Sobrevivente do Holocausto e marido escolhem morte assistida e enviam carta de despedida por e-mail: 'Decisão mútua'
Ruth Posner nasceu em Varsóvia, na Polônia, e fugiu da perseguição nazista ainda na infância
A sobrevivente do Holocausto Ruth Posner, de 96 anos, e seu marido Michael optaram pelo suicídio assistido na Suíça, deixando uma carta explicando a decisão mútua devido à perda da qualidade de vida.
Ruth Posner testemunhou um dos maiores horrores da história ainda na infância, quando conseguiu escapar do campo de concentração de Treblinka, na Polônia. Sobrevivente do Holocausto, ela viveu por 96 anos até decidir realizar um suicídio assistido junto com o marido, Michael, de 97 anos, no mês passado. Os dois resolveram avisar aos familiares da decisão por meio de um e-mail em que destacavam que já não estavam mais "vivendo", mas sim "existindo".
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Uma reportagem do The Times teve acesso ao texto escrito pelo casal e encaminhado aos parentes e amigos próximos. Na carta, os dois pedem desculpas por não terem avisado sobre a decisão previamente.
"Sentimos muito por não termos mencionado, mas quando vocês receberem esta mensagem, já teremos nos livrado deste fardo mortal", inicia o e-mail.
"A decisão foi mútua e sem qualquer pressão externa. Tínhamos vivido uma vida longa e estávamos juntos por quase 75 anos. Chegou um ponto em que a perda dos sentidos, da visão e da audição, e a falta de energia fizeram com que sentíssemos que não vivíamos, apenas existíamos, e nenhum cuidado melhoraria [a nossa situação]", explicaram no texto obtido pelo The Times.
Ruth e Michael optaram pelo suicídio assistido em uma clínica na cidade de Basileia, na Suíça. Além dos detalhes sobre sua saúde física e mental, os dois ainda mencionam a perda do filho no texto emocionado.
"Tivemos uma vida interessante e variada, exceto pela tristeza de perder Jeremy, nosso filho. Aproveitamos o tempo que passamos juntos, tentamos não nos arrepender do passado, viver o presente e não esperar muito do futuro. Com muito amor, Ruth e Mike", finaliza a carta.
Ruth Posner nasceu em Varsóvia, na Polônia, e precisou fugir ainda muito pequena da perseguição nazista. Criança, ela se mudou para os Estados Unidos, onde se tornou atriz, bailarina, escritora e professora na Universidade Juilliard.
Foi lá onde Ruth conheceu Michael, nos anos 1950. Juntos, os dois tiveram o filho Jeremy, que faleceu tragicamente aos 37 anos quando tentava se recuperar do vício em heroína.
Segundo a dramaturga Sonja Linden, que era amiga do casal, a escolha conjunta não foi uma surpresa. "Essa foi uma decisão que eles tomaram juntos há algum tempo: queriam morrer juntos", afirmou ao The Times.
"Eles combinaram de ir para a Suíça há um ano. Só soubemos que eles tinham ido de fato quando recebemos o e-mail, o que é triste, porque queríamos nos despedir. Eles tinham um apartamento tão lindo, cheio de obras de arte e livros, que não consigo imaginá-los sem estar lá", relembrou ao jornal.
"Eles acharam que foi uma decisão positiva e que os ajudou na vida adulta. Não tentei impedi-los. Entendi e apoiei a decisão deles, mas ainda assim foi um choque receber o e-mail", lamentou.
Nas redes sociais, o Museu do Holocausto no Brasil fez uma homenagem à Ruth Posner e rememorou sua história.