Queda do presidente do Paraguai acende alerta para direita na America Latina?
Primeiro presidente eleito na nova onda de direita na América do Sul, Peña se alinhou às políticas de Trump para a região. Na política do Paraguai, porém, sua queda deve significar, por ora, pouca mudança nessa orientação ideológica.
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi destituído por impeachment e preso em casa após a falência do Ueno Bank, escândalo que levou o governista Partido Colorado a abandoná-lo. O vice Pedro Alliana assumiu o cargo. Apesar de ser um revés para Donald Trump, analistas indicam que a queda de Peña não abala a direita regional nem a política externa paraguaia, historicamente alinhada a Washington, refletindo apenas dinâmicas locais de autopreservação da máquina partidária dominante.
As notícias vindas do sul da América não têm sido animadoras para o presidente americano, Donald Trump, nas últimas semanas. Depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Brasil, o americano vai ter que lidar agora com a queda de um aliado de primeira ordem: Santiago Peña, no Paraguai.
Eleito presidente em abril de 2023, foi Peña quem iniciou a nova onda de líderes de direita alinhados às políticas dos EUA para a região, abrindo caminhos para vitórias na Argentina (Javier Milei), no Equador (Daniel Noboa), na Bolívia (Rodrigo Paz), no Chile (José Antonio Kast), no Peru (Keiko Fujimori) e na Colômbia (Abelardo de la Espriella) — uma onda só interrompida pela reeleição de Lula.
Peña foi destituído da presidência por um processo de impeachment no Congresso e, logo depois, preso em casa. Ele foi detido a pedido do Ministério Público em meio a investigações sobre seu envolvimento com o Ueno Bank, banco digital que foi liquidado por falta de solvência, levando ao congelamento das contas de milhões de pessoas.
Em seu lugar, assumiu Pedro Alliana, até então vice-presidente de Peña, também do Partido Colorado.
Apesar da queda de Peña, os EUA e os governos de direita na América no Sul não devem perder o apoio paraguaio à sua agenda, apesar de algum sinal de alerta, segundo analistas de relações internacionais ouvidos pela BBC.
O conservador Partido Colorado, partido de Peña que domina a política paraguaia há décadas, mantém uma orientação externa histórica alinhada aos EUA independentemente de quem senta na cadeira no Palácio de Lopez, em Assunção, explica Regiane Bressan, especialista em América Latina e professora na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
"É uma orientação fundada em três pilares: alinhamento estrito com os Estados Unidos na segurança hemisférica, cooperação e alinhamento com Israel e a manutenção de laços diplomáticos com Taiwan, sendo o Paraguai o único país sul-americano a reconhecer Taipei", diz.
Apenas 12 países reconhecem Taiwan como um país soberano. Isso porque é uma decisão que contraria a posição da China, que vê Taiwan como uma província separatista que um dia voltará a estar sob o controle de Pequim.
Embora não tenham laços diplomáticos formais com Taipei, os EUA mantêm fortes relações comerciais, culturais e de segurança com a ilha.
Sob Peña, os laços entre americanos e paraguaios se estreitaram, atingindo níveis sem precedentes, disse à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, Gregory Ross, da consultoria McLarty Associates, com sede em Washington.
Em 2026, ele sancionou o Acordo do Estatuto das Forças (SOFA, na sigla em inglês), convênio que autoriza e regulamenta a presença temporária de pessoal civil e militar do Pentágono e de empresas americanas no Paraguai, para realizar atividades relacionadas à entrada de veículos, treinamento e exercícios militares.
O acordo estabelece que os funcionários do Departamento de Defesa e os membros das Forças Armadas dos Estados Unidos terão "privilégios, isenções e imunidades" enquanto realizarem atividades vinculadas ao convênio.
A proposta sofreu críticas da oposição durante sua discussão, mas, mesmo sem Peña, o grupo deve ter pouca força para pautá-la novamente, explica Alexandre Coelho, professor e coordenador do curso de Relações Internacionais da FESPSP (Escola de Sociologia e Política de São Paulo).
"O acordo provocou críticas às imunidades e à jurisdição penal concedidas aos EUA, embora tenha recebido amplo apoio parlamentar. A crise pode devolver força ao debate sobre soberania, mas não vejo uma revisão automática: contestar o acordo é uma coisa, reunir força política para alterá-lo é outra", diz Coelho.
Além disso, o Paraguai também participa da iniciativa Escudo das Américas, aliança de segurança regional lançada por Trump para o combate ao narcotráfico e ao crime transnacional na região.
Para os líderes de direita de países vizinhos, a queda de Peña também deve ter pouco impacto imediato, avalia Coelho, da FESPSP.
"Acende um alerta, mas seria precipitado enxergar um efeito dominó contra a direita sul-americana. A crise de Peña tem raízes muito paraguaias: seus antigos vínculos com o grupo ligado ao Ueno, as suspeitas sobre a fiscalização bancária e, principalmente, o abandono pelo Partido Colorado, que sustentava seu governo", diz.
Para Bressan, a direita regional, como Milei, na Argentina, ou forças conservadoras no Brasil, não deve sofrer um "contágio programático".
"Não representa um sinal ainda de esgotamento ideológico da direita pró-EUA na América do Sul. O colapso do seu governo não foi deflagrado por debate sobre privatizações, pautas de costumes ou política externa, mas pela falência do Ueno Bank", segue a professora.
Para Coelho, porém, há um recado para os demais líderes: ser aliado de Trump não é um seguro de sobrevivência política.
"Na minha avaliação, a afinidade internacional pode render prestígio, mas não compensa a perda de confiança da população e da própria base."
'Queda de Peña vai além do Ueno'
É preciso ter em mente, segundo os analistas, que a queda de Peña vai além do Ueno Bank e tem a ver com uma figura central na política do país: o ex-presidente Horácio Cartes (2013-2018), padrinho político de Peña.
Cartes é, inclusive, alvo de sanções do Departamento de Estado americano e tem apostado no alinhamento com Trump para tentar revertê-las, segundo Bressan.
Em 2022, sob governo de Joe Biden, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos definiu Cartes como "significativamente corrupto" e o sancionou pela Lei Magnitsky.
A medida, a mesma usada contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), é considerada uma das mais severas medidas disponíveis para os EUA punirem estrangeiros que consideram autores de graves violações de direitos humanos e práticas de corrupção.
Cartes segue liderando o Partido Colorado e anunciou apoio ao processo para afastar Peña do cargo. Logo depois, o então presidente leu sua carta de renúncia, que precisaria da aceitação do Congresso — que, no entanto, preferiu seguir com um processo de impeachment.
"A queda dele trata-se, ao meu ver, da própria mecânica de sobrevivência do partido. Peña nunca foi um líder orgânico do Colorado", diz a professora, explicando que a dinâmica no Paraguai difere da polarização clássica entre esquerda e direita nos outros países latinos.
Formado como economista no exterior, Peña é egresso do Banco Central e Fundo Monetário Internacional (FMI), tendo um perfil mais técnico. Ele foi filiado tardiamente ao partido, "para funcionar como vitrine moderna para o cartismo", explica a pesquisadora.
Mas, quando o Ueno quebra e o dinheiro de milhões de paraguaios fica preso, o ex-presidente se tornou "tóxico" para os próprios aliados cartistas, avalia.
"Ele não sobreviveria sem o partido Colorado porque não possuía tropas parlamentares leais a si próprio. Quando a pressão popular tomou as ruas, o risco de um retrocesso político descontrolado ameaçou respingar em toda a legenda. E Cartes aplicou então a clássica tática do fusível".
Ou seja, usar um componente "sacrificável" ou elo mais fraco para proteger o restante do sistema.
O novo presidente do Paraguai, Pedro Alliana, é considerado um político de confiança da cúpula partidária, tendo comandado o Partido Colorado entre 2016 e 2023.
Com isso, diz Bressan, "a máquina partidária garantiu que a permanência no Palácio pelo menos até 2028", ano da nova eleição do país.
Para o professor Coelho, porém, a oposição pode tentar se aproveitar do momento de crise para se fortalecer.
Miguel Prieto, do Yo Creo, e Ricardo Estigarribia, do Partido Liberal, são nomes relevantes na disputa pela candidatura presidencial de 2028, explica.
"A oportunidade existe, mas indignação não se converte sozinha em voto: a oposição precisará mostrar que consegue governar, e não apenas denunciar. Caso contrário, corre o risco de assistir ao Partido Colorado trocar o presidente e preservar o poder."
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