Quem é Mojtaba Khamenei, o novo líder supremo do Irã já na mira de Trump
Muitos esperam que o homem de 56 anos dê continuidade às políticas linha-dura de seu pai. Mas ele é completamente inexperiente no cargo.
Mojtaba Khamenei foi escolhido sucessor do aiatolá Ali Khamenei, assassinado no primeiro dia do conflito que envolve os Estados Unidos, Israel e o Irã.
Ao contrário de seu pai, Mojtaba, de 56 anos, é discreto. Ele nunca ocupou um cargo no governo, nem fez discursos ou concedeu entrevistas públicas, e apenas um número limitado de fotos e vídeos dele foi publicado.
No entanto, há rumores antigos sobre sua influência sobre o pai. Documentos diplomáticos dos EUA, publicados pelo WikiLeaks no final da década de 2000, o descreviam como "o poder por trás das vestes", e amplamente considerado um "líder capaz e enérgico" dentro do regime, segundo a agência de notícias AP.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não deve aceitar a escolha. Embora tenha sinalizado que estaria aberto à possibilidade de alguém ligado à antiga liderança assumir o poder, Trump deixou clara sua oposição a Mojtaba Khamenei.
"O filho de Khamenei é inaceitável para mim", disse Trump no início desta semana.
A escolha de Mojtaba Khamenei pode se provar controversa dentro do próprio Irã. A República Islâmica foi fundada em 1979, após a queda da monarquia, e sua ideologia se baseia no princípio de que o líder supremo deve ser escolhido por sua posição religiosa e liderança comprovada, e não por sucessão hereditária.
Ali Khamenei falou apenas em termos gerais sobre a futura liderança da República Islâmica.
Ele se opôs à ideia de Mojtaba ser um candidato à futura liderança, disse um membro da Assembleia de Peritos há dois anos. Mas ele nunca havia abordado publicamente tais especulações.
Então, quem é Mojtaba Khamenei?
Nascido em 8 de setembro de 1969 na cidade de Mashhad, no nordeste do país, Mojtaba é o segundo dos seis filhos de Khamenei. Ele recebeu sua educação secundária na escola religiosa Alavi, em Teerã.
Aos 17 anos, Mojtaba serviu no exército por curtos períodos durante a Guerra Irã-Iraque, de acordo com a mídia iraniana. O conflito sangrento de oito anos tornou o regime ainda mais desconfiado dos EUA e do Ocidente, que apoiavam o Iraque.
Em 1999, Mojtaba foi para Qom, uma cidade sagrada considerada um importante centro da teologia xiita, para continuar seus estudos religiosos. É notável que ele não tenha usado vestes clericais até então, e não está claro por que decidiu frequentar um seminário aos 30 anos, já que é algo que se costuma fazer quando mais novo.
Mojtaba permanece um clérigo de posição intermediária, o que pode representar um obstáculo à sua ascensão como líder supremo.
Nos últimos dias, alguns meios de comunicação e autoridades próximas aos centros de poder no Irã começaram a se referir a Mojtaba Khamenei como "Aiatolá", um título clerical de alto escalão. Essa mudança parece, para alguns observadores, uma tentativa de elevar seu status religioso e apresentá-lo como um líder confiável.
No sistema de seminários, ostentar o título de "Aiatolá" e lecionar em classes avançadas são considerados indicadores do nível acadêmico e do conhecimento de uma pessoa, sendo vistos como um dos requisitos para a seleção de um futuro líder.
Mas já existe um precedente. Ali Khamenei foi rapidamente promovido a "Aiatolá" após se tornar o segundo líder supremo em 1989.
Acusações de interferência política
O nome de Mojtaba entrou pela primeira vez em evidência durante a eleição presidencial de 2005, que resultou na vitória de Mahmoud Ahmadinejad, um populista linha-dura.
Em uma carta aberta a Khamenei, o candidato reformista Mehdi Karroubi acusou Mojtaba de interferir na votação por meio de elementos da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e da milícia Basij, que distribuíram dinheiro para grupos religiosos a fim de ajudar Ahmadinejad a vencer.
Quatro anos depois, Mojtaba enfrentou a mesma acusação. A reeleição de Ahmadinejad desencadeou protestos em massa em todo o país, no que ficou conhecido como Movimento Verde. Alguns manifestantes entoavam cantos se opondo à ideia de que Mojtaba pudesse suceder seu pai como líder supremo do Irã.
Mostafa Tajzadeh, então vice-ministro do Interior, descreveu o resultado como um "golpe eleitoral". Ele foi preso por sete anos, o que atribuiu ao "desejo direto de Mojtaba Khamenei".
Dois candidatos reformistas, Mir-Hossein Mousavi e Mehdi Karoubi, foram colocados em prisão domiciliar após a eleição de 2009. Em fevereiro de 2012, Mojtaba se encontrou com Mousavi e tentou convencê-lo a desistir de seu protesto, disseram fontes iranianas à BBC News Persa.
Muitos esperam que Mojtaba continue as políticas linha-dura de seu pai como líder supremo.
Alguns também acreditam que um homem que perdeu o pai, a mãe e a esposa em ataques dos Estados Unidos e de Israel dificilmente cederá à pressão ocidental.
Mas ele também enfrenta a difícil tarefa de garantir a sobrevivência da República Islâmica e convencer o público de que é a pessoa certa para liderar o país para fora da devastação política e econômica.
Seu histórico de liderança permanece em grande parte inexplorado, e a percepção de que a república está se transformando em um sistema hereditário pode aprofundar ainda mais o descontentamento público.
Mojtaba agora se tornou um alvo marcado — como afirmou o ministro da Defesa de Israel, o próximo líder supremo será "um alvo inequívoco para eliminação".
*A BBC Persa é o serviço em língua persa da BBC News, utilizado por 24 milhões de pessoas em todo o mundo - a maioria no Irã - apesar de ser bloqueado e sofrer interferências frequentes por parte das autoridades iranianas.