Guerra energética: como o Irã usa Ormuz e o petróleo para enfrentar EUA e aliados
Desde os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, e da retaliação de Teerã, o preço do petróleo bruto subiu 13%. Teerã transformou o Estreito de Ormuz na pedra angular de seu contra-ataque, bloqueando o tráfego marítimo nessa importante via de exportação de hidrocarbonetos, por onde passa um quinto do petróleo e do gás do planeta. Para o Irã, o petróleo continua sendo uma arma de guerra.
A Guarda Revolucionária, o exército ideológico do Irã, afirma desde quarta-feira (4) ter o controle "total" do Estreito de Ormuz, por onde transita 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo. O presidente americano, Donald Trump, chegou a levantar a possibilidade de escoltar alguns petroleiros.
As guerras no Golfo Pérsico são, em geral, sinônimo de alta nos preços do petróleo. Em 1973, após a Guerra do Yom Kippur entre Israel e os Estados árabes, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) decidiu impor um embargo aos aliados de Israel, provocando uma disparada no preço do óleo, episódio que ficou conhecido como o primeiro choque do petróleo.
"O petróleo parece estar desempenhando um papel importante na evolução das relações internacionais atualmente, porque lança uma luz completamente nova sobre o Oriente Médio", declarou Abdelaziz Bouteflika na época, quando era ministro das Relações Exteriores da Argélia, país membro da Opep.
Para André Giraud, antigo ministro da Indústria da França durante o segundo choque, em 1979, desencadeado pela Revolução Islâmica no Irã, "o petróleo é uma matéria-prima com significativas implicações diplomáticas e militares".
Hoje, o Irã está novamente bloqueando o Estreito de Ormuz, como fez na década de 1980, durante a guerra Irã-Iraque , afundando dezenas de navios que atravessavam a rota. "Para o Irã, o Estreito de Ormuz é um ativo estratégico", analisa Olivier Appert, consultor do Centro de Energia e Clima do IFRI, o Instituto Francês de Relações Internacionais. "É talvez a arma do homem fraco contra o homem forte", afirma. Não é a primeira vez, mas continua sendo preocupante.
Em retaliação aos bombardeios israelenses e americanos, o Irã atacou a maior refinaria da Arábia Saudita, além de instalações de gás no Catar, o que também elevou os preços do gás natural liquefeito (GNL), fundamental para as economias asiáticas e na produção de fertilizantes, entre outros produtos.
Há alguns anos, os houthis no Iêmen, apoiados e armados pelo Irã, também bombardearam uma importante instalação petrolífera saudita. Portanto, usar combustíveis fósseis como alvo em uma guerra é um método recorrente.
Energias renováveis como alternativa?
Nesse contexto, as energias renováveis parecem uma alternativa imune às tensões geopolíticas. A energia solar e a eólica, consideradas limpas por praticamente não emitirem gases de efeito estufa durante sua produção, carregam uma imagem mais pacífica. Uma vez instalados, os painéis solares ficam protegidos das flutuações geopolíticas e de aumentos repentinos de preços.
Em artigo de opinião publicado no jornal francês Le Monde após a invasão da Ucrânia pela Rússia, o secretário-geral da ONU, António Guterres, escreveu que "as energias renováveis são a garantia da paz no século XXI".
Mas as renováveis não estão imunes a outro tipo de conflito: a guerra comercial, travada pela China, que controla boa parte das terras raras essenciais, em particular, para a produção de baterias. "Os atores não são os mesmos, mas já em 2011 a China decidiu controlar as exportações de terras raras para o Japão", lembra Olivier Appert. "A China está claramente usando seu poder monopolista para impor seus pontos de vista. Infelizmente, as energias renováveis também estão submetidas a questões geopolíticas muito decisivas."
A questão diante da guerra no Irã, é se essa nova alta nos preços do petróleo pode acelerar a transição energética. "Vamos economizar gasolina, vamos economizar eletricidade, vamos economizar aquecimento e espero que conseguiremos superar essas dificuldades", declarou o presidente francês Georges Pompidou em discurso transmitido pela TV em 1973, durante a primeira crise do petróleo.
A França não tinha petróleo, mas tinha ideias, e lançou um vasto programa de construção de usinas nucleares para produzir energia livre de carbono. Cinquenta anos depois, o contexto é outro, mas a crise atual "justifica a necessidade de reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Mas devemos ter cuidado para não recair na dependência da China", alerta Olivier Appert.