos para evitar afastar os rivais regionais do Irã.

O conflito em andamento no Oriente Médio e o novo pacote de sanções dos EUA provavelmente estarão na pauta quando o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, participar da cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (OCX), no Quirguistão, programada para ocorrer nas próxima segunda e terça-feira (01/09). A OCX é voltada para a segurança da Eurásia e faz parte da estratégia chinesa de promover uma ordem mundial "multipolar", como contraponto à influência global dos Estados Unidos.

A China tem "tentado aprofundar seu envolvimento e ampliar o escopo de suas relações com os países do Golfo. Sob essa perspectiva, o Irã continua sendo um parceiro útil e importante para a China, mas não é insubstituível", afirmou William Yang, analista sênior para o Nordeste Asiático do International Crisis Group, à DW. "Em certo sentido, a China se beneficia do envolvimento contínuo de Washington na segurança e na defesa regionais e não busca substituir os EUA nesse papel", acrescentou Yang.

Poder dos EUA diminui no Oriente Médio?

Entretanto, reveses militares dos Estados Unidos durante a guerra com o Irã colocaram esse guarda-chuva de segurança em dúvida e alteraram o cenário estratégico do Oriente Médio, afirmou Gu Xuewu, cientista político e diretor do Centro de Estudos Globais da Universidade de Bonn, na Alemanha, em entrevista à DW.

"Nesse contexto, Pequim não cederá à pressão dos EUA para romper os laços econômicos e comerciais com o Irã nem ajudará Washington a manter sua presença no Oriente Médio", disse Gu.

Desde o início da guerra com o Irã, no final de fevereiro, Pequim tem defendido consistentemente uma solução diplomática para o conflito. Nesta semana, o porta-voz Lin Jian afirmou que a estratégia americana de "asfixia econômica" não resolverá a crise e apenas intensificará ainda mais as tensões no Oriente Médio.

"A China desaprova o comportamento assertivo dos Estados Unidos nessa região e está ainda menos disposta a aceitar que Washington utilize todos os meios disponíveis para dificultar a cooperação entre os países árabes e a China nas áreas de energia, defesa, ciência, tecnologia e comércio", disse Gu. Ele acrescentou que Pequim não tem interesse em travar uma "batalha decisiva" com os Estados Unidos no Oriente Médio. "Basta provocar os EUA a cometerem erros no Oriente Médio e permitir que continuem cometendo mais erros sem interferir", acrescentou.

Peso da cúpula Trump-Xi

Em 2025, quando os Estados Unidos tentaram pressionar a China por meio de tarifas massivas, Pequim respondeu ameaçando interromper o fornecimento de minerais de terras raras, forçando a administração Trump a recuar.

Desde então, Trump tem buscado estabilizar a relação entre EUA e China, incluindo uma cúpula de alto nível realizada em Pequim em maio. Agora, Xi Jinping deverá visitar Washington em setembro.

"Como Pequim e Washington estão concentrados em preparar o caminho para a tão aguardada cúpula de 24 de setembro, não acredito que nenhum dos dois países tome medidas drásticas relacionadas ao Irã que possam comprometer o encontro", afirmou Yang.

No entanto, ele acrescentou que a China "manterá seu nível básico de relacionamento com o Irã e estará preparada para defender seus interesses econômicos, caso o governo dos EUA comece a atingir empresas chinesas com sanções secundárias".

Segundo o professor Gu, se os Estados Unidos aplicarem sanções contra grandes empresas e bancos chineses, é previsível que a China responda com medidas equivalentes de retaliação, mantendo ao mesmo tempo seus laços com o Irã.

Ainda assim, ele destacou que Pequim não pretende "abandonar os planos cuidadosamente negociados para a realização da cúpula".

"Veremos China e Estados Unidos em rota de colisão na questão iraniana, mesmo enquanto mantêm discussões amistosas durante a cúpula entre Xi Jinping e Trump", frisou Gu.

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