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Ofuscado pela guerra no Oriente Médio, conflito em Gaza mantém população sob cenário de medo e escassez

Quase um mês após o início da guerra lançada por Israel e pelos Estados Unidos contra o Irã, a catástrofe na Faixa de Gaza, longe dos holofotes da comunidade internacional, continua mantendo a população palestina sob um cenário de medo e escassez.

25 mar 2026 - 13h34
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Anne Bernas, enviada especial da RFI a Tel Aviv

A mesquita de Al Talbani, destruída pelo exército de Israel e localizada em Jan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, em 13 de março de 2026.
A mesquita de Al Talbani, destruída pelo exército de Israel e localizada em Jan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, em 13 de março de 2026.
Foto: © Bashar Taleb / AFP / RFI

Enquanto o novo conflito, iniciado em 28 de fevereiro contra Teerã e o Hezbollah, tem dominado as manchetes nas últimas semanas, aquele que assola o enclave palestino há dois anos e meio continua silenciosamente.

"Gaza sofre bombardeios regulares e contínuos desde 8 de outubro de 2023, com uma intensidade que varia de acordo com a sequência de eventos. Para os moradores, não há cessar-fogo, apenas uma variação na intensidade dos bombardeios", explica Thomas Vescovi, doutorando em estudos políticos na Universidade Livre de Bruxelas, e cofundador do conselho editorial do Yaani.fr.

Diante do foco maior na recente guerra no Oriente Médio, alguns ativistas tentam lembrar que o conflito no enclave continua assolando a população.

No último sábado (21), em Tel Aviv, capital israelense, centenas de pessoas se reuniram na famosa Praça Habima para protestar contra a guerra travada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Mas em alguns cartazes erguidos por manifestantes com as mãos pintadas de vermelho, slogans serviam como um lembrete de que outra tragédia se desenrolava na Palestina: "Vejam, vejam, vejam, o genocídio em Gaza continua".

Um cessar-fogo frágil

Apesar de um cessar-fogo ter sido formalmente estabelecido em 10 de outubro de 2025, o exército israelense, que permanece em grande parte de Gaza, violou o acordo centenas de vezes, com bombardeios e incursões terrestres, nos quais pelo menos 677 palestinos foram mortos. 

"Em meados de março, já tínhamos tantas vítimas, feridas ou mortas, quanto em 2025. Isso diz muito sobre a violência da situação", alerta Jean-François Corty, presidente da Médicos do Mundo.

Somente no domingo (22), um ataque de drone israelense matou pelo menos três pessoas e feriu outras oito no campo de refugiados de Nuseirat, na região central da Faixa de Gaza.

No início daquele mesmo dia, fontes médicas palestinas relataram que uma pessoa havia sido morta e várias outras feridas em uma ofensiva perto da Ponte Sheikh Radwan, na Cidade de Gaza. O porta-voz do exército de Israel em árabe, Avichay Adraee, declarou na rede social X que a vítima estava "preparando planos para realizar ataques terroristas em território israelense".

Enquanto as ofensivas continuam, a catástrofe humanitária também persiste. Esse cenário é ainda mais grave diante das restrições impostas a inúmeras ONGs, que correm o risco de serem banidas do território, aumentando os temores do pior para a população.

Cerca de 30 dessas organizações, incluindo Médicos Sem Fronteiras (MSF) e Oxfam, não receberam permissão para trabalhar no enclave palestino. Outras 19 entraram com um recurso na Suprema Corte de Israel no início deste ano. Em 24 de março, os juízes decidiram a favor do governo israelense e ofereceram às instituições mais um mês para concluir os novos procedimentos de registro em troca da retirada do recurso. As ONGs argumentam que a exigência israelense expõe seus funcionários a represálias e viola tanto o direito internacional quanto o princípio da neutralidade.

Mais de 2 milhões de palestinos necessitados

As restrições às ONGs contrastam com a precariedade que assola a população do enclave. No final de fevereiro de 2026, mais de dois milhões de palestinos na Faixa de Gaza precisavam de ajuda humanitária. Dezenas de milhares deles ainda viviam sob lonas plásticas ou em tendas, um pesadelo agravado pela chuva, tempestades e nevascas, como vinha acontecendo nas últimas semanas.

"A situação humanitária continua terrível. Não creio que possa ser pior ou menos grave, dependendo do nível de militarização do conflito no Irã. Hoje, ainda estamos diante de critérios que podem indicar um genocídio em andamento", lamenta o presidente da organização Médicos do Mundo.

Desde o primeiro dia do ataque israelense-americano ao Irã, Tel Aviv isolou completamente a Faixa de Gaza. Apenas a passagem de Kerem Shalom foi parcialmente reaberta para a circulação de certos produtos. Quanto à passagem de Rafah, ela foi reaberta em 19 de março.

Essa única rota de saída para o mundo exterior — sem passar por Israel — para os palestinos no enclave foi reaberta em ambos os sentidos, porém apenas para permitir que um número limitado de pessoas saia para evacuação médica, bem como o retorno de um número equivalente de pessoas a Gaza.

Restrições e obstáculos persistem

Cerca de 18,5 mil pessoas doentes na Faixa de Gaza ainda aguardam evacuação, incluindo 4 mil crianças. No território devastado por mais de dois anos de bombardeios, apenas cerca de 40% das instalações de saúde estão operacionais, e a maioria delas funciona apenas parcialmente.

"Ainda estamos em um contexto de pressão e insegurança alimentar para 1,5 milhão de pessoas", alerta Jean-François Corty, presidente da organização Médicos do Mundo.

"Embora mais alimentos estejam chegando e os preços tenham caído, dependendo do dia ou da semana, a falta de dinheiro, entre outros fatores, significa que o acesso a alimentos continua difícil. A estimativa de 100 mil crianças desnutridas em abril permanece precisa. O número de caminhões que cruzam a fronteira, em particular, continua lamentavelmente insuficiente. Estávamos com 200 caminhões por dia no início de 2026."

Para justificar o fechamento das passagens e, consequentemente, a redução da entrada de ajuda, o que está causando a disparada dos preços, Israel alega razões de segurança.

Hamas está fortalecendo seu domínio?

A pergunta que surge no momento é: a guerra travada contra o Irã está favorecendo o Hamas na Faixa de Gaza? Segundo a imprensa israelense, tanto de esquerda quanto de direita, o movimento islâmico palestino está aproveitando a situação para consolidar seu poder.

"Acreditar que o Hamas estava perdido e acabado em Gaza por causa da invasão israelense era, na minha opinião, uma análise enganosa, porque não levava em conta a realidade de sua presença na sociedade e sua representação política entre os palestinos", explica o analista político Thomas Vescovi.

O grupo islâmico, que controla a parte ocidental do enclave palestino, é responsável, entre outras coisas, pelo Ministério da Segurança Pública, e sua força policial controla as estradas e os mercados.

"O Hamas faz parte do cenário político da Faixa de Gaza e, nesse sentido, é importante entender que, na ausência de uma autoridade palestina soberana capaz de exercer poder, ele é atualmente a única entidade com capacidade para organizar a vida cotidiana e exercer alguma forma de soberania, tanto em termos de segurança quanto em termos da administração diária da população", detalha Vescovi.

"De fato, desde 8 de outubro de 2023, sempre que o exército israelense se retirou de uma área, unidades do Hamas — administrativas, de segurança ou militares — se reposicionaram para exercer sua autoridade sobre a região. No plano de paz do presidente dos EUA, Donald Trump, a desmilitarização do movimento palestino é uma das condições essenciais para a reconstrução do enclave."

Planos dos EUA para o enclave e outras propostas

Em meados de janeiro, Washington anunciou a implementação da segunda fase do plano de Trump, que incluía, entre outras coisas, a desmilitarização do Hamas, a reconstrução, a retirada gradual do exército israelense e a instalação de um governo tecnocrático. Até agora, nada aconteceu. Quanto ao plano apresentado pelos países da Liga Árabe há mais de um ano, parece ter sido esquecido.

"Tudo indica que, da perspectiva tanto dos países da região quanto dos países ocidentais envolvidos na questão do levante, apenas o plano de Trump permanece em discussão", analisa Thomas Vescovi.

"Isso é bastante preocupante, porque esse plano mina qualquer capacidade palestina de soberania sobre suas terras e seu direito à autodeterminação. Trump está conseguindo, por força das circunstâncias, descartar os outros planos e impor o seu. A fragilidade dos outros países nessa questão, ao não apresentarem uma alternativa, é preocupante", conclui.

Um futuro ainda incerto

"Apesar do cessar-fogo, Gaza ainda não está em paz", alertou o Subsecretário-Geral da ONU para Assuntos Políticos perante o Conselho de Segurança em 18 de fevereiro, dez dias antes dos ataques israelenses e americanos ao Irã.

Para Jean-François Corty, "os palestinos veem isso como uma renúncia da comunidade internacional. A situação permanece tão difícil quanto era após os chamados acordos de paz de outubro de 2025 — que têm valido apenas no papel, uma ficção, diante da situação no terreno".

As perspectivas para os palestinos, portanto, permanecem muito incertas. Na Cisjordânia, a atividade de assentamentos está se acelerando a um ritmo sem precedentes e, em Gaza, "ou você fica e se alinha ao plano colonial de Trump, ou você é morto; ou você vai embora, apesar de que partir continua sendo difícil. Essa situação aterradora é uma continuação do que temos visto nos últimos três anos, ou seja, o apagamento e o extermínio contínuos dos palestinos", conclui o presidente da organização Médicos do Mundo.

"Para o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, a situação atual é um momento histórico", afirma Thomas Vescovi. "Todas essas guerras, essas desestabilizações de Estados, que ocorreram ou estão ocorrendo nos últimos dois anos e meio, têm um objetivo para ele: impor a vassalagem dos Estados da região, forçá-los a se submeter aos interesses israelenses, no sentido de que não irão infringir as ambições e aspirações coloniais do Estado de Israel."

Durante a apresentação de seu relatório mais recente sobre a tortura sistemática perpetrada por Israel contra palestinos, na segunda-feira (23), a Relatora Especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, Francesca Albanese, alertou: "O desrespeito ao direito internacional não vai parar na Palestina. Já é evidente do Líbano ao Irã, nos Estados do Golfo e na Venezuela. Se nada for feito, se espalhará muito além". Israel parece estar aplicando ao Líbano o modelo de guerra de aniquilação e expulsão já testado na Faixa de Gaza.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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