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Neblina amazônica: uma ponte invisível e importante entre o clima e a biodiversidade

A floresta suspensa no ar guarda uma mistura complexa: bactérias, fungos, grãos de pólen e fragmentos microscópicos de matéria orgânica, que são um componente pouco conhecido da biodiversidade amazônica

23 jun 2026 - 10h20
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A Amazônia é frequentemente apresentada como a maior floresta tropical do planeta e um dos principais reguladores do clima global. Suas árvores armazenam enormes quantidades de carbono, sustentam uma biodiversidade extraordinária e reciclam grandes volumes de água para a atmosfera. Mas existe uma parte da floresta que raramente aparece quando pensamos na Amazônia: aquela que está suspensa no ar.

Acima do dossel, que é a camada superior das florestas, formada pelo conjunto contínuo das copas das árvores, uma mistura complexa de partículas biológicas circula continuamente entre a vegetação e a atmosfera. Bactérias, fungos, grãos de pólen e fragmentos microscópicos de matéria orgânica são transportados pelos ventos e pelas correntes de ar. Esses organismos fazem parte de um componente pouco conhecido da biodiversidade amazônica.

Nosso estudo, publicado recentemente na revista Communications Earth & Environment, revelou que muitos desses microrganismos permanecem vivos dentro da neblina que se forma sobre a floresta. A descoberta ajuda a compreender uma conexão ainda pouco explorada entre atmosfera, biodiversidade e funcionamento dos ecossistemas amazônicos.

A floresta continua acima das árvores

Durante décadas, cientistas estudaram a Amazônia principalmente a partir de seus rios, solos e vegetação. Mais recentemente, tornou-se evidente que a atmosfera também desempenha um papel fundamental na dinâmica da floresta.

A cada dia, bilhões de toneladas de água são transferidas da vegetação para a atmosfera por meio da evapotranspiração. Esse processo alimenta a formação de nuvens, influencia os regimes de chuva e ajuda a regular o clima em grande parte da América do Sul. Mas a água não é o único elemento que sobe da floresta para o céu.

A atmosfera amazônica emite grandes quantidades de partículas microscópicas conhecidas como bioaerossóis. Elas incluem esporos de fungos, bactérias, pólen e fragmentos de organismos vivos. Além de serem transportadas pelo ar, essas partículas podem participar da formação de nuvens e de gotas de água atmosféricas.

Nas últimas décadas, pesquisas realizadas na Amazônia mostraram que os bioaerossóis desempenham um papel importante nos processos atmosféricos. Ainda assim, pouco se sabia sobre o que acontece quando esses organismos encontram a neblina que se forma regularmente sobre a floresta durante a madrugada.

Compreender essas trocas entre floresta e atmosfera não é uma tarefa simples. Para isso, nossa equipe, formada por cientistas brasileiros e internacionais, construíram no coração da Amazônia uma das mais importantes infraestruturas de pesquisa atmosférica do mundo: o Amazon Tall Tower Observatory (ATTO). Localizada a cerca de 150 quilômetros de Manaus, a torre principal possui 325 metros de altura e permite monitorar continuamente a composição da atmosfera acima da floresta.

Foi nesse laboratório a céu aberto que realizamos as coletas de neblina analisadas em nosso estudo.

O que existe dentro de uma gota de neblina?

A neblina é, essencialmente, uma nuvem próxima à superfície. Na Amazônia, ela se forma principalmente durante a noite e nas primeiras horas da manhã, quando o resfriamento do ar favorece a condensação do vapor d'água.

À primeira vista, uma gota de neblina parece algo simples. No entanto, ela pode funcionar como um microambiente capaz de abrigar organismos vivos.

Para investigar essa possibilidade, coletamos amostras de neblina na torre ATTO e utilizamos diferentes técnicas microbiológicas para analisar seu conteúdo. Os resultados mostraram que todas as amostras continham células viáveis, ou seja, organismos que permaneciam biologicamente ativos dentro das gotículas.

Em alguns eventos de neblina, encontramos concentrações próximas de 100 mil células por mililitro de água. Também identificamos diferentes grupos de bactérias e fungos associados a solos, superfícies vegetais e matéria orgânica em decomposição, como por exemplo Aspergillus niger e Serratia marcescens.

Esses resultados indicam que a neblina não representa apenas um fenômeno meteorológico. Ela também pode funcionar como um ambiente temporário para microrganismos e como um meio de transporte entre diferentes partes da floresta.

Embora ainda não saibamos exatamente quanto tempo esses organismos permanecem ativos na atmosfera, a presença de células viáveis demonstra que a neblina pode desempenhar um papel mais complexo do que se imaginava.

Uma conexão invisível entre a biosfera e a atmosfera

Os microrganismos estão entre os principais responsáveis por processos ecológicos fundamentais. Eles participam da decomposição da matéria orgânica, da reciclagem de nutrientes e de diversas interações com plantas.

Quando são incorporados às gotículas de neblina, esses organismos ficam protegidos da radiação UV matinal e podem ser transportados por diferentes regiões da floresta antes de retornarem ao ambiente por deposição nas folhas, nos galhos ou no solo.

Essa dinâmica sugere que a neblina pode atuar como uma ponte entre a biosfera e a atmosfera, conectando processos físicos e biológicos que normalmente são estudados separadamente.

A descoberta também reforça uma nova visão: a atmosfera não deve ser encarada apenas como um espaço de passagem. Em muitos casos, ela funciona como uma extensão do próprio ecossistema.

A Amazônia oferece um exemplo particularmente interessante dessa integração. A floresta influencia a composição da atmosfera por meio da emissão de partículas e vapor d'água. Ao mesmo tempo, os processos atmosféricos afetam a distribuição de organismos e substâncias químicas essenciais para o funcionamento do ecossistema.

Olhando para a Amazônia de uma nova perspectiva

Apesar dos avanços, muitas perguntas permanecem abertas e outra questão importante envolve as mudanças climáticas.

Modelos climáticos indicam que algumas regiões da Amazônia poderão enfrentar condições mais quentes e secas nas próximas décadas. Alterações na temperatura, na umidade e nos padrões de precipitação podem modificar a frequência e a intensidade dos eventos de neblina. Se a neblina realmente desempenha um papel na dispersão de organismos microscópicos, mudanças em sua dinâmica poderão influenciar processos ecológicos que apenas começamos a compreender.

Cada gota pode transportar organismos vivos e participar de uma rede de interações que conecta atmosfera, vegetação e solo. Essas conexões invisíveis ajudam a revelar uma Amazônia que vai além das árvores, dos rios e dos animais que costumamos associar à floresta.

Compreender essa dimensão microscópica é uma forma de entender como funciona um dos ecossistemas mais importantes do planeta e como ele poderá responder às transformações ambientais das próximas décadas.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Bruna Sebben recebeu financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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