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Visa pour l'Image: o fotojornalismo resiste entre a guerra, o narcotráfico e a inteligência artificial

Há 38 anos, durante duas semanas, Perpignan, cidade catalã no sul da França, transforma-se na capital internacional do fotojornalismo. Criado por Jean-François Leroy, o festival Visa pour l'Image nasceu com a missão de defender uma profissão cada vez mais frágil: a do jornalista fotográfico.

11 set 2026 - 14h09
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Resumo
A 38ª edição do festival Visa pour l'Image celebrou a resistência do fotojornalismo frente a crises globais e ao avanço da inteligência artificial. Marcado pela morte do fundador Jean-François Leroy, o evento destacou a cobertura do narcotráfico por Mats Nissen e a Síria pós-Assad por Philémon Barbier, vencedor do prêmio principal. O encontro debateu os impactos da IA na profissão, reforçando que a tecnologia não substitui a empatia e o olhar humano essenciais ao trabalho documental de campo.

Patrícia Moribe, enviada especial a Perpignan

Ao longo das décadas, o festival tornou-se um ponto de encontro entre veteranos e novos nomes da fotografia documental. As exposições, espalhadas por diferentes espaços da cidade, são gratuitas, e os fotógrafos participam de encontros com o público e de visitas guiadas. A proposta é aproximar os espectadores não apenas das imagens, mas também de quem esteve por trás delas.

Neste ano, um dos trabalhos apresentados é Sangre Blanca - A Geografia da Cocaína, do dinamarquês Mats Nissen, um projeto que o fotógrafo desenvolve há cerca de dez anos. A reportagem acompanha diferentes etapas da cadeia internacional da cocaína: dos campos de produção na Colômbia, passando pelos cartéis mexicanos, até chegar aos consumidores na Europa.

O fotógrafo Mads Nissen no festival Visa pour l'Image, em Perpignan, em 2026.
O fotógrafo Mads Nissen no festival Visa pour l'Image, em Perpignan, em 2026.
Foto: RFI

Para Nissen, a principal dificuldade de um trabalho de longa duração como esse é conseguir acesso às pessoas e aos lugares. Para isso, ele conta com uma rede de profissionais e moradores locais.

"O que foi mais difícil ao realizar este trabalho foi o acesso, abrir as portas. Trabalho muito com pessoas locais - jornalistas, fotógrafos, defensores dos direitos humanos, pessoas envolvidas em programas para jovens - que têm me ajudado a abrir essas portas", contou o fotógrafo. 

Mas conseguir entrar é apenas o primeiro passo. O desafio seguinte, segundo o fotógrafo, é estabelecer uma relação de confiança com as pessoas fotografadas. "Uma vez que a porta é aberta, você precisa permanecer ali e abrir o coração das pessoas, o que, às vezes, é ainda mais difícil", relatou Nissen. 

Um laboratório clandestino no povoado de Cauca,na Colômbia.
Um laboratório clandestino no povoado de Cauca,na Colômbia.
Foto: RFI

Entrevistado por Isabelle Marinetti, da RFI, Nissen define a empatia como sua principal ferramenta de trabalho. Não como uma técnica, mas como uma postura diante dos personagens. "É simplesmente ser um ser humano muito transparente e honesto, sem segundas intenções, com um interesse sincero e genuíno pela vida das pessoas."

A tentativa de compreender sem necessariamente justificar é, para ele, fundamental para entrar em universos muitas vezes distantes da experiência do fotógrafo.

"Essa empatia significa tentar compreender a vida que elas levam, as razões pelas quais fazem o que fazem, sem justificar suas ações, mas simplesmente tentando, de coração aberto, imaginar que você está no lugar delas."

Veterano do fotojornalismo internacional e vencedor de importantes prêmios, Mats Nissen ficou também conhecido por uma imagem realizada em São Paulo durante a pandemia de Covid-19. A fotografia, vencedora do World Press Photo em 2021, mostra uma mulher idosa recebendo seu primeiro abraço em cinco meses através de uma cortina plástica de proteção.

Síria pós-Assad

Outro destaque desta edição é o francês Philémon Barbier, que apresenta dois trabalhos: um sobre o Ebola na República Democrática do Congo e outro sobre a Síria no período posterior à queda de Bashar al-Assad. Este último recebeu o prêmio de melhor reportagem do festival, concedido por um júri formado por editores internacionais.

Barbier começou a acompanhar a Síria após a queda de Assad e, entre o início de janeiro de 2025 e o final de fevereiro de 2026, passou entre sete e oito meses no país, em diferentes períodos. Inicialmente trabalhando como freelancer, o fotógrafo posteriormente recebeu encomendas e apoio de grandes veículos de imprensa, entre eles o jornal Le Figaro.

Soldados do Exército sírio que retornavam do bairro de Achrafieh desfilam pelas ruas de Aleppo em um veículo blindado. Síria, 9 de janeiro de 2026.
Soldados do Exército sírio que retornavam do bairro de Achrafieh desfilam pelas ruas de Aleppo em um veículo blindado. Síria, 9 de janeiro de 2026.
Foto: RFI

Para Barbier, apresentar o trabalho em Perpignan significa ampliar o alcance de uma reportagem que normalmente circularia sobretudo entre leitores da imprensa. "Apresentar este trabalho aqui é, antes de tudo, uma ótima visibilidade para o projeto, tanto no âmbito profissional quanto, principalmente, para o público", diz.

"É um festival em que todas as exposições são gratuitas, então é extremamente acessível. Para mim, isso é algo muito importante, porque acho fundamental que todo mundo possa ter acesso a essas histórias", acrescenta o jovem fotojornalista, de 25 anos. 

O festival também mantém uma forte programação voltada às escolas da região, com visitas acompanhadas de alunos. "É muito bom poder alcançar pessoas que nem sempre leem a imprensa, que nem sempre veem essas fotografias nos meios de comunicação."

Inteligência artificial

Mas, em 2026, a discussão sobre o futuro da profissão passa também pela inteligência artificial. A tecnologia esteve presente nos debates do festival e levanta questões sobre direitos autorais, utilização de arquivos fotográficos e o próprio papel do fotógrafo.

Para Philémon Barbier, um dos principais problemas está na utilização de imagens e do trabalho de profissionais por grandes empresas de tecnologia para alimentar modelos de inteligência artificial, sem remuneração aos autores.

"Geralmente são grandes empresas privadas que utilizam os dados e o trabalho, principalmente de fotógrafos, para enriquecer seus modelos de treinamento de IA e que, aliás, não remuneram por direitos autorais nem os fotógrafos, nem ninguém mais - nem escritores, nem artistas, nem ilustradores."

Barbier reconhece que a inteligência artificial traz ferramentas que precisarão ser compreendidas e incorporadas. "Há coisas novas na IA que precisam ser exploradas, porque, de qualquer maneira, ela existe. Vamos ter que nos adaptar."

Mas estabelece um limite quando se trata do jornalismo de campo. "Na nossa profissão, a IA não poderá substituir um jornalista de campo. E precisamos nos agarrar a isso para não sermos engolidos."

Sua posição é clara: a utilização da inteligência artificial deve ser evitada no jornalismo e, especialmente, no fotojornalismo. "É importante preservar o rigor, a dinâmica humana e também o olhar humano."

Homenagens

A 38ª edição do Visa pour l'Image foi marcada ainda por uma ausência. Jean-François Leroy, fundador do festival e uma das figuras mais importantes na defesa do fotojornalismo, morreu no dia 31 de agosto, de câncer. 

A equipe do festival Visa pour l'Imagem presta homenagem a Jean-François Leroy, cofundador e presidente de Visa pour L'Image, morto em 31 de agosto de 2026.
A equipe do festival Visa pour l'Imagem presta homenagem a Jean-François Leroy, cofundador e presidente de Visa pour L'Image, morto em 31 de agosto de 2026.
Foto: RFI

Sua morte provocou comoção entre fotógrafos, jornalistas e profissionais que construíram suas trajetórias com apoio do festival. Mas a mensagem deixada por sua equipe foi justamente a de continuidade: apesar das transformações tecnológicas, das dificuldades econômicas da imprensa e da precarização da profissão, o fotojornalismo continua vivo.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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