Soldados nascidos na Ucrânia e capturados contam à BBC por que lutaram pela Rússia
Homens nascidos na Ucrânia que lutaram pela Rússia na guerra são julgados por traição. Mas, em um campo de prisioneiros de guerra no oeste da Ucrânia, muitos acreditam terem defendido sua pátria.
Prisioneiros ucranianos capturados em combate pelo exército russo relatam suas motivações em um campo de detenção na Ucrânia. A maioria é de áreas ocupadas como Donbas e afirma se identificar como russa, influenciada por anos de controle e propaganda de Moscou, além de incentivos financeiros ou para evitar penas de prisão. Embora Kiev os processe por traição, os combatentes enfrentam baixa prioridade da Rússia nas trocas de prisioneiros, além da frustração com as duras perdas na guerra.
No oeste da Ucrânia, altas paredes e uma série de portões trancados encerram um campo de prisioneiros de guerra repleto de homens capturados que lutavam pela Rússia.
Muitos daqueles que estão agachados na sombra, em volta do pátio da prisão, foram recrutados em grandes cidades russas, como São Petersburgo e Ecaterimburgo, não em cidades mais pobres e distantes, como ocorria no início da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Mas nem todos os prisioneiros são russos. Entre eles, existem soldados da própria Ucrânia, que foram à guerra contra o seu país.
Entrevistar prisioneiros de guerra não é fácil. É preciso ter certeza de que eles não estão sofrendo coerção, antes de tudo, e depois determinar até que ponto eles falam abertamente naquelas circunstâncias.
Mas, como não existe acesso ao exército dentro da Rússia, esta é uma chance de avaliar a dinâmica da guerra e detalhar o que pode motivar os homens a entrar em combate — incluindo os soldados nascidos na Ucrânia que lutam pelo exército russo.
A BBC ofereceu a todos o direito de recusar a entrevista e conversou longe dos guardas e sem câmeras com aqueles que concordaram.
Além de diversas entrevistas formais, a reportagem conseguiu conversar diretamente com os prisioneiros em diversos locais, em idioma russo.
Anton tinha 10 anos de idade quando sua parte da região de Donbas, no leste da Ucrânia, foi ocupada por forças leais a Moscou.
Em 2022, quando o presidente russo, Vladimir Putin, promoveu a escalada da guerra, ele completou 18 anos e se alistou para lutar imediatamente pela Rússia.
"Não me arrependo da minha escolha", insiste Anton. "Fui defender a minha terra."
Ele conta que seus amigos também se voluntariaram. "Depois, você recebe as mensagens por SMS. Morto, morto, morto."
Outros prisioneiros contam a mesma história. Todos os que foram para a guerra com eles foram mortos.
Eles também afirmam que menos pessoas estão se voluntariando para substituí-los, mesmo com os altos valores pagos pelo alistamento. Estes relatos indicam que o desejo de Putin de evitar a mobilização em massa pode ser testado em breve.
Quando a Ucrânia captura seus próprios cidadãos no campo de batalha, eles são levados a julgamento por traição. Mas os soldados são enviados para os campos de prisioneiros de guerra ao lado dos russos.
Oficialmente, Kiev ainda os considera como ucranianos e trata o controle das suas regiões pela Rússia como temporário. Mas, em terra, a realidade é mais complexa.
"Eles são muito pró-Rússia e sua identidade nacional é muito indefinida", segundo Petro Yatsenko, do quartel-general de coordenação para os prisioneiros de guerra da Ucrânia.
Anton certamente não se considera um traidor. "Eu me considero russo", diz ele.
"Um país não significa nada, é tudo questão de nacionalidade. Toda a minha família é da Rússia. Todas as minhas raízes vêm de lá."
Questiono sobre seu sobrenome ucraniano e ele o rejeita como sendo irrelevante.
Uma geração inteira nascida na Ucrânia, agora, cresceu sob a ocupação, com educação russa e a imprensa totalmente controlada pelo Kremlin. Ambas retratam as autoridades de Kiev como "nazistas" e ilegítimas há vários anos.
Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, cada vez mais território vem sendo submetido a este tratamento. Anton absorveu tudo isso e, agora, fala quase totalmente em slogans russos.
Ele chama Putin de "meu presidente" e acha que ele deve forçar a tomada do restante da região de Donbas, mesmo que centenas de milhares de pessoas já tenham morrido tentando.
"É uma pena que as pessoas tenham morrido, especialmente os inocentes", lamenta Anton.
"Mas guerra é guerra. Poderia ter terminado, mas ninguém quis."
No hospital da prisão, Artyom está deitado em uma cama no canto, com o corpo repleto de estilhaços. Ele havia lutado por apenas dois meses.
Artyom é de Donetsk, como Anton, e também foi à guerra por vontade própria, não apenas pelo dinheiro. "Temos os nossos ressentimentos", segundo ele.
Ele relembra como sua região foi fortemente atacada em 2014, quando as forças ucranianas tentaram impedir que ela fosse separada de Kiev.
Mas sua experiência militar o deixou amargo. Seu comandante era "ruim" e ele nunca recebeu sua taxa de alistamento de 400 mil rublos (US$ 5 mil, cerca de R$ 26 mil).
Para aumentar o desgosto de Artyom, o soldado russo ferido no leito oposto recebeu cinco vezes esse valor.
Todos os prisioneiros de guerra nascidos na Ucrânia que entrevistamos vieram de áreas ocupadas desde 2014. Quase todos entraram voluntariamente no exército russo.
Mas um homem da região de Donetsk nos disse que foi forçado a lutar. Seus olhos correm de um lado para outro enquanto ele fala, sem saber ao certo em quem pode confiar.
Uma pesquisa oficial, citando informações de "inteligência", indica que mais de 50 mil ucranianos foram recrutados contra a vontade nas áreas ocupadas. Outros calculam números muito mais altos.
Este homem nos conta que, quando veio a invasão russa, sua família havia permanecido, não por lealdade política ou nacional, mas porque Donetsk era sua casa.
Agora, seu único desejo é voltar para sua esposa e seus filhos e evitar retornar para o front. "Vou apenas me esconder", confidenciou ele.
Atrás das janelas do hospital e das paredes recém-pintadas de branco, existem canteiros de morangos e pepinos, plantados pelos prisioneiros. E o cheiro de verniz que vem de uma casa externa é avassalador.
Um oficial ergue uma alça plástica dourada de um saco perto da porta. "Adivinhe para que serve isso?", questiona ele, com um sorriso forçado.
Dentro, olho duas vezes: os homens trabalhando estão montando caixões de madeira. Soube que a última encomenda feita para a prisão foi de cabanas de jardim, mas esta parece macabra.
Em outra oficina, no outro lado do pátio, prisioneiros de guerra produzem árvores de Natal artificiais. Bolas de enfeite estão penduradas nas suas máquinas.
Como os fabricantes de caixões, eles me dizem que usam seus salários para comprar mais comida e cigarros.
Sergei nasceu na cidade ucraniana de Luhansk, mas diz que é russo, como seus pais. Eles se mudaram para Donbas quando os dois países faziam parte da União Soviética (1922-1991).
Ele entrou no exército russo uma década atrás, "para defender minha pátria". Mas Sergei afirma que irá se aposentar quando voltar, sem retornar para o front.
"Fiz a minha parte", segundo ele. Mas a maioria não tem a mesma escolha.
Empilhando galhos de plástico ao lado de Sergei, está um traficante de drogas que se alistou, como muitos outros, "exclusivamente" para evitar uma longa estada na prisão.
"Para mim, 15 anos na prisão era demais", explica Konstantin.
"Sei que provavelmente não é justificativa, mas é um fato. Tenho, agora, 44 anos, eu teria 60. Por isso, disse não."
Mas os Vshniki, soldados condenados, precisam sobreviver até o final da guerra para serem libertados. E, nas tropas de ataque, as perspectivas não são boas.
Três assassinos condenados nos disseram que acreditavam poder ficar livres depois de lutar por um ano, mas seus contratos foram renovados automaticamente.
Pergunto sobre a morte dos seus compatriotas no campo de batalha. Sergei chama a questão de "provocação" e se recusa a responder.
"Não vejo nada de bom em nenhuma guerra", responde cuidadosamente Konstantin. "E, em uma guerra como esta, a princípio não pode haver nada de bom."
"Não estou dizendo que somos iguais aos ucranianos, mas somos próximos. Todos nós temos parentes aqui. Isso simplesmente não é bom."
Ele ainda acredita que sua decisão de lutar foi correta.
Nem ele, nem Sergei, esperam que a guerra termine em breve. Ambos acreditam que Putin não irá parar enquanto não controlar toda a região de Donbas.
"Mas todos os que conheço ali acham que já chega", segundo Konstantin. "Eu simplesmente quero que isso acabe o mais rápido possível."
No horário do almoço, os prisioneiros fazem fila para entrar no refeitório, com uniformes azuis, cabeça baixa e mãos entrelaçadas atrás das costas.
Enquanto comem (sopa e cozido), um vídeo chamado Mitos sobre a Crimeia passa em loop, atacando a reivindicação russa sobre a propriedade histórica da península ucraniana ocupada em 2014. Mas ninguém presta a menor atenção.
O trabalho de reeducação parece ser feito sem convicção.
Para Kiev, o foco real é usar os prisioneiros de guerra como moeda de troca para trazer seus próprios soldados para casa. Mas, na hora de negociar as listas de intercâmbio, percebe-se que os homens da região de Donbas têm baixa prioridade para a Rússia.
"Apenas pouco mais de 10 foram transferidos este ano", queixa-se Konstantin.
"Parece que eles não querem nos trocar. Acho que seremos os últimos a ir embora."
Com colaboração de Anastasia Levchenko.
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