Oposição declara início da campanha em Israel após votação que ameaça mandato de Netanyahu
Benjamin Netanyahu enfrenta nova crise política após a Knesset aprovar, em votação preliminar, um projeto que pode dissolver o Parlamento e antecipar as eleições em Israel. O premiê, pressionado por aliados ultraortodoxos e acusado de não cumprir a promessa de isentar estudantes religiosos do serviço militar, tenta manter unida sua coalizão. A oposição afirma que a campanha já começou e vê no impasse uma chance de encerrar o longo ciclo de Netanyahu no poder.
O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu enfrenta uma das fases mais delicadas de seu longo percurso político após a Knesset aprovar, em votação preliminar, um projeto de lei que pode levar à dissolução do Parlamento e à convocação de eleições antecipadas.
O texto, apresentado por deputados da própria coalizão governista, recebeu apoio de 110 dos 120 parlamentares e ainda precisa passar por uma comissão e por três novas votações. Se aprovado, o país será obrigado a realizar eleições em até 90 dias, antecipando o pleito atualmente marcado para 27 de outubro.
A crise expõe a fragilidade da coalizão liderada por Netanyahu, sustentada por partidos ultraortodoxos que exigem a aprovação de uma lei isentando estudantes de yeshivot - escolas tradicionais de estudos judaicos - do serviço militar obrigatório. A promessa, central para esses aliados, não avançou, provocando o impasse que abriu caminho para a ofensiva parlamentar.
A oposição tentou aproveitar o momento para propor sua própria dissolução da Knesset, mas o bloco governista se antecipou e apresentou um projeto próprio, numa tentativa de controlar o calendário eleitoral.
Para analistas israelenses, Netanyahu se vê obrigado a equilibrar interesses contraditórios. A cientista política Myriam Shermer afirma que o premiê tenta aprovar uma lei "profundamente impopular" entre parte de sua base, mas indispensável para manter a coalizão unida. Ela observa que a dissolução pode ser revertida caso a isenção militar seja aprovada antes. Ao mesmo tempo, qualquer escalada militar envolvendo o Irã poderia suspender o processo legislativo e alterar novamente o cenário político.
A instabilidade ocorre num momento em que Netanyahu, aos 76 anos, busca um novo mandato, apesar de enfrentar um processo por corrupção que se arrasta há anos e de depender de uma possível graça presidencial. Ele é o premiê que mais tempo governou Israel -mais de 18 anos somados desde 1996 -, e tenta preservar sua posição mesmo sob forte desgaste. Pesquisas recentes mostram seu partido, o Likud, ainda competitivo, mas sem garantia de formar governo diante da fragmentação do eleitorado.
Netanyahu também carrega o peso político do ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, considerado por grande parte da população como um fracasso de segurança nacional. Segundo o cientista político Gideon Rahat, da Universidade Hebraica de Jerusalém, o premiê quer evitar eleições próximas ao aniversário do ataque, quando o debate público inevitavelmente se concentraria em sua responsabilidade. Por isso, prefere antecipar o pleito para antes de outubro.
Oposição vê oportunidade
A oposição israelense reagiu imediatamente ao avanço do projeto de dissolução. O líder oposicionista Yair Lapid afirmou que "a campanha eleitoral começou hoje" e descreveu a disputa como uma escolha entre "esperança e medo", "integridade e corrupção", "responsabilidade e fuga". O tom indica que a oposição pretende transformar a eleição num plebiscito sobre a permanência de Netanyahu no poder.
Naftali Bennett, ex-primeiro-ministro e hoje colíder do novo partido Beyahad, foi ainda mais direto ao declarar: "É o fim, você pode soltar as rédeas", dirigindo-se a Netanyahu.
O partido de Bennett aparece tecnicamente empatado com o Likud em algumas pesquisas, mas nenhum dos dois blocos parece capaz de formar maioria sozinho, segundo levantamento divulgado pela emissora pública KAN em meados de maio.
A fragmentação do cenário político israelense, marcada por partidos pequenos e alianças instáveis, torna qualquer eleição um exercício complexo de negociação. Para o leitor brasileiro, trata-se de um sistema parlamentarista em que o governo só se forma com maioria absoluta na Knesset, o que frequentemente obriga líderes a compor coalizões amplas e heterogêneas. Netanyahu, mestre nesse tipo de engenharia política, agora enfrenta o risco de ver sua própria base ruir.
A crise atual também reflete tensões profundas entre setores religiosos e seculares da sociedade israelense. A isenção militar para estudantes ultraortodoxos é um tema explosivo há décadas, mas ganhou nova dimensão após a guerra contra o Hamas, quando milhares de reservistas foram convocados. Para muitos israelenses, manter parte da população fora do serviço militar é injustificável num momento de conflito prolongado.
A possibilidade de eleições antecipadas, portanto, não é apenas um cálculo político. Trata-se também de um reflexo de disputas estruturais sobre identidade nacional, dever cívico e o papel da religião no Estado. Netanyahu tenta navegar entre essas pressões enquanto enfrenta desgaste pessoal, crise de coalizão e um ambiente regional volátil.
Com AFP
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