Supostos jihadistas franceses são julgados no Iraque, e todos correm o risco de pena de morte
Alguns dos 47 supostos jihadistas franceses detidos no Iraque começaram a ser julgados a partir deste domingo (20). Eles foram transferidos do nordeste da Síria, onde estiveram detidos durante vários anos por crimes terroristas ligados à organização Estado Islâmico, e estão presos em Bagdá. Todos correm o risco de ser condenados à pena de morte.
Seis supostos jihadistas franceses começaram a ser julgados em Bagdá e correm risco de pena de morte por ligação com o Estado Islâmico. Advogados e ONGs de direitos humanos criticam a falta de garantias nos tribunais iraquianos e cobram o repatriamento urgente por parte da França, argumentando que alguns réus foram levados para a guerra ainda menores de idade. A transferência de milhares de detidos estrangeiros da Síria para o Iraque agrava a superlotação das prisões locais.
Os franceses e outros milhares de supostos membros do grupo Estado Islâmico (EI), de diferentes nacionalidades, estão detidos à espera de julgamento. A Federação Francesa dos Direitos Humanos apela pelo "repatriamento urgente dos seus cidadãos presos no Iraque".
Entre eles, estão jovens que foram à Síria com os pais. Neste domingo, seis homens começaram a ser julgados, e um deles chegou à Síria ainda menor de idade. Durante a audiência, que durou quase três horas, o juiz leu as conclusões da investigação, que incluíram os depoimentos dos suspeitos.
Representantes da embaixada da França estavam presentes no tribunal penal de Bagdá. Segundo o jornalista da AFP que assistiu à audiência, os seis franceses são Charlie Sun, Kamel Ben Mbarek, Mehdi Ismaël Sida, Ibrahim Azahaf, Noureddine el-Mansouri e Najib Megherbi.
Menores na época dos fatos
Ibrahim Azahaf chegou à Síria aos 14 anos, segundo os advogados franceses Marie Dosé e Matthieu Bagard. Noureddine el-Mansouri perdeu a nacionalidade francesa em junho de 2016, mas a decisão está sujeita a recurso.
Os seis homens compareceram à audiência, alguns vestidos com macacões laranja. A investigação apurou que os suspeitos foram para as áreas controladas pelo EI após terem passado inicialmente pela Turquia. Uma próxima audiência foi marcada para 5 de outubro.
"Existem o que chamamos de jovens adultos, ou seja, são crianças que foram levadas à força para a Síria pelos seus pais, que foram inscritas à força no Estado Islâmico, em última instância são vítimas da guerra, e que hoje foram transferidas ilegalmente para serem julgadas em Bagdad", explicou à RFI Mathieu Bagard, da organização Advogados Sem Fronteiras França, que representa alguns destes cidadãos franceses.
Responsabilidade da França
"E como vamos julgá-los? Vamos julgá-los como homens? Vamos julgá-los como perpetradores e não como vítimas? Não sabemos nada sobre tudo isso. É algo realmente problemático para nós", acrescentou o defensor. "Acredito que temos uma verdadeira responsabilidade com eles, que são hoje um pouco vítimas da escolha dos seus pais, mas também vítimas das autoridades francesas, da escolha da França, de não repatriá-los."
Os tribunais iraquianos proferiram centenas de penas de morte e de prisão perpétua a pessoas condenadas por "terrorismo", incluindo combatentes estrangeiros do EI detidos na Síria. Em 2019, onze cidadãos franceses foram condenados à morte, mas a pena foi comutada mediante recurso para prisão perpétua.
A questão da repatriação de suspeitos ligados ao EI e de suas famílias é um tema controverso na França - país alvo de uma série de atentados jihadistas. No grupo de franceses que aguardam julgamento, está Adrien Guihal, um veterano da jihad que, em nome do EI, reivindicou o atentado de Nice, no sul da França, que deixou 86 mortos em 14 de julho de 2016.
Prisões lotadas
Organizações de defesa dos direitos humanos denunciaram o caráter precipitado dos julgamentos por "terrorismo", classificando-os como sumários e desprovidos de garantias processuais.
As prisões iraquianas, já lotadas de suspeitos de pertencerem ao EI, receberam milhares de detidos adicionais desde a transferência deles da Síria, no ano passado.
No início de 2024, mais de 5,7 mil pessoas de cerca de 60 nacionalidades, suspeitas de pertencerem ao grupo jihadista, foram levadas para o Iraque depois de anos em campos no nordeste da Síria, administrados por forças curdas.
Essa transferência foi organizada pelos Estados Unidos, após a retirada parcial das forças curdas da região, sob pressão do exército sírio.
Ao longo da guerra na Síria, iniciada em 2011, o grupo jihadista Estado Islâmico chegou a controlar grandes extensões de território no país e no vizinho Iraque. Acusado de múltiplos abusos, a organização foi derrotada em 2017 no Iraque e em 2019 na Síria, com o apoio de uma coligação internacional liderada pelos Estados Unidos.
Com AFP
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