Saudades do xá? Manifestantes no Irã desafiam regime e pedem retorno da monarquia
No Irã, em meio a sinais de intensificação do movimento de contestação, novas manifestações foram registradas em cidades do interior, com palavras de ordem contra o poder e, em alguns casos, pedidos pelo retorno da monarquia Pahlavi, que governou o país até 1979.
O clima permaneceu relativamente calmo na capital, Teerã, na quarta-feira (7), mas grandes protestos ocorreram em cerca de quarenta cidades das províncias iranianas, segundo vídeos compartilhados nas redes sociais. Em todos os casos, os manifestantes entoavam slogans contra o regime ou em favor da volta da monarquia Pahlavi.
A monarquia Pahlavi governou o Irã de 1925 a 1979, sob os reinados de Reza Shah Pahlavi e, posteriormente, de seu filho Mohammad Reza Pahlavi, último xá do país. O regime foi marcado por um ambicioso projeto de modernização e ocidentalização, com investimentos em infraestrutura, educação e direitos das mulheres, mas também por autoritarismo, repressão política e concentração de poder, especialmente por meio da polícia secreta, conhecida como SAVAK.
Apoiada por potências ocidentais, a monarquia enfrentou crescente oposição popular devido às desigualdades sociais, à corrupção e às restrições às liberdades civis, culminando na Revolução Islâmica de 1979, que derrubou o xá e instaurou a República Islâmica do Irã.
Apesar desse passado conturbado, nas ruas de várias cidades iranianas, muitos manifestantes sentem saudades do antigo regime. "Esta é a última batalha, Pahlavi voltará", "Este ano é o ano do sangue, seyed Ali (Khamenei) será derrubado" e "Não queremos a República Islâmica" são alguns dos slogans ouvidos durante os protestos, iniciados em resposta ao alto custo de vida e à inflação galopante.
Reza Pahlavi, filho do antigo monarca deposto em 1979, que vive no exílio e cujo nome é entoado pelos manifestantes, fez um apelo para que a população vá às ruas ou grite slogans das janelas de seus apartamentos na quinta-feira (8) e na sexta-feira (9), às 20h no horário local.
Confrontos violentos
Nos últimos dias, em várias cidades, cartazes de dirigentes atuais ou de antigos responsáveis foram queimados, assim como bandeiras iranianas com o emblema da República Islâmica. Muitas dessas manifestações terminaram em confrontos.
Em algumas províncias na fronteira com o Iraque, manifestantes armados atiraram contra as forças de segurança, segundo diversos vídeos divulgados online. Nessas regiões, especialmente em Ilam, Lorestan e no Curdistão, muitas pessoas tradicionalmente possuem armas de caça, mas também armas de guerra. De acordo com a agência de notícias Tasnim, próxima aos Guardiões da Revolução, 590 membros das forças de segurança e cerca de 60 milicianos islâmicos (Basij) ficaram feridos desde o início do movimento, mais de 150 deles por disparos de armas de caça.
Intervenção norte-americana?
As forças de controle de distúrbios responderam com tiros de munição de chumbo ou reais em várias localidades. Segundo números divulgados nesta quinta-feira (8) por uma organização iraniana de direitos humanos baseada no exterior, mais de 35 pessoas foram mortas e mais de 2.000 presas desde 28 de dezembro.
Diante da situação, o presidente americano Donald Trump ameaçou por duas vezes intervir "se o regime continuasse a matar os manifestantes". Rumores sobre uma possível intervenção americana contra o guia supremo, o aiatolá Ali Khamenei, ou contra bases das forças armadas, se espalharam rapidamente entre a população.
Em junho de 2025, durante a guerra de 12 dias iniciada por Israel contra o Irã, o presidente Trump já havia declarado que o aiatolá Khamenei era um "alvo fácil" para os Estados Unidos, mas que "não queriam matá-lo por enquanto".
Alta súbita e sem precedentes do custo de vida
O movimento de contestação, iniciado em 28 de dezembro com a greve de comerciantes do Grande Bazar de Teerã — que protestavam contra a queda da moeda e a instabilidade econômica — ganhou força ao longo dos últimos 12 dias. Nesse contexto já difícil, o governo realizou há poucos dias uma operação econômica extrema, que resultou em uma alta sem precedentes nos preços dos produtos básicos, uma decisão considerada muito arriscada por alguns economistas.
O governo decidiu suprimir subsídios — no valor de cerca de US$ 10 bilhões por ano — para a importação de diversos produtos de consumo corrente, assim como de insumos para a criação de gado e frango. Um pequeno grupo de comerciantes detinha o monopólio da importação desses produtos, o que havia provocado ampla corrupção. Alguns recebiam os dólares e simplesmente não importavam os produtos, enquanto outros os vendiam a preços elevados no mercado.
Em contrapartida, o governo anunciou a concessão de uma ajuda mensal a cada iraniano, mas o valor foi considerado amplamente insuficiente para compensar a alta dos preços. Desde o anúncio da liberalização dos preços, no início da semana, a moeda iraniana perdeu 7% de seu valor. O preço do frango subiu 60%, o dos ovos 40% e o do óleo de cozinha — agora inexistente nas lojas — 200%. Isso ocorre depois de, nos últimos seis meses, os preços dos produtos de consumo corrente já terem aumentado 100%, e ainda mais no caso de itens como ovos, frango e carne.
Com agências