Protestos de Leipzig anteciparam derrubada do Muro de Berlim
- Voltaire Schilling*
- Especial para o Terra
Iniciado dentro de uma igreja na cidade de Leipzig, situada na Alemanha do Leste, o movimento "Sem Violência", estimulado pela Igreja Evangélica e pelo Novo Fórum, ganhou as ruas da cidade. A movimentação das massas um mês antes do dia 9 de novembro de 1989 é o tema da terceira reportagem da série especial sobre os 20 anos da queda do Muro de Berlim que o Terra publica ao longo desta semana.
Na noite de 9 de outubro, um mês antes do Muro de Berlim vir abaixo, 70 mil manifestantes tomaram as ruas daquela cidade entoando slogans contra o regime e gritando "Stasi raus", exigindo o fim da Stasi, a polícia política do governo comunista da Alemanha Oriental. Ninguém até aquele momento poderia imaginar que estava em andamento a implosão do regime de Herich Honecker, bem como o fim da Guerra Fria.
Naquela noite, aproveitando-se da visível corrosão do comunismo no Leste europeu, a Nikolaikirche, a Igreja de São Nicolau, estava apinhada de gente para mais um ato de protesto. Do órgão o som saía elevado, majestoso, envolvente. A nave toda retumbava com os acordes solenes de uma fuga de Bach. Belíssima.
A multidão em silêncio respeitoso ocupara todos os bancos, enquanto os mais jovens estiravam-se pelo chão mesmo. Quem, naquele momento, poderia supor que as harmônicas notas daquele grande gênio da música universal serviriam para derrubar o vergonhoso muro que, bem longe de Leipzig, separava a cidade de Berlim desde 1961?
Fronteiras abertas
Naquele verão de 1989, a Europa, espantada, assistiu a uma estranha migração. Milhares de alemães orientais dirigiram-se para a Hungria, e quando se viu, amontoaram-se em frente ao prédio da legação da Alemanha Ocidental em Budapeste. Eles souberam que o regime comunista magiar abrira oficialmente sua fronteira com a Áustria em maio de 1989.
Um caminho para o Oeste da Europa estava aberto e eles queriam aproveitar aquela oportunidade extraordinária. Imploravam para que a embaixada alemã ocidental os acolhessem atrás de vistos que os permitissem viajar para fora do Bloco do Leste. Os diplomatas da República Federal tiveram que ceder. Que entrassem. Depois se veria o que era possível fazer naquelas circunstâncias.
Ao penetrarem no recinto, mal sabiam eles, estavam inviabilizando o muro e destruindo um dos pilares do regime comunista de Herich Honecker. Finalmente, depois de muita pressão e negociação, eles receberam, em setembro, autorização das autoridades comunistas húngaras para poderem sair. Pouco tempo depois, a mesma cena repetiu-se em Praga, onde as lideranças checas deixaram que alemães orientais, que estavam na embaixada alemã ocidental, saíssem num trem fechado em direção à Alemanha Ocidental.
Aberta a represa, o muro não tinha mais função. Dali em diante quem desejasse abandonar a Alemanha comunista bastava cumprir um roteiro triangular: sair de Berlim oriental, ou de qualquer outra cidade do Leste da Alemanha, alcançar Budapeste, e dali tomar um trem em direção à Áustria ou à Alemanha Ocidental.
Revolução pacífica
Em Dresden, deu-se uma batalha campal nas cercanias da parada dos trens entre a polícia e o povo, mas em Leipzig a manifestação assumiu um outro contorno. Estimulados pela música de Bach, milhares de pessoas foram para as ruas. Naquele dia 9 de outubro de 1989, deu-se o princípio da contagem regressiva que em apenas trinta dias depois pôs o Muro de Berlim no chão.
Setenta mil pessoas gritavam Wir wollen raus!, Nós queremos sair!, reclamando por seu direito de viajar, enquanto uma outra parte da multidão respondia Wir bleiben hier! Nós ficaremos aqui, no sentido que desejavam permanecer na Alemanha Oriental lutando para reformar o regime comunista de cima a baixo. Em seguida, todos juntos entoavam o refrão Wir sind das Volk! Nós somos o povo!
Apavorados com o vulto do protesto, as lideranças comunistas da Alemanha Oriental, a RDA, sondaram o dirigente soviético Mikhail Gorbachev da possibilidade de utilizar-se tropas e tanques soviéticos e alemães orientais para sufocar um possível levante popular anticomunista. Gorbachev dissuadiu-os.
Não havia mais clima na Europa, depois que ele mesmo dera início às reformas da Glasnost e da Perestroika, para voltar atrás. Era impossível repetir-se uma ação blindada como ocorrera em Berlim em 1953 e em Praga em 1968. Que os camaradas alemães encontrassem uma outra solução que não fosse apelar para a repressão. Que tentassem recuperar a confiança dos cidadãos, que fizessem as reformas com o povo alemão do Leste e não contra ele. Mas àquela altura bem pouco poderia ser feito.
Apesar do ambiente festivo que ainda marcaria as celebrações do 40º aniversário da fundação da República Democrática Alemã (1949-1989), tudo estava perdido para os comunistas. Na noite do dia 9 de novembro de 1989, apenas um mês depois da manifestação de massa de Leipzig, por volta das 22h, uma multidão pacífica marchou em direção aos pontos de passagem que havia no Muro de Berlim querendo ir para o outro lado.
Os guardas da fronteira, sem saber o que fazer não tiveram remédio senão em levantar as cancelas e deixar o povo passar. Enquanto as duas Alemanhas se reunificavam, a Guerra Fria terminava.
* Voltaire Schilling é historiador e escreve regularmente para o Terra na seção História do site de Educação.