Irã reage à decisão de europeus de relançar sanções e EUA evocam diálogo 'direto' com regime iraniano
Diante do impasse nas negociações sobre o programa nuclear iraniano, França, Reino Unido e Alemanha iniciaram o procedimento na ONU que abre um prazo de 30 dias para o restabelecimento de sanções internacionais contra Teerã. O Irã reagiu afirmando que a decisão "colocará seriamente em risco" sua cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Diante do impasse nas negociações sobre o programa nuclear iraniano, França, Reino Unido e Alemanha iniciaram o procedimento na ONU que abre um prazo de 30 dias para o restabelecimento de sanções internacionais contra Teerã. O Irã reagiu afirmando que a decisão "colocará seriamente em risco" sua cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
"Esta decisão dos três países europeus colocará seriamente em risco o processo em andamento de interação e cooperação entre o Irã e a agência, responsável por monitorar o programa nuclear iraniano", anunciou a diplomacia iraniana, em um comunicado oficial.
Apelidados de E3, Paris, Londres e Berlim "desejam notificar o Conselho de Segurança da ONU de que, com base em evidências factuais, o E3 considera que o Irã está em descumprimento significativo de seus compromissos" sob o acordo nuclear de 2015, conhecido pela sigla JCPOA, e "assim invocar o mecanismo conhecido como snapback". Em um mês, uma série de sanções suspensas há dez anos poderão ser retomadas, afirma a carta conjunta.
Em seu comunicado, o Ministério das Relações Exteriores iraniano promete uma resposta à decisão considerada "injustificada e ilegal" dos europeus.
Saída dos EUA enfraqueceu acordo
O JCPOA, que além dos três países europeus foi assinado pelo Irã, os Estados Unidos, a China e a Rússia, suspendeu várias sanções econômicas internacionais impostas pela ONU contra Teerã. O governo iraniano, que havia lançado um programa nuclear secreto, é acusado de tentar fabricar armas nucleares - o que o regime nega.
Em 2018, no primeiro mandato de Donald Trump, os Estados Unidos se retiraram do tratado e restabeleceram seu próprio regime de sanções a Teerã. Desde então, a confiança entre os signatários se deteriorou, na medida em que o Irã retomou atividades consideradas suspeitas, como enriquecer urânio em níveis acima do permitido pela comunidade internacional.
Agora, o E3 espera pressionar o país a fazer concessões, em um momento em que a diplomacia está estagnada há semanas, após a campanha de bombardeios israelense e americana contra instalações do programa iraniano. A cooperação de Teerã com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) é limitada e as discussões entre Teerã e os europeus têm sido inconclusivas.
Em julho, os europeus apresentaram uma oferta para estender a Resolução 2231 da ONU, que rege o acordo nuclear com Teerã. "As demandas estabelecidas pelo E3 em troca da extensão dos prazos, incluindo a retomada das negociações, o cumprimento pelo Irã de suas obrigações com a AIEA e medidas para atender às nossas preocupações com o estoque de urânio altamente enriquecido ainda não foram atendidas satisfatoriamente pelo Irã", alegaram os três chanceleres europeus, em uma declaração conjunta separada.
Contato direto entre EU e Teerã
Após os anúncios, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que Washington está aberto a conversas diretas com o Irã sobre seu programa nuclear. Em um comunicado, Marco Rubio saudou a decisão do E3, afirmando que os Estados Unidos estavam abertos a um diálogo com o Irã "para encontrar uma solução pacífica e duradoura para a questão nuclear iraniana".
As negociações entre Estados Unidos e Irã estão estagnadas, depois que Washington participou de ataques de Israel a instalações nucleares iranianas.
Em sua declaração conjunta, os chanceleres europeus afirmaram que o descumprimento do acordo de 2015 pelo Irã "é manifesto e deliberado, e os locais que representam um grande risco de proliferação no Irã estão fora do monitoramento da AIEA", indicando terem feito "todos os esforços possíveis para romper o impasse" por vários anos.
"A escalada nuclear do Irã não deve ir mais longe", justificou o ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Noël Barrot, pelo X. No entanto, "esta medida não sinaliza o fim da diplomacia: estamos determinados a aproveitar o período de 30 dias que se abre para dialogar com o Irã", complementou o chanceler francês.
Escalada à vista ou avanço nas negociações?
"Dissemos aos iranianos que não é do interesse deles escalar, mas sim usar esses 30 dias para se esforçarem", explicou uma fonte diplomática francesa. "O risco de escalada existe, mas se não fizermos nada, a questão nuclear iraniana será removida da ONU para sempre", já que a Resolução 2231 do Conselho de Segurança expira em 18 de outubro, explicou a fonte.
"Agora esperamos do Irã total cooperação com a AIEA", um "claro compromisso com as negociações com os Estados Unidos" e certeza sobre o destino do estoque de urânio iraniano, detalhou o ministro alemão Johann Wadephul, no X.
O destino do estoque de 400 quilos de urânio enriquecido a 60%, suficiente para fabricar nove bombas, permanece desconhecido desde que foi alvo de bombardeios israelenses e americanos, em junho.
"Os iranianos estão se apegando à sua posição maximalista, que é não autorizar mais cooperação com a AIEA. Pode haver negociações em 30 dias? Esse é o objetivo de todos, mas os iranianos devem abandonar essa posição maximalista", analisou Héloïse Fayet, pesquisadora de questões nucleares do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri), para a AFP.
(Com AFP)