Recuo de Trump sobre pedágio em Ormuz indica dificuldade para encerrar guerra com Irã
A mudança repentina de posição do presidente americano foi o mais recente capítulo de um conflito que já dura mais de quatro meses.
Na manhã de segunda-feira (13/07), em uma publicação nas redes sociais que anunciava a retomada de um bloqueio naval americano contra navios iranianos, o presidente Donald Trump afirmou que todas as embarcações que atravessassem o Estreito de Ormuz — incluindo as de aliados dos Estados Unidos — deveriam pagar um pedágio de 20% para reembolsar o país pelos "custos necessários para garantir segurança e proteção" em uma das regiões mais instáveis do mundo.
No dia seguinte, porém, ele abandonou completamente a proposta e afirmou que buscaria "acordos comerciais e de investimento" com os aliados americanos no Golfo, sugerindo que os EUA poderiam oferecer passagem segura pelo estreito em troca dessas negociações.
A mudança repentina de posição foi mais um capítulo de um conflito que já dura mais de quatro meses e que, apesar de um "memorando de entendimento" firmado há cerca de um mês para estabelecer um cessar-fogo temporário e criar uma base para negociações, não dá sinais de estar próximo do fim.
Trump pode estar relutante em escalar a guerra diante da impopularidade do conflito, da possibilidade de aumento nos preços de energia e dos riscos de que forças americanas e aliados voltem a ser alvo de ataques iranianos.
Mas o presidente também pode considerar pouco atraente a possibilidade de encerrar o conflito sem um acordo que ele possa apresentar como superior ao firmado pela administração de Barack Obama em 2015.
Acho que o desfecho mais provável é um não desfecho", afirmou Rosemary Kelanic, diretora do programa para Oriente Médio da organização Defense Priorities.
"Isso se transformou em uma guerra de desgaste, e guerras de desgaste tendem a durar um período muito, muito longo."
O memorando de entendimento (MOU, na sigla em inglês) entre Estados Unidos e Irã — e as expectativas de que ele pudesse acabar com a guerra — fracassou às 10h16 no horário do leste dos EUA (12h16 em Brasília) nesta terça-feira (14/07), quando Trump anunciou na rede Truth Social a retomada do bloqueio americano contra navios iranianos, em meio a uma série de novos ataques militares dos EUA contra alvos no Irã.
Os iranianos responderam intensificando ataques contra aliados dos Estados Unidos e contra navios comerciais na região, fazendo o tráfego pelo Estreito de Ormuz voltar a praticamente parar.
Após quase um mês de negociações entre os dois países, marcadas por episódios de hostilidade que colocaram à prova a definição de um "cessar-fogo", Trump e o governo americano parecem enfrentar os mesmos desafios que marcaram grande parte da guerra com o Irã.
Do ponto de vista militar, os Estados Unidos vinham alcançando seus objetivos, considerando o número de navios, aviões e alvos iranianos destruídos e a redução da capacidade de defesa do país. Politicamente, porém, o conflito estava longe de ser resolvido.
Mesmo enfraquecido militarmente, o Irã ainda poderia impedir o acesso ao Estreito de Ormuz. E, a menos que os Estados Unidos estejam dispostos a ampliar drasticamente suas operações militares na região, há pouco que poderiam fazer para impedir essa estratégia.
A proposta de Trump de uma taxa de 20% — possivelmente uma tentativa de tornar mais aceitável para o público americano o compromisso militar dos Estados Unidos na região — não era exatamente uma ideia nova. O presidente já havia sugerido esse tipo de acordo em outras ocasiões durante a guerra.
Mas, há menos de um mês, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, condenou um plano iraniano de cobrar "taxas" sobre navios que passassem pelo Estreito de Ormuz.
"Nenhum país pode cobrar pedágios ou taxas em uma via marítima internacional", afirmou Rubio.
"Isso faz parte do direito internacional vigente. É assim que funcionam as águas internacionais em todo o mundo, e é assim que esperamos que seja aqui."
A mudança de posição de Trump sobre Ormuz é mais uma evidência de que o presidente parece não ter um caminho claro para avançar. O memorando de entendimento, que tanto americanos quanto iranianos apresentaram como uma vitória para seus próprios lados, foi deliberadamente vago e deixou muitos pontos para serem definidos em negociações posteriores.
O documento previa algum papel para o Irã na supervisão do tráfego marítimo em Ormuz. O texto afirmava: "A República Islâmica do Irã fará todos os esforços para garantir a passagem segura de navios comerciais sem cobrança de taxas".
Esse é o papel que o Irã tem buscado afirmar. O memorando também incluía bilhões de dólares em "investimentos" prometidos ao país e o fim das sanções internacionais.
Os americanos podem ter acreditado que esses incentivos, combinados com alertas sobre as consequências do descumprimento do acordo, seriam suficientes para impedir que o Irã usasse suas vantagens geográficas para tentar exercer um controle mais forte sobre Ormuz. Essa avaliação, pelo menos por enquanto, parece ter sido equivocada.
"O memorando de entendimento está completamente morto", afirmou Kelanic. "Tudo o que ele previa agora foi desfeito."
Agora, Trump e os iranianos se encontram em uma situação difícil e familiar. O Irã volta a enfrentar ataques militares americanos em seu território, evidenciando sua incapacidade de defender sua soberania nacional. Com a retomada do bloqueio, suas receitas com petróleo — uma tábua de salvação para o regime iraniano — voltam a ser cortadas.
Enquanto isso, Trump se vê novamente diante de uma escolha entre a escalada — que acarreta custos econômicos e políticos internos — e aceitar algum tipo de resolução que mantenha no poder um regime iraniano hostil.
"Estamos de volta ao ponto inicial, quando a pergunta era: quem tem mais paciência?", afirmou Elliot Abrams, pesquisador sênior de Estudos do Oriente Médio no no Council on Foreign Relations.
"Os iranianos, que não conseguirão exportar petróleo, ou os EUA e outros países que consomem o petróleo do Golfo Pérsico?"
Após meses de preocupação de que a guerra com o Irã provocasse uma nova onda de inflação capaz de prejudicar sua popularidade, Trump recebeu uma notícia positiva na terça-feira: os preços ao consumidor estavam em queda.
Uma retomada completa das hostilidades, ou mesmo uma escalada do conflito, inevitavelmente pressionaria novamente os preços do petróleo, ameaçando essa tendência positiva e colocando os republicanos em uma posição delicada antes das eleições legislativas de meio de mandato em novembro.
Na segunda-feira, após a publicação de Trump na Truth Social, o preço do barril de petróleo saltou quase 10% — a maior alta em um único dia em seis anos.
Na primeira vez, o bloqueio imposto por Trump ajudou a pressionar o Irã a voltar à mesa de negociações e abriu caminho para o memorando de entendimento e para uma estrutura de um acordo de paz mais duradouro.
Agora, segundo Kelanic, a capacidade de pressão do presidente americano sobre o Irã pode estar reduzida.
"Ele já tentou as coisas que consegue fazer com facilidade e que têm credibilidade", afirmou ela. "Ele pode atacar alvos militares e ligados ao regime. Já fez isso antes, e isso não levou o Irã à rendição."
O mais recente alvo mencionado por Trump é o monte Kolang Gaz La, também conhecido como montanha da Picareta, uma instalação de pesquisa nuclear fortemente protegida ao sul de Teerã.
No entanto, há informações divergentes sobre a importância do local e sobre a capacidade de ataques aéreos americanos causarem danos significativos aos túneis construídos profundamente sob rochas de granito.
Se os novos movimentos de Trump acabarem levando novamente a um cessar-fogo e a negociações presenciais, os principais pontos de conflito continuarão sem solução: o controle do Estreito de Ormuz, o futuro do programa nuclear iraniano e a influência do Irã no Oriente Médio
"Acho que há espaço para uma negociação sobre um acordo envolvendo o Estreito de Ormuz", afirmou Abrams. "Mas não para um retorno ao memorando de entendimento."
Com a guerra se aproximando do quinto mês, Trump voltou a lembrar na segunda-feira que outros conflitos americanos — incluindo a Guerra do Vietnã — duraram anos.
O conflito, porém, prejudicou e acabou contribuindo para o fim da presidência de Lyndon B. Johnson, além de afetar a imagem dos Estados Unidos no mundo por pelo menos uma década. É justamente esse destino que Trump tenta evitar.
Seus apoiadores também não querem repetir as chamadas "guerras eternas" no Oriente Médio que Trump criticou durante suas campanhas presidenciais anteriores.
Mas, com o memorando de entendimento em ruínas, o cessar-fogo encerrado e a possibilidade de novos confrontos no horizonte, o fim da guerra com o Irã parece tão distante quanto nas semanas que se seguiram ao início do conflito.
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