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Morte de professor negro de Cambridge expõe debate sobre plágio, racismo e universidades de elite

Jason Arday, professor da Universidade de Cambridge e o mais jovem professor negro da história da instituição, morreu aos 41 anos na sexta-feira (14), em sua casa em Londres, poucos dias depois de renunciar ao cargo em meio a acusações de plágio que negava. A polícia informou que não havia indícios de circunstâncias suspeitas. A morte desencadeou novos questionamentos sobre as acusações, a atuação da universidade e uma possível campanha de assédio e racismo contra o acadêmico.

17 ago 2026 - 14h37
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A morte de Arday deu uma dimensão ainda mais dramática a uma controvérsia que começou a ganhar força em julho, quando vieram a público acusações de plágio envolvendo, entre outros trabalhos, sua tese de doutorado, obtida em 2015 na Universidade John Moores, de Liverpool. Arday rejeitou as acusações de plágio e de ter mentido sobre sua trajetória, mas renunciou ao cargo no início de agosto, afirmando que essa era "a única maneira" de encerrar um "período difícil" marcado por acusações incessantes.

Sua família denunciou uma "campanha de assédio contínuo" contra o acadêmico, enquanto a morte provocou novas cobranças sobre Cambridge e sobre a cobertura do caso. Os questionamentos passaram a envolver não apenas as possíveis irregularidades acadêmicas, mas também a forma como as acusações foram investigadas e divulgadas e o possível papel do racismo no caso de Arday.

Em março de 2023, aos 37 anos, Arday havia se tornado o professor negro mais jovem da história de Cambridge. A nomeação lhe deu visibilidade para além do meio acadêmico britânico. Segundo Robin Cohen, professor de Estudos do Desenvolvimento da Universidade de Oxford e especialista em diversidade, o corpo docente das universidades britânicas de elite continua sendo "dominado por homens brancos".

Jason Arday, ex-professor da Universidade de Cambridge, aparece nesta foto obtida nas redes sociais, divulgada em 9 de outubro de 2020. Cortesia do Royal Borough of Greenwich via YouTube.
Jason Arday, ex-professor da Universidade de Cambridge, aparece nesta foto obtida nas redes sociais, divulgada em 9 de outubro de 2020. Cortesia do Royal Borough of Greenwich via YouTube.
Foto: RFI

Direita conservadora americana

Para Cohen, a intensidade da campanha contra Arday foi influenciada pela direita conservadora americana e pelas chamadas "guerras culturais" que envolvem as universidades. A avaliação, porém, é contestada por críticos que atribuem parte da controvérsia à própria universidade.

O ex-ministro conservador britânico James Cleverly afirmou que o caso não teria chegado tão longe se os responsáveis pelas universidades tivessem realizado as verificações rigorosas exigidas para qualquer cargo acadêmico de alto nível. Ele reconheceu, entretanto, que a origem étnica de Arday "pode ter desempenhado um papel" no intenso escrutínio sobre seus trabalhos e sua trajetória.

Nascido em maio de 1985, em Londres, filho de pais ganeses, Arday relatou em sua autobiografia, "Great and Unfortunate Things", publicada nos Estados Unidos em 11 de agosto, que recebeu na infância diagnósticos de autismo e atraso global do desenvolvimento. Segundo seu relato, médicos haviam previsto que ele não seria capaz de viver de forma independente. Arday atribuía à mãe, enfermeira especializada em saúde mental e ativista antirracista, parte importante de sua evolução, especialmente pelo uso da música para estimular o desenvolvimento da linguagem.

Alguns aspectos de sua autobiografia também foram posteriormente questionados. Arday afirmou que só havia começado a falar aos 11 anos, mas antigos colegas disseram ao jornal The Guardian que ele já falava antes dessa idade.

Projeção internacional

Depois de se formar na área esportiva, Arday tornou-se professor de educação física e posteriormente obteve seu doutorado em Liverpool. Durante esse período, escreveu na parede de seu quarto uma ambição pessoal: "Algum dia trabalharei em Oxford ou Cambridge". Menos de dez anos depois, alcançou esse objetivo.

Cambridge o contratou e o apresentou como um pesquisador de destaque nas áreas de raça, desigualdade e educação. A instituição, que inicialmente o defendeu diante das acusações, anunciou posteriormente uma investigação sobre o caso. Arday deixou o cargo pouco depois.

A morte do acadêmico, que deixou dois filhos, provocou mobilização pública. Nesta segunda-feira (17), mais de 53 mil pessoas haviam apoiado uma petição do Good Law Project que pede uma investigação pública sobre o assédio sofrido por Arday. Uma campanha de arrecadação para ajudar a família com despesas do funeral e outros custos havia reunido mais de 150 mil libras, cerca de R$ 1,05 milhão.

Uma manifestação em memória de Arday também foi organizada por uma entidade de combate ao racismo nesta segunda-feira, em Londres.

O caso coloca Cambridge diante de questões que precisam ser examinadas separadamente: se houve irregularidades acadêmicas, se os procedimentos de verificação antes da contratação foram adequados, se a cobertura pública ultrapassou os limites de um escrutínio legítimo e se fatores raciais contribuíram para a intensidade da exposição. A investigação dessas questões será necessária para distinguir fatos comprovados de acusações e interpretações que ainda permanecem em disputa.

com AFP

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