Guerra na Síria: leia relatos exclusivos de rebeldes feridos em batalha
A reportagem do Terra visitou alguns hospitais para conversar com os rebeldes que há mais de dois anos e meio tentam derrubar o regime
Quem chega pela primeira vez na movimentada e tensa cidade de Trípoli, a segunda maior cidade libanesa, estranha a calma excessiva em um subúrbio residencial. "Nem parece que a cidade é palco de uma guerra paralela ao conflito na Síria", enfatizou o nosso motorista Ibrahim al Hajj, se referindo aos constantes combates entre milícias sunitas anti-Assad e os alauítas, alinhados com o regime em Damasco, além dos recentes atentados à bomba que deixaram vários mortos e centenas de feridos.
Mas em meio a prédios residenciais e campos intermináveis de oliveiras e plantações agrícolas, estradas estreitas, com pouco ou nenhum asfalto, e praticamente desertas, levam a hospitais que tratam rebeldes sírios e alguns libaneses.
Segundo a mídia libanesa, a maioria desses hospitais foi construída com dinheiro doado por países do Golfo, como o Catar e a Arábia Saudita, países que apoiam o Exército Livre da Síria com armamentos e munição.
Em um hospital, somos recebidos pelo médico Mohamed Mahmoud Z, 38 anos, responsável pela administração do prédio. A tensão é visível, com sírios e libaneses nervosos e desconfiados com a presença de estrangeiros. “Eles não querem ser filmados ou fotografados. Mas concordam em falar”, explicou Mohamed, que pediu para que os sobrenomes dele e dos pacientes fossem omitidos.
Paciente duas vezes
Logo na entrada, militantes tomam sol e jogam gamão sentados em cadeiras de plástico ou bancos improvisados. Outros conversam sobre política e fumam cigarros. Clínicas e hospitais em Trípoli estão entre os poucos lugares no Líbano em que rebeldes sírios se sentem mais “seguros” e longe do alcance de informantes do Hezbollah e do regime de Damasco.
Ziad Abou M., 29 anos, é natural de Qusayr, a cidade estratégica que foi palco de intensos combates entre rebeldes do Exército Livre da Síria (ELS) e tropas do governo apoiadas por militantes do grupo militante libanês Hezbollah.
O jovem participava da batalha pela cidade junto de amigos como parte de uma unidade local do ELS quando foi alvejado na cabeça por um franco-atirador. Embora o ferimento tenha deixado a fala um pouco afetada, as sequelas foram mínimas, segundo os médicos.
“Estávamos entrincheirados sob bombardeios de morteiros. Recebemos a ordem de nos movermos para outro local mais estratégico. Foi quando levei um tiro de um franco-atirador posicionado em um prédio mais alto”, explicou Ziad ao Terra.
A ofensiva do exército sírio em Qusayr, entre maio e junho deste ano, culminou com uma vitória das forças militares do governo e do Hezbollah, levando a uma retirada dos rebeldes da cidade que fica a poucos quilômetros da fronteira com o Líbano. A batalha deixou centenas de mortos e feridos entre os rebeldes, enquanto tropas governamentais e do Hezbollah sofreram dezenas de baixas.
Ziad contou que primeiro foi levado a um hospital na capital Beirute, mas após o período de recuperação, militantes do Hezbollah teriam entrado no prédio à procura de suspeitos de pertencerem ao ELS.
“Eles me tiraram à força do hospital e me levaram de volta à fronteira, junto com outros sírios. Fomos então trocados por prisioneiros do Hezbollah que estavam nas mãos da oposição síria”, lembrou Ziad.
Sem condições de receber assistência médica adequada em seu país em guerra civil, Ziad retornou ao Líbano levado por uma ONG. Desta vez, seu destino era Trípoli, de maioria sunita e mais alinhada com os rebeldes sírios. No hospital, Ziad se juntou a outros militantes feridos e com quem divide seu tempo entre ler jornais, assistir à televisão e conversar sobre os acontecimentos em seu país.
O sírio não quis revelar sua vida antes da guerra, mas disse que perdeu um suficiente número de amigos e parentes que o levou a virar militante para derrubar Assad e o regime. “Quero voltar à luta, mas os médicos me disseram que dificilmente teria condições físicas para isso”, desabafou com ar de frustração.
Ódio e revolta
No hospital, a infraestrutura é precária, com equipamentos médicos suficientes apenas para atender casos menos críticos. “Não temos equipamentos nem profissionais para operações cirúrgicas mais complicadas. Atendemos casos de amputações de membros, ferimentos menos graves ou de armas de fogo”, explicou outro médico, Mohamed Y, 39 anos.
Pacientes entre 25 e 50 anos aparecem nos corredores com ares levemente hostis e desconfiados, alguns em cadeiras de rodas, outros em muletas. Vários tiveram braços ou pernas amputados por estilhaços de morteiros ou artilharia em batalhas na Síria.
Hisham M. Z., 26 anos, natural de Homs, perdeu a perna esquerda durante um bombardeio do exército sírio contra posições rebeldes na cidade. “O bombardeio era tão intenso e durou mais de 20 minutos, sem parar. Quando saí de um prédio para chegar a outro mais seguro, fui arremessado pela força da explosão de um morteiro”, explicou ele.
Em um hospital improvisado em um bairro nas mãos dos rebeldes em Homs, os médicos optaram por amputar sua perna. “Fiquei deprimido e decepcionado porque não poderia mais lutar para derrubar o regime. E também fiquei com ódio e revolta, porque só pensava que o que aconteceu comigo era culpa do Assad”.
Após dias em Homs, Hisham foi trazido pela fronteira de forma ilegal para o Líbano, já que os grupos de oposição sírios não confiam no governo libanês.
“Passo os dias agora lendo jornal, converso com companheiros que também vieram de Homs. Não sei o que farei no futuro, mas tentarei ainda participar da revolução de alguma forma”, contou ele ao Terra.
Irmãos
A guerra civil na Síria já deixou mais de 100 mil mortos em seus mais de dois anos e meio de duração. Se de um lado está o governo, do outro está uma oposição dividida em diversos grupos rebeldes com diferentes ideologias.
Embora o ELS seja relativamente secular, alguns grupos afiliados a ele são de ideologia mais islâmica conservadora, outros são até alinhados com a Al-Qaeda.
O presidente Assad é alauíta, uma ramificação dos xiitas. De um lado, países sunitas do Golfo apoiam os rebeldes enquanto o Irã e os xiitas do Hezbollah apoiam o regime, o que elevou o tom sectário do conflito para uma batalha entre sunitas e xiitas. Além disso, muitos estrangeiros sunitas se juntaram aos sírios para combater o governo, incluindo libaneses, identificados com seus “irmãos” no país vizinho.
O libanês Hashem B., 34 anos, morador de Trípoli, se untou aos rebeldes no final de 2012 para lutar em Homs no grupo islamita Frente Al-Nusra. Durante nove meses, ele participou de inúmeras batalhas contra uma força muito “melhor equipada militarmente”.
“Compensávamos a falta de equipamentos adequados com mais vontade e coração. Eu e outros estrangeiros lutamos por um ideal, lutamos para ajudar nossos irmãos sírios a se livrarem deste regime cruel”, enfatizou o libanês.
Durante uma operação para retomar um bairro capturado pelas forças de segurança do governo, o grupo de Hashem sofreu uma emboscada. “Nosso grupo era de 30 combatentes, somente 14 sobreviveram, incluindo eu”, contou.
Hashem levou três tiros, dois na barriga e um na perna, ferimentos que felizmente puderam ser tratados no hospital improvisado em Homs. “Como libanês, poderia ir a um hospital bem mais equipado para minha recuperação, mas prefiro ficar em um hospital discreto junto com os meus irmãos sírios, onde não sofrerei questionamentos”.
Segundo ele, sua família não sabe de suas atividades na Síria, pois não aprovaria. “Eles simpatizam obviamente com os rebeldes, mas não ficaria feliz em saber que eu estive lutando na guerra por lá. Justifiquei minha ausência dizendo que fui à Turquia fazer trabalho voluntário para ajudar refugiados sírios”, revelou.
Hashem ainda explicou que muitos jovens libaneses da região lutam na Síria, e muitos outros em Trípoli e arredores querem se juntar aos rebeldes. “É o nosso dever como muçulmanos, como irmãos do povo sírio”.
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