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Pacto secreto entre Trump e Bukele fez migrantes desaparecerem em prisão de segurança máxima

Há um ano e meio, os Estados Unidos expulsaram para El Salvador mais de 200 venezuelanos e cerca de 30 salvadorenhos, no âmbito de um acordo migratório. Acusados de crime organizado pelos dois governos, eles foram detidos e colocados na prisão de segurança máxima Cecot, privados de acesso a um advogado e de qualquer procedimento legal. Uma negociação política permitiu o repatriamento dos venezuelanos quatro meses depois, mas os salvadorenhos continuam desaparecidos. Hoje, as famílias de 11 deles quebram o silêncio e exigem saber onde estão detidos.

21 set 2026 - 12h52
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Resumo
Um acordo secreto entre os governos de Donald Trump e Nayib Bukele resultou na deportação dos EUA e no desaparecimento forçado de dezenas de salvadorenhos em 2025. Enviados em voos militares para prisões de segurança máxima como o Cecot, sob o regime de exceção salvadorenho, os detidos foram mantidos incomunicáveis, sem acusações formais ou assistência jurídica. ONGs de direitos humanos denunciam torturas e a cumplicidade de ambos os países ao apagarem os registros dessas pessoas.

Artigo produzido no âmbito de uma investigação coordenada pelo Forbidden Stories, intitulada "The Deportation Project", da qual participa a RFI, além de outros 23 veículos de comunicação.

Angélica Pérez, enviada especial da RFI a El Salvador.

No caso de El Salvador, a história de Kevin e Elmer se parece com a de tantos outros migrantes expulsos pelos Estados Unidos à margem de qualquer procedimento legal. A RFI encontrou as irmãs de cada um deles, que não cessam de lutar para encontrá-los. Glenda e Karen são duas salvadorenhas que se tornaram investigadoras na busca por seus irmãos expulsos dos Estados Unidos. 

"Meu irmão desapareceu. Está detido há mais de um ano sem qualquer procedimento legal. Gostaríamos de ter provas de que ele está bem, porque não podemos continuar vivendo na incerteza, sem receber nenhuma notícia dele", diz Glenda.

"Ele foi expulso há mais de um ano e, até hoje, ninguém quis nos dizer onde ele está. Não há nenhum registro dele na promotoria. Para nós, trata-se de um desaparecimento forçado. É como se eles não existissem aqui em El Salvador", afirma Karen.

O que é um "desaparecimento forçado"?

Segundo a ONU, entende-se por desaparecimento forçado a prisão, detenção, sequestro ou qualquer outra forma de privação de liberdade cometida por agentes do Estado ou por pessoas ou grupos que atuem com autorização, apoio ou consentimento do Estado, seguida da recusa em reconhecer a privação de liberdade ou da ocultação do destino da pessoa desaparecida ou do local onde ela se encontra, retirando-a da proteção da lei.

Eles não existem oficialmente e, no entanto, chegaram de fato a San Salvador entre março e abril de 2025, a bordo de voos militares fretados pelo governo Trump. Esses voos transportaram 252 venezuelanos e um número indeterminado de salvadorenhos, todos acusados pelos dois governos de serem criminosos perigosos. A partir daquele momento, perdeu-se o rastro de Elmer Concepción Romero Janes, irmão de Glenda, e de Kevin Rolando Barrera Torres, irmão de Karen.

As transferências ocorreram em três datas: 15 e 30 de março e 12 de abril. "Infelizmente, ao contrário do caso dos venezuelanos, nenhum número exato nem qualquer informação oficial jamais foi divulgada sobre os salvadorenhos. Primeiro tomamos conhecimento por meio de uma nota da Casa Branca, depois por um tuíte e, finalmente, pela imprensa", explica Nathalye Cotrino, pesquisadora sênior da divisão das Américas da Human Rights Watch (HRW).

Glenda e sua família descobriram que Elmer estava no país graças a um vídeo no qual a Presidência de El Salvador mostrava a chegada de voos militares transportando pessoas suspeitas de pertencer a gangues, expulsas dos Estados Unidos.

"Graças a Deus, conseguimos reconhecê-lo no vídeo. Ele é o último a aparecer, no momento em que desce do avião para entrar em um ônibus. Meu irmão estava a bordo do segundo voo, que pousou em 31 de março de 2025. Além disso, ele havia falado com uma tia que mora nos Estados Unidos e disse a ela que seria enviado de volta ao país, pedindo que ela lhe enviasse roupas. Essa tia conseguiu reconhecer as roupas que havia enviado a ele como sendo as que ele vestia. O fato de tê-lo visto e ter certeza de que ele havia chegado ao país foi a única coisa que nos permitiu manter a esperança", explica Glenda.

Captura de vídeo publicado pelo governo salvadorenho, que mostra pessoas expulsas pelos Estados Unidos. A imagem mostra o irmão de Glenda descendo do avião.
Captura de vídeo publicado pelo governo salvadorenho, que mostra pessoas expulsas pelos Estados Unidos. A imagem mostra o irmão de Glenda descendo do avião.
Foto: RFI

Depois de registrar uma denúncia por desaparecimento e procurar as instituições competentes, Karen teve certeza de que seu irmão Kevin havia chegado a El Salvador. "Foi em maio de 2025. A procuradora-geral me confirmou que ele havia sido expulso em 15 de março, junto com o grupo de venezuelanos. O avião havia pousado às 22h30. No entanto, ela me disse que não poderia fornecer mais informações porque não estava autorizada. Chegou a se recusar a me mostrar o documento, alegando que era confidencial. Desde então, multiplicamos as iniciativas, mas ninguém nos dá uma resposta."

Pacto secreto sob regime de exceção

Essas expulsões ocorreram sob o regime de exceção instaurado em 2022 pelo presidente salvadorenho, Nayib Bukele, no âmbito de sua guerra contra as "maras" (gangues). O dispositivo permite prender uma pessoa sem informar os motivos, negar-lhe assistência jurídica e mantê-la em detenção incomunicável, por tempo indeterminado e sem que ela compareça perante um juiz.

Elas também ocorreram no contexto da guerra contra a imigração conduzida pelo presidente americano, Donald Trump, tendo como palavra de ordem "promover a maior campanha de expulsões da história dos Estados Unidos".

Karen e sua mãe travam há um ano e meio buscas incansáveis. Karin conseguiu estabelecer que seu irmão, Kevin Rolando Barrera Torres, fazia parte do grupo de 36 salvadorenhos expulsos dos EUA entre março e abril de 2025.
Karen e sua mãe travam há um ano e meio buscas incansáveis. Karin conseguiu estabelecer que seu irmão, Kevin Rolando Barrera Torres, fazia parte do grupo de 36 salvadorenhos expulsos dos EUA entre março e abril de 2025.
Foto: RFI

Karen e sua mãe realizam há um ano e meio buscas incessantes. Karen conseguiu estabelecer que seu irmão, Kevin Rolando Barrera Torres, fazia parte dos 36 salvadorenhos expulsos dos Estados Unidos entre março e abril de 2025.

Antes de proceder à expulsão desses imigrantes, em março e abril de 2025, os dois governos haviam firmado um acordo secreto sobre imigração, anunciado duas semanas depois do retorno de Trump à Casa Branca, sem, contudo, ter seus detalhes revelados.

Em 4 de fevereiro de 2025, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, em visita oficial a El Salvador, qualificou de "ato de generosidade sem precedentes" a oferta do presidente Nayib Bukele de "receber criminosos perigosos expulsos pelos Estados Unidos — membros do Tren de Aragua ou da gangue Mara S13 — e encarcerá-los em suas prisões". Isso incluiria cidadãos norte-americanos ou residentes legais condenados nos Estados Unidos. "É mais uma prova da incrível amizade do presidente Bukele", afirmou Marco Rubio.

Por sua vez, o presidente Nayib Bukele confirmou em sua conta no X que aceitaria receber os detidos em troca de uma pequena compensação financeira dos Estados Unidos, mas com benefícios significativos para El Salvador. Os prisioneiros seriam transferidos para o Cecot, a prisão de segurança máxima emblemática da política repressiva de seu governo.

O acordo migratório EUA e El Salvador

Os detalhes do acordo migratório firmado entre os governos dos presidentes americano e salvadorenho permaneceram desconhecidos até setembro de 2025, quando foram revelados no âmbito de um processo judicial.

"Trata-se de um contrato que eles não quiseram divulgar. Tomamos conhecimento de sua existência graças a um documento do governo Trump que vazou e que fazia parte das provas no processo GGV vs Trump", explica Nathalye Cotrino.

A pesquisadora da Human Rights Watch refere-se à ação coletiva apresentada em 15 de março de 2025 pela American Civil Liberties Union (ACLU) e pela Democracy Forward perante o Tribunal Federal do Distrito de Columbia, nos Estados Unidos. A ação, movida em nome de cidadãos venezuelanos detidos pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE), buscava impedir a ameaça iminente de expulsão dos migrantes pelo governo Trump.

A prova é uma carta oficial do Departamento de Estado norte-americano enviada ao governo de El Salvador, datada de 22 de março de 2025, oficializando a concessão de US$ 4,76 milhões destinados a apoiar as estruturas penitenciárias e logísticas necessárias para a detenção dos migrantes venezuelanos e salvadorenhos expulsos e seu encarceramento no Cecot. A transferência desses recursos estava condicionada à proibição de El Salvador de fornecer recursos ou assistência jurídica aos solicitantes de asilo.

Como consequência desse acordo, o Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot) — símbolo da guerra conduzida pelo presidente salvadorenho contra as gangues — transformou-se em uma ferramenta da política migratória de seu homólogo Donald Trump.

"Bem-vindos ao inferno"

Algemados nos pulsos e nos pés, os expulsos desembarcaram dos aviões no aeroporto internacional de El Salvador e foram conduzidos ao Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), uma megapenitenciária de segurança máxima.

"Além do discurso oficial, os dados que conseguimos reunir contavam uma história completamente diferente", afirma René Valiente, diretor da Cristosal, principal organização humanitária de El Salvador, recentemente obrigado a se exilar.

"Eram migrantes pobres em busca de um futuro melhor nos Estados Unidos. Apenas uma pequena porcentagem tinha antecedentes criminais e, nesses casos, as infrações não indicavam de forma alguma envolvimento com atividades de crime organizado", explica.

A Cristosal e a HRW constataram que, no Cecot, essas pessoas foram submetidas a graves torturas físicas, psicológicas e sexuais de forma sistemática, além do crime contra a humanidade que constitui o desaparecimento forçado.

"O diretor do centro disse a eles: 'Bem-vindos ao inferno', acrescentando que a única maneira de sair de lá era 'mortos'", afirma René Valiente.

O responsável pela Cristosal denuncia que, durante os quatro meses em que essas pessoas ficaram detidas nessa prisão, não tiveram acesso a um juiz ou tribunal que lhes oferecesse garantias. Também não foram submetidas a nenhum procedimento judicial. O Estado salvadorenho se recusou sistematicamente a fornecer informações sobre elas, inclusive às suas famílias.

"No direito internacional, isso tem um nome: desaparecimento forçado", afirma.

Trinta e seis salvadorenhos desaparecidos

Em julho de 2025, os venezuelanos recuperaram a liberdade e retornaram ao país em troca de prisioneiros políticos, após uma negociação entre os três governos. Em contrapartida, não houve mais notícias dos salvadorenhos expulsos junto com eles e apresentados como membros das "maras", as gangues que Bukele classificou como organizações terroristas.

"Assim como no caso dos venezuelanos, conseguimos documentar que os salvadorenhos foram imediatamente apagados de todas as informações que poderiam ser comunicadas pelo governo americano, sem que o governo salvadorenho fornecesse qualquer indicação sobre o local e as condições de sua detenção", afirma Juanita Goebertus, diretora da divisão das Américas da Human Rights Watch.

Após uma investigação minuciosa, organizações de defesa dos direitos humanos e migrantes nos Estados Unidos conseguiram estabelecer que os três voos de março e abril de 2025 transportaram 36 salvadorenhos expulsos. Desses, apenas 11 foram identificados.

Foi graças às iniciativas dos familiares desses salvadorenhos e de seus advogados junto ao sistema interamericano que foi possível estabelecer onde seis deles estavam. Um está detido no Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot) e os outros no Centro de Execução de Penas de Santa Ana. Essas são as informações fornecidas pelo governo de El Salvador em resposta às medidas cautelares concedidas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos em favor dessas pessoas expulsas.

"Quanto às outras pessoas, não sabemos onde estão. É por isso que afirmamos que os Estados Unidos, em conluio com El Salvador, as submeteram a um desaparecimento forçado", insiste Nathalye Cotrino, da HRW.

Questionada sobre por que é tão difícil rastrear essas pessoas em El Salvador, Cotrino responde: "Por causa do clima geral de medo diante das ações do governo e das medidas adotadas no âmbito do regime de exceção, essas famílias só nos procuraram quase um ano depois das expulsões. Tinham muito medo de que algo grave acontecesse com seus familiares dentro desses centros de detenção. Os próprios advogados disseram que se recusavam a assumir a defesa desses casos porque não queriam ter problemas com o regime."

No âmbito das negociações entre os atuais governos dos Estados Unidos e de El Salvador, o nível de risco atribuído a esse país da América Central — que historicamente apresentava resultados ruins nessa avaliação — foi revisto. O governo Trump classificou El Salvador entre os países mais seguros do mundo, enquanto o relatório do Departamento de Estado sobre direitos humanos — elaborado durante o governo Biden — destacava claramente os riscos de tortura no país, como apontou Juanita Goebertus, da Human Rights Watch.

Onde eles estão? A via-crúcis da busca

Elmer Concepción Romero Yanes apareceu no vídeo oficial das pessoas expulsas para El Salvador em 31 de março de 2025.

"Em 21 de março de 2025, informaram a ele que seria entregue ao serviço de imigração americano para ser enviado de volta ao seu país. Em nenhum momento disseram que ele seria encarcerado aqui, em El Salvador." Glenda lembra que seu irmão telefonou para ela do Centro Correcional Federal de Lompoc, na Califórnia, uma prisão federal de baixa segurança para homens.

Ela não sabe por que ele foi enviado para essa prisão para criminosos comuns, onde deveria cumprir os 26 meses restantes de sua pena por permanência irregular. Ele havia cumprido a primeira parte no Centro de Tratamento do Condado de Otero, no Novo México, com capacidade para 900 migrantes em situação migratória irregular, segundo um contrato entre o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) e a empresa privada de administração penitenciária MT. (2)

"Vou chegar a El Salvador no início de abril", disse ele a Glenda. Ela e sua família esperaram por Elmer até vê-lo aparecer no vídeo oficial das expulsões de 31 de março, apresentado como um perigoso membro da gangue Mara Salvatrucha (MS-13) e conduzido à megapenitenciária Cecot. Depois disso, perderam seu rastro.

Kevin Rolando Barrera Torres chegou a El Salvador a bordo de um voo militar em 15 de março de 2025, segundo a procuradora-geral.

"Este é o agente encarregado da expulsão. Vou falar com ele", disse Kevin. "Eu te ligo de volta." E nunca mais ligou, conta Gerber, amigo e chefe de Kevin nos Estados Unidos, lembrando a última ligação que ele fez em 13 de março de 2025, do Centro de Detenção do Condado de Hidalgo, no Texas, uma prisão administrada pela empresa privada GEO Group e utilizada para deter migrantes em situação irregular sob custódia do ICE.

"Nessa mesma sexta-feira, o nome do meu irmão Kevin desapareceu dos registros do centro de detenção de Hidalgo, e as autoridades nos informaram que ele havia sido expulso", conta sua irmã Karen. "Ele deveria ter chegado aqui, em El Salvador, naquele fim de semana, mas não apareceu."

Sem ainda se conhecerem, Glenda e Karen iniciaram um ritual para combater o desespero: procurar incansavelmente, cada uma por sua conta, seus respectivos irmãos nas instituições de El Salvador. Lá, diziam a elas que eles não haviam entrado no país, pois não havia qualquer registro de que tivessem chegado.

Elas buscaram informações sobre eles no centro de acolhimento de migrantes, no Ministério das Relações Exteriores, na Embaixada dos Estados Unidos em San Salvador, nas promotorias locais, nos estabelecimentos penitenciários e na prisão do Cecot, para onde haviam sido transferidos os expulsos dos três voos militares americanos. Nenhuma das duas recebeu resposta sobre o destino de seus irmãos. Também não havia registro de sua detenção.

Cada uma foi à promotoria, onde receberam documentos indicando que Elmer e Kevin não eram objeto de nenhuma investigação em andamento. Ambas registraram uma denúncia por desaparecimento, mas isso não serviu para nada.

Após um ano e meio de silêncio, o governo de Nayib Bukele reconheceu, em junho, que Elmer Concepción Romero Yanes estava detido no Centro de Execução de Penas e Reinserção de Santa Ana, sem, contudo, especificar os fatos pelos quais ele é acusado. A promotoria entregou à família um certificado atestando que Romero não tinha antecedentes criminais.
Após um ano e meio de silêncio, o governo de Nayib Bukele reconheceu, em junho, que Elmer Concepción Romero Yanes estava detido no Centro de Execução de Penas e Reinserção de Santa Ana, sem, contudo, especificar os fatos pelos quais ele é acusado. A promotoria entregou à família um certificado atestando que Romero não tinha antecedentes criminais.
Foto: RFI

Após um ano e meio de silêncio, o governo de Nayib Bukele reconheceu, em junho, que Elmer Concepción Romero Yanes estava detido no Centro de Execução de Penas e Reinserção de Santa Ana, sem, contudo, especificar de quais fatos ele era acusado. A promotoria entregou à família um certificado atestando que Romero não tinha antecedentes criminais.

A prática adotada pelo governo Trump consiste em retirar as pessoas expulsas do banco de dados do ICE. Sobre isso, Juanita Goebertus, da Human Rights Watch, explica que "se os Estados Unidos respeitassem a obrigação fundamental prevista na Convenção contra os Desaparecimentos Forçados de informar onde a pessoa se encontra, deveriam indicar que ela foi transferida para El Salvador ou para determinado país. O que aparece no sistema de localização de detidos do ICE na internet, porém, é: 'Esta pessoa não está detida pelos Estados Unidos', e então ninguém consegue saber onde ela está".

Por sua vez, El Salvador, sob o regime de exceção, restringe totalmente o acesso às informações relativas às pessoas privadas de liberdade.

"A ausência de comunicação é uma característica do regime de exceção, que consiste em isolar completamente as pessoas privadas de liberdade do mundo exterior, impedindo qualquer contato com seus advogados ou familiares. Paralelamente, ocultam-se as informações relativas ao local de sua detenção. Isso tem como consequência colocar essas pessoas fora da proteção da lei, o que corresponde à definição técnica de desaparecimento forçado", explica a especialista.

Eles não são criminosos

"Ele estava colocando suas ferramentas de trabalho no veículo quando eles chegaram. O estranho é que não usavam o uniforme do ICE, mas estavam à paisana. Foi por isso que ele não percebeu. Pediram seus documentos e, como ele não tinha nenhum, foi preso e levado. Foi em 3 de março de 2025, em Irvington, Nova Jersey", conta Karen.

Depois de sua prisão, seu irmão Kevin foi detido no centro de detenção de Hidalgo, no Texas, destinado a migrantes em situação irregular.

Em 2015, a polícia salvadorenha acusou injustamente Kevin de pertencer a gangues. Depois de provar sua inocência, ele foi libertado. Dois anos mais tarde, membros de gangues cometeram um crime no bairro onde ele vivia com sua família, e a polícia voltou a persegui-lo.

"Eles o maltrataram aqui, na frente da minha mãe. Levaram-no ao cemitério do município e o torturaram para que confessasse. Ele ficou detido apenas oito dias, porque ficou provado que não tinha nenhuma relação com os fatos. Então pensou que o melhor seria sair daqui e foi trabalhar nos Estados Unidos. Pediu asilo, mas o pedido foi negado e ele teve de voltar", conta Karen.

Em março de 2022, o presidente Nayib Bukele decretou estado de exceção em El Salvador para combater as gangues. A medida excepcional permite realizar prisões sem mandado. Em quatro anos, mais de 92 mil pessoas foram detidas. Organizações humanitárias denunciam que muitos inocentes estão atrás das grades.

Karen conta que, quando o estado de exceção foi instaurado, os policiais voltaram a procurar seu irmão.

"Foi aí que realmente ficamos com medo, porque eles haviam batido no meu tio e o ameaçado, arrombado portas e tudo mais."

Para escapar dessa perseguição, Kevin decidiu emigrar pela segunda vez para os Estados Unidos. Em El Paso, na fronteira entre México e Estados Unidos, as autoridades americanas de imigração o prenderam e o expulsaram para o México. Depois, conseguiu atravessar a fronteira, mas não pediu asilo porque já havia sido expulso duas vezes. Começou a trabalhar na construção civil.

Em 13 de março de 2025, o ICE prendeu Kevin e o expulsou para El Salvador. Nem seus advogados nem seus familiares conseguiram saber onde ele estava.

"Eles não deveriam tê-lo enviado para El Salvador, levando em conta seu histórico", afirma Kelvi Zambrano, advogado nos Estados Unidos que representa a família de Kevin, referindo-se às tentativas anteriores da polícia salvadorenha de incriminá-lo como membro de uma gangue.

Famílias pedem respostas

O advogado lembra que o princípio da não devolução é uma norma fundamental do direito internacional, inscrita na Convenção de Genebra, que proíbe um Estado de expulsar, devolver ou extraditar uma pessoa para um território onde sua vida, liberdade ou direitos fundamentais possam estar ameaçados.

"O Comitê contra a Tortura, em sua interpretação do artigo 3º da Convenção contra a Tortura, assinada pelos Estados Unidos, estabelece que uma pessoa não pode ser enviada de volta para um país onde sua integridade física e sua vida estejam ameaçadas", explica Kelvi Zambrano.

A família de Kevin está convencida de que ele foi preso ao chegar nos voos militares de expulsos em 2025, devido à intenção dos governos de El Salvador e dos Estados Unidos de provar que se tratava de perigosos membros de gangues.

"As pessoas que tinham antecedentes criminais em El Salvador foram presas novamente, apesar de, no caso dele, sua inocência ter sido provada. Ele nem sequer tem uma tatuagem de membro de gangue no corpo", insiste Karen.

Para Juanita Goebertus, da HRW, "o discurso do governo salvadorenho busca justificar a detenção dessas pessoas expulsas, afirmando que estão envolvidas com o crime organizado. No entanto, as informações de que dispomos, provenientes do ICE, indicam que a grande maioria delas não tinha antecedentes criminais nem vínculo com esses grupos criminosos".

Juanita Goebertus destaca que, embora os indicadores de segurança em El Salvador tenham melhorado sob o regime de exceção, também foi constatado um aumento das prisões arbitrárias. A HRW registrou centenas de detenções de pessoas que não tinham qualquer vínculo com gangues. A organização também dispõe de um relatório baseado em depoimentos de policiais que revelam como eles recebiam ordens para atingir determinadas cotas de prisões, independentemente de os suspeitos pertencerem ou não a esses grupos. (1)

"Ele não fugiu do país, mas saiu para ajudar o filho devido à difícil situação econômica aqui em El Salvador. Os documentos da promotoria mostram que ele não cometeu nenhum delito. Em todas as instituições, nos perguntam se ele tem tatuagens. Ele não tem", afirma Glenda.

Foi em 2003 que seu irmão Elmer emigrou pela primeira vez para os Estados Unidos. Entrou legalmente pela fronteira e obteve o status de proteção temporária (TPS), um mecanismo migratório por meio do qual os Estados Unidos acolhem pessoas que fogem de situações de violência extrema, conflitos armados ou desastres naturais.

Os salvadorenhos foram os primeiros a se beneficiar desse programa humanitário, em 2001, após dois terremotos devastadores e uma guerra civil que mergulhou o país na pobreza e obrigou milhares de pessoas a partir para o exílio.

Mas, um ano depois de obter o TPS, Elmer foi condenado a oito anos de prisão nos Estados Unidos por agressão coletiva e homicídio involuntário.

"Na época, ele tinha 17 anos. Cumpriu a pena em 2011, foi libertado e expulso. Voltou ao país. Não enfrentou nenhum problema. Fomos buscá-lo no aeroporto e tudo correu bem", explica Glenda.

Em 2023, Elmer emigrou novamente para os Estados Unidos, mas as autoridades de imigração o prenderam porque estava em situação irregular. Depois de 26 meses de detenção junto com outros imigrantes sem documentos, foi expulso dos Estados Unidos para El Salvador a bordo do voo militar de 31 de março de 2025.

Um ano e uma semana depois, seguindo o conselho da família de um dos 11 detidos identificados, que havia conseguido descobrir que seu familiar estava ali, Glenda foi ao Centro de Execução de Penas e Reinserção de Santa Ana.

"No começo, me garantiram que ele não estava lá, mas insisti. Fizeram-me esperar e depois disseram: 'Sim, ele está aqui, você pode entregar um pacote para ele'. Movida pelo desespero, corri para comprar tudo o que pude. Mas não recebemos nenhuma ligação nem uma única foto para saber se ele está bem ou se está recebendo os pacotes de mantimentos solicitados pela prisão."

Em um relatório enviado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), datado de 9 de junho de 2026, e em resposta ao pedido de medidas cautelares, o Estado de El Salvador reconheceu que Elmer Concepción Romero Yanes estava detido incomunicável na prisão de Santa Ana.

"Queremos uma resposta clara do Estado, porque os advogados nos informaram que, em El Salvador, uma pessoa não pode ser presa nem condenada por um delito cometido nos Estados Unidos e pelo qual já cumpriu sua pena", insiste Glenda.

"O Estado de El Salvador indicou onde ele está detido, mas não apresenta nenhuma fundamentação jurídica que justifique sua privação de liberdade. Estamos, portanto, diante de uma detenção arbitrária", afirma Kelvi Zambrano, advogado que representa nove famílias — entre elas a de Elmer — das 11 pessoas identificadas entre os 36 expulsos.

Um ano e meio se passou desde a expulsão desses salvadorenhos e as famílias continuam sem notícias deles. Seus advogados não tiveram acesso aos processos e tampouco foram informados das acusações utilizadas para justificar seu encarceramento. Algumas famílias sequer receberam confirmação da prisão onde seu familiar se encontra.

O jurista destaca que, segundo as normas internacionais, o isolamento de um detido é proibido e só se justifica para preservar seus direitos fundamentais — como sua integridade física — ou para proteger o processo judicial. Nesse sentido, o juiz deve fundamentar a decisão de aplicar ou não essa medida. No caso em questão, porém, sequer existe um processo judicial contra as pessoas expulsas que estão detidas.

Segundo as normas internacionais da Corte Interamericana de Direitos Humanos e da ONU, quando a pessoa é encontrada ou se conhece o local onde está, o crime de desaparecimento forçado não desaparece nem se extingue, mas sua prática cessa. Trata-se de um crime contra a humanidade que não prescreve.

"Apresentamos uma denúncia contra o Estado de El Salvador em nome dessas pessoas, para que o Estado salvadorenho seja condenado por desaparecimento forçado", declara Kelvi Zambrano.

Sobre a responsabilidade dos Estados Unidos, ele explica que se trata de um padrão recorrente de desaparecimentos forçados: "O crime começa nos Estados Unidos e continua em El Salvador."

No âmbito desta série de reportagens, a Radio France Internationale solicitou ao governo de El Salvador autorização para acessar o centro de acolhimento de migrantes, a prisão do Cecot e a prisão de Santa Ana, além de entrevistas com o vice-presidente e o ministro da Segurança do país. O Estado salvadorenho não respondeu ao pedido. O Ministério das Relações Exteriores de El Salvador também não respondeu às perguntas enviadas pelo nosso consórcio.

* Em 18 de maio de 2025, Ruth López, diretora da unidade anticorrupção da Cristosal, principal organização humanitária de El Salvador — que realizou investigações sobre o presidente Bukele — foi presa e acusada de enriquecimento ilícito pela promotoria ligada ao chefe do Estado salvadorenho. Ruth López permaneceu a maior parte do tempo incomunicável e sem acesso ao seu processo, que foi declarado sigiloso em virtude do estado de emergência.

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