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Oriente Médio

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Iraque ganha novo currículo escolar que não cultua Hussein

16 jul 2010 - 16h58
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Durante a violência sectária do país, May Abul Wahab viu, com seus próprios olhos, corpos espalhados pelo pátio da escola onde agora é diretora. No entanto, ela é proibida de ensinar aos seus alunos sobre a invasão americana ao Iraque ou a derrubada do governo de Saddam Hussein.

"Nenhum deles existe", disse Wahab, diretora de uma escola de ensino médio em Bagdá, onde ela mesma já estudou. Mas, como muitas pessoas aqui, ela não está com pressa de ver o reconhecimento acadêmico de Hussein - ele ficou no poder por 35 anos. Se ele for adicionado à história daqui a 35 anos, será cedo demais", disse. "Não queremos ouvir sobre ele".

Por mais de três décadas de ditadura de Saddam, a educação, em especial o estudo de história, foi um instrumento de doutrinação ao Partido Baath e um mecanismo para promover o culto a Hussein. Após sete anos de guerra, a tarefa de resgatar a história do Iraque nas escolas tem sido dificultada pela política e pelo temor das divergências sectárias, que aqui frequentemente acabam em sangue.

"Estamos tentando encontrar uma solução para os temas delicados", disse Khazi Mutlaq, autoridade governamental responsável por reestruturar o currículo escolar do Iraque para que se enquadre em uma sociedade democrática. "Por exemplo, os eventos de 2003 e a invasão", disse. "Alguns iraquianos a chamam de Operação de Liberdade. Alguns chamam de ocupação. Então, não abordaremos esse assunto".

Em 2008, o governo iraquiano começou a rever o currículo escolar sob a orientação da Unesco, um processo que continuará até 2012. "O principal problema é com os sectários", disse Mohammed Al-Jawahri, diretor-adjunto de currículos do Ministério da Educação. "Cada grupo está tentando remover aquilo com o que não concorda. Tentaremos resolver esse problema nos próximos anos".

Al-Jawahri estava se referindo ao currículo islâmico, uma mistura de história e religião, que é ensinada nas escolas públicas e também está passando por uma revisão. "Por exemplo, rezar", explicou. "Os xiitas rezam com a palma das mãos unidas. Os sunitas cruzam os braços. Então, qual estilo devemos ensinar", pergunta.

Uma resposta óbvia - ensinar os dois - não é uma solução fácil num país atormentado por seu passado recente de conflitos sectários. "Até agora, nossa sociedade não teve uma educação que aceita este tipo de divergência de opinião", argumentou. Em um dos livros de história atualmente usado no ensino médio, a queda de Hussein - referências são feitas apenas ao "antigo regime" ou "ditador" - é abordada superficialmente.

O texto compara a repressão política, protesto e descontentamento do povo iraquiano antes do golpe de 1958 que derrubou a monarquia hachemita com a reação do público aos crimes de Hussein, do uso de armas químicas contra os curdos em 1988 à repressão violenta da revolução xiita em 1991, após a Guerra do Golfo Pérsico.

"As cidades iraquianas testemunharam manifestações, instabilidade e rebelião contra as autoridades no Iraque", segundo o texto, descrevendo as condições antes do golpe de 1958. Mais adiante: "Isso foi exatamente o que aconteceu no Iraque durante o governo do ditador". O livro não menciona a invasão dos Estados Unidos.

Quando a guerra é abordada em sala de aula, alguns professores mudam de assunto rapidamente. Mas outros veem uma necessidade de incentivar o debate, mesmo que passe dos limites do que podem ensinar. "Às vezes precisamos falar sobre isso", disse Wasan Mahmod, professora da Al Ahrar, uma escola de ensino fundamental para garotas em Badgá. "Quando eu falo sobre a invasão americana, falo em ocupação, não libertação".

Hutham Hussein, que ensina história europeia moderna, disse: "Onde há discussão sobre colonização, eu menciono a invasão americana". "Falamos sobre a colonização francesa, a britânica", disse ela. "Por que não falar sobre a colonização americana"?

A história cultural do Iraque abrange milhares de anos, e a sua terra constitui a maior parte da antiga Mesopotâmia. Mas a sua memória histórica tem sido ocultada pelo caos. "Eliminaram tudo sobre a era de Saddam nos livros de História, mas o resultado foi que os livros ficaram piores do que antes", disse Mohammed Kamil, presidente do departamento de história na Universidade Mustansiriya, em Badgá.

Até mesmo na universidade, disse Kamil, nem Hussein, nem o partido Baath fazem parte da história. Embora a história do Iraque do século 20, que foi ensinada sob o poder Hussein, possa ter sido mera propaganda - a foto do ditador enfeitava todos os livros -, ela era bem mais profunda do que a do novo currículo, alegam alguns professores.

Em nome da sensibilidade e multiculturalismo - e para, propositalmente, ficar longe da marca do nacionalismo árabe ensinado anteriormente -, a história antiga foi condensada e novos tópicos foram adicionados. Os islamistas preferem, na maioria das vezes, enfatizar a história da região depois do Profeta Maomé, no século XVII.

"Costumávamos estudar a civilização antiga do Iraque", disse Hutham Hussein, a professora de história. "Eu quero falar sobre a Mesopotâmia, o berço da civilização, sobre o Egito e a Síria. Agora eles adicionaram o budismo, o hinduísmo. O que isso tem a ver com a gente"? Ela mostrou com os dedos indicador e polegar quantos centímetros de grossura tinha o livro de História antiga.

Um novo livro, cujo texto aborda desde o cerco de Bagdá pelos mongóis em 1258 até a atualidade, tem 96 páginas. Sob a ditadura de Saddam Hussein, a história foi submissa às leis do estado. Na democracia jovem do Iraque, parece que a política está sendo contemplada de uma forma diferente nos livros.

Mutlaq, o oficial responsável pela democratização dos planos de aula do Iraque, disse que o objetivo do Ministério da Educação é "fazer do currículo de história um instrumento para unificar o povo iraquiano".

The New York Times
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