Missão Artemis simboliza rivalidade na corrida à Lua entre EUA e China
O ponto culminante da missão espacial Artemis II é atingido nesta segunda-feira (6). Os quatro astronautas a bordo da nave Orion sobrevoam e dão a volta na Lua, algo que não ocorre há mais de 50 anos. O feito tecnológico também envia uma mensagem de caráter geopolítico por parte dos Estados Unidos.
Guillaume Naudin, da RFI em Paris
O objetivo de Washington é demonstrar que o país continua sendo a maior potência espacial do planeta, principalmente diante da China. A missão Artemis II mostra que os americanos são capazes de enviar seres humanos mais longe do que nunca, antes de voltar a colocar os pés no satélite natural da Terra dentro de alguns anos.
A mensagem é importante para Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos lançou o programa Artemis em 2017, durante seu primeiro mandato. Em seu discurso de posse do atual mandato, em janeiro de 2025, ele tratou Marte e outros astros do sistema solar como territórios de expansão da influência americana.
Trump apresentou a exploração e a conquista espacial como uma consequência lógica do destino dos Estados Unidos. Essa visão tem caráter religioso, segundo o qual a nação americana teria a missão divina de expandir a civilização inicialmente rumo ao Oeste. Em seguida, a partir do século XX, essa expansão seria pelo mundo inteiro e, hoje, por outros planetas.
Concorrência sistêmica
Os Estados Unidos não estão sozinhos em sua ambição de conquistar a Lua. Nunca estiveram. Nos anos 1960, no auge do programa Apollo, buscavam alcançar e superar a União Soviética. Atualmente, o principal concorrente dos Estados Unidos não é mais a Rússia, que concentrou seus esforços na conquista territorial de sua vizinhança imediata, especialmente na Ucrânia. O rival atual é a China, em mais uma demonstração da mudança no equilíbrio geopolítico e da concorrência sistêmica global entre os dois países.
A China se vangloria menos do que os Estados Unidos, mas seu programa espacial avança. Diferentemente da Nasa, a agência espacial chinesa conseguiu pousar com sucesso equipamentos na Lua, inclusive em seu lado oculto, que os astronautas da Artemis II poderão ver a olho nu. O país trouxe amostras de solo lunar de volta à Terra no fim de 2020. O programa lunar chinês segue em andamento, com o desenvolvimento da série de foguetes Longa Marcha para alcançar e enviar seres humanos à Lua por volta de 2030.
Setor privado versus Estado
A corrida é também contra o tempo. Na situação atual do programa Artemis II, a Nasa prevê enviar astronautas ao solo lunar em 2028, mas um atraso é bastante provável. Os módulos de pouso americanos não estão prontos. O primeiro sistema de alunissagem americano deverá ser testado antes da próxima missão Artemis, que permanecerá em órbita terrestre.
Os equipamentos estão sendo desenvolvidos pelas empresas privadas SpaceX, de Elon Musk, e Blue Origin, de Jeff Bezos. O diretor da Nasa, Jared Isaacman, bilionário do setor de fintechs, piloto de avião e próximo de Musk, representa as novas ambições espaciais dos Estados Unidos.
A corrida coloca frente a frente dois modelos econômicos emblemáticos de seus países. De um lado, o setor privado, que lidera a atividade espacial americana nos últimos anos, critica o Estado federal, mas se beneficia amplamente de recursos públicos. Do outro lado, o modelo chinês, muito mais estatal, hierárquico e acostumado a cumprir os prazos estabelecidos pela planificação central.
Sobrevoo da Lua
A missão Artemis, iniciada na quarta-feira da semana passada, entrou nesta segunda-feira na zona chamada pela Nasa de influência lunar. Nesta tarde será realizado o primeiro sobrevoo lunar desde 1972. A volta à Lua da nave Orion terá duração aproximada de sete horas, começando às 14h45 no horário da costa leste dos Estados Unidos, 15h45 em Brasília, e terminando por volta das 21h20, 22h20 em Brasília.
A Nasa transmitirá o sobrevoo ao vivo em seu site e também no YouTube, Amazon e Netflix. A transmissão contará com comentários dos astronautas a bordo e de especialistas do Centro de Controle da Missão em Houston, Texas. Devido à distância, a Nasa informou que a qualidade da transmissão poderá oscilar em alguns momentos.
Silêncio absoluto
Durante cerca de 40 minutos, quando os astronautas sobrevoarem o lado oculto da Lua, a comunicação com a Artemis II será perdida.
Pela primeira vez, uma mulher, Christina Koch, um homem negro, Victor Glover, e um não americano, o canadense Jeremy Hansen, poderão ver a Lua de tão perto. Até hoje, apenas os astronautas das missões Apollo haviam chegado ao satélite entre 1968 e 1972.
Pouco depois de iniciarem o sobrevoo, a tripulação da Artemis II estará na maior distância da Terra já alcançada por um ser humano, 406.772 quilômetros. O recorde anterior, de 400.000 quilômetros, era da Apollo 13.
Bola de basquete
As missões Apollo sobrevoaram a superfície lunar a cerca de 110 quilômetros de distância. A tripulação da Artemis II chegará a 6.500 quilômetros em seu ponto mais próximo. Essa distância permitirá que os astronautas vejam toda a superfície lunar, incluindo regiões próximas aos dois polos.
Eles verão o satélite mais ou menos do tamanho de uma bola de basquete com o braço estendido, explicou à AFP Noah Petro, diretor do Laboratório de Geologia Planetária da Nasa.
A espaçonave seguirá uma trajetória cuidadosamente planejada para dar a volta na Lua sem entrar em sua órbita. Ela passará pelo lado oculto. Os astronautas das missões Apollo também sobrevoaram essa região, mas estavam perto demais para vê-la por completo.
A tripulação atual poderá observar áreas que até agora só haviam sido registradas por sondas. Os astronautas treinaram durante anos para observar e descrever formações geológicas com a maior precisão possível. Com esses dados, os cientistas da Nasa esperam descobrir novos detalhes sobre a composição e a história da Lua.
Eclipse solar
Perto do fim do sobrevoo, os astronautas presenciarão um fenômeno raro, um eclipse solar. Durante cerca de 53 minutos, a espaçonave ficará perfeitamente alinhada com a Lua e o Sol, fazendo com que a estrela desapareça do campo de visão.
A tripulação poderá estudar a coroa solar, a camada mais externa da atmosfera do Sol, que ficará visível como um halo luminoso. Também ficarão atentos a possíveis flashes de luz provocados por meteoritos atingindo a superfície lunar.
Em determinado momento, os astronautas poderão ver a Terra desaparecer e reaparecer atrás da Lua. Eles terão a chance de recriar o famoso Nascer da Terra, registrado pela Apollo 8 em 1968.
Com AFP