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Pesquisadores alertam sobre táticas da indústria alimentícia e consumo de ultraprocessados

Alimentos ultraprocessados ​​representam uma ameaça real à saúde, segundo um grande grupo de pesquisadores que publicou uma série de estudos na revista The Lancet na quarta-feira (19). Os cientistas também acusam a indústria alimentícia de usar "táticas da indústria do cigarro" para gerar dúvidas sobre o assunto.

19 nov 2025 - 11h30
(atualizado às 12h03)
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Chris van Tulleken, um dos principais autores de um desses estudos, disse em uma coletiva organizada pela The Lancet que a indústria alimentícia usa "táticas dignas da indústria do tabaco" para desacreditar pesquisas sobre alimentos ultraprocessados.

Fast food faz parte de grupo de produtos de alimentação ultra-processados.
Fast food faz parte de grupo de produtos de alimentação ultra-processados.
Foto: AFP Photo/ Yoshikazu Tsuno / RFI

A prestigiada revista médica publicou o resultado de três pesquisas com o objetivo de fornecer uma visão geral definitiva sobre o tema. Os estudos surgem em meio a crescentes preocupações com a saúde relacionadas a alimentos ultraprocessados. No entanto, ainda persiste um intenso debate científico sobre a extensão dos riscos destes produtos.

De acordo com alguns cientistas, o termo "alimentos ultraprocessados" pode gerar alarmismo, já que se aplica amplamente a produtos resultantes de processos industriais complexos e da recombinação de vários ingredientes, mas é vago.

Segundo outros pesquisadores, essas dúvidas não são legítimas, dado o estado atual do conhecimento, e estão sendo exploradas pela indústria alimentícia para bloquear medidas destinadas a reduzir o consumo deste tipo de alimento.

Classificação NOVA

Os autores dos estudos publicados na Lancet se enquadram nesse segundo grupo. Entre eles está o epidemiologista brasileiro Carlos Monteiro, criador do sistema NOVA para determinar se um alimento é ultraprocessado. Essa classificação é amplamente utilizada como referência, mas sua metodologia não é universalmente aceita.

Ela agrupa alimentos em quatro categorias conforme o nível de processamento industrial ao qual foram submetidos e segundo os objetivos: preservar, extrair, modificar ou criar produtos alimentícios. A NOVA é a primeira a usar este tipo de parâmetro e países como França, Israel, Canadá, México e Uruguai também já a adotaram.

Ela separa os alimentos em quatro grupos. O primeiro é o de alimentos in natura ou minimamente processados, que estão em sua forma original, como frutas, legumes, verduras, carne fresca e leite.

O segundo, são ingredientes culinários processados, mas diretamente provenientes dos produtos in natura, como azeite, manteiga ou queijo.

O grupo três se refere aos alimentos processados, que normalmente usam elementos do grupo um e do grupo dois em sua fórmula, como, por exemplo, o pão caseiro ou a geleia.

Já o quarto grupo reúne os ultraprocessados, que não são propriamente alimentos e sim produtos alimentícios repletos de açúcar, gorduras, sódio, gorduras produzidas industrialmente, amidos modificados e várias substâncias de uso exclusivamente industrial e aditivos alimentares, como corantes, aromatizantes e adoçantes.

Monteiro é o autor principal do primeiro estudo publicado na Lancet. O trabalho compila cerca de 100 estudos científicos para estabelecer o estado atual do conhecimento sobre os riscos dos alimentos ultraprocessados. Ele conclui que o consumo desses alimentos está associado a múltiplos problemas de saúde, como obesidade e diabetes, bem como, de forma mais ampla, morte prematura.

Os críticos apontam, em particular, que, de acordo com as definições da NOVA, produtos como leites vegetais ou pão poderiam ser classificados como ultraprocessados, mesmo sendo saudáveis.

Os autores reconhecem que existem "críticas científicas válidas", mas estas são insignificantes em comparação com a campanha de desestabilização promovida pela indústria. Eles defendem a realização de mais estudos para distinguir os efeitos de certos processos industriais, como os que aromatizam artificialmente os iogurtes.

Estratégias para consumo de ultraprocessados

O segundo estudo publicado na revista analisa o consumo de alimentos ultraprocessados. Ele conclui que eles já representam mais da metade das calorias consumidas em países como os Estados Unidos e o Reino Unido.

O terceiro estudo examina as estratégias das principais empresas alimentícias — as oito maiores são Nestlé, PepsiCo, Unilever, Coca-Cola, Danone, Fomento, Econômico Mexicano, Mondelez e Kraft Heinz — acusando-as de promover agressivamente produtos feitos com ingredientes de baixa qualidade há décadas.

Após essa análise abrangente, os pesquisadores concluem que há uma necessidade urgente de se tomar medidas contra o consumo de alimentos ultraprocessados, proibindo principalmente a publicidade direcionada a crianças ou tributando esses produtos. A receita arrecadada poderia, segundo os pesquisadores, financiar programas que melhorem o acesso a produtos frescos para famílias de baixa renda.

O extenso relatório foi, em geral, bem recebido por pesquisadores que não participaram do estudo, mas que ainda têm reservas quanto a certos aspectos metodológicos. "É evidente que os autores desses estudos são tendenciosos a favor da NOVA, já que foram eles que a criaram", disse Hilda Mulrooney, nutricionista da Universidade de Kingston, em Londres, enfatizando que os mecanismos precisos pelos quais os alimentos ultraprocessados podem prejudicar a saúde ainda são, em grande parte, desconhecidos.

Mas "já passou da hora de agirmos" em relação a esses produtos, reconheceu ela, citando seu alto custo "para indivíduos, sistemas de saúde e finanças públicas", ao mesmo tempo que ressaltou que as comunidades mais pobres são as mais afetadas, com um risco "desproporcional" de doenças crônicas.

RFI e AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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