Famílias palestinas sitiadas por colonos na Cisjordânia vivem sem água, luz e internet
A situação em Qusra parece ter chegado a um impasse. Pela segunda semana consecutiva, palestinos permanecem confinados em suas próprias casas por colonos israelenses que os impedem de sair. O Exército está presente nos arredores dessa aldeia da Cisjordânia, mas ainda não retirou os agressores.
Frédérique Misslin, enviada especial da RFI a Qusra (Cisjordânia)
Uma tenda para jornalistas foi montada em uma encosta com vista para as casas cercadas. Nas colinas de Qusra, é possível ver claramente as diferentes residências onde vivem famílias palestinas confinadas. Soldados israelenses permanecem posicionados no entorno, enquanto veículos de colonos cruzam ocasionalmente as estradas de terra que serpenteiam entre a vegetação ressequida e os olivais. Essas vias estão interditadas: a região foi declarada zona militar fechada.
Treze pessoas estão isoladas em suas casas há dez dias, cercadas por colonos violentos que impedem as famílias de sair até mesmo para comprar alimentos e outros suprimentos. O fornecimento de água e energia elétrica chegou a ser interrompido por um período. Desde o início desta semana, também não há acesso à internet.
Mulheres e crianças confinadas
Abdel-Karim Hassan é agricultor. Sua esposa e suas filhas estão entre os moradores cercados. Há duas semanas, o idoso vive em estado de angústia, telefonando para os familiares diversas vezes ao dia.
"É difícil viver em um lugar onde é proibido abrir as janelas, respirar, sair de casa. É uma prisão."
O prefeito de Qusra, Abdulazim Wadi, manifesta indignação: "Dez dias de cerco é tempo demais para famílias inteiras, incluindo mulheres e crianças."
As autoridades locais tentam organizar ajuda para os moradores confinados com o apoio de voluntários. Eles conseguem entregar água e alimentos, mas sem qualquer contato direto com as famílias. Os pacotes são deixados nas portas das casas, enquanto o Exército israelense inspeciona tudo o que entra na área.
Para os moradores e autoridades locais, o objetivo dos colonos é claro: tornar a vida tão insuportável que as famílias abandonem suas propriedades. Apesar do medo, elas se recusam a partir.
Um cidadão palestino-americano pede ajuda
Alguns proprietários retornaram para tentar defender suas terras. É o caso de Loai Abu Ridi. Dono de uma das casas cercadas, ele deixou Ohio, nos Estados Unidos, onde viveu por mais de vinte anos, para voltar a Qusra. Chegou no início desta semana escoltado pelo Exército israelense.
Assim que retornou, hasteou uma bandeira norte-americana no telhado e passou a pedir ajuda às autoridades de Washington. "Peço aos Estados Unidos e à embaixada [norte-americana] que me garantam proteção e que os colonos sejam retirados permanentemente de nossa aldeia e da região. Já se passaram duas semanas. Não consigo dormir e não posso permitir que roubem minha casa diante dos meus olhos."
Loai Abu Ridi teme perder sua propriedade para os colonos judeus que se recusam a deixar a área. Nascido e criado nessa aldeia da Cisjordânia ocupada, ele se envolveu, na terça-feira (18), em uma discussão com um dos israelenses.
A cena, registrada pela Reuters, mostra o colono perguntando em hebraico: "Você veio aqui para causar problemas, não veio?". "Você é um colono terrorista, sabia?", respondeu o palestino.
Um veículo militar passou várias vezes pelo local, mas os soldados não efetuaram nenhuma prisão. Em vez disso, determinaram que Loai Abu Ridi retornasse para casa. O episódio ilustra o clima de tensão que tomou conta da aldeia desde o início do cerco.
Na semana passada, o embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, afirmou que cercar uma família palestina daquela forma constitui "um ato de terror" e que "nada justifica esse comportamento brutal". O diplomata chegou a se referir aos responsáveis como "terroristas israelenses".
A declaração chamou atenção porque Huckabee é amplamente conhecido por defender os assentamentos israelenses. Apesar de suas críticas, nenhuma medida concreta foi anunciada até o momento pelas autoridades americanas para proteger o cidadão palestino-americano.
O papel do Exército israelense em debate
O único diplomata estrangeiro que esteve em Qusra foi Michel Rentenaar, representante dos Países Baixos nos Territórios Palestinos. Durante visita realizada na terça-feira, o cônsul reiterou que, à luz do direito internacional, o cerco é ilegal e deve ser encerrado.
"As autoridades ocupantes têm a responsabilidade de administrar essa situação. No entanto, observo que as medidas adotadas para prevenir a violência dos colonos são insuficientes", declarou.
O prefeito de Qusra afirma que o Exército israelense teria condições de retirar os colonos em poucos minutos, caso houvesse vontade política para isso.
As tendas montadas em frente às casas palestinas já foram desmontadas, mas os colonos permanecem no local. O papel desempenhado pelo Exército israelense passou a ser alvo de questionamentos. Nos primeiros vídeos divulgados há dez dias, soldados apareciam demonstrando proximidade com os agressores e, em alguns casos, até rezando ao seu lado.
Diante da repercussão, o Estado-Maior israelense declarou que "a situação em Qusra é inaceitável". Ainda assim, o cerco continua. E o Exército israelense, frequentemente apresentado como o mais poderoso do Oriente Médio, segue sem retirar os colonos violentos que, segundo os moradores, continuam aterrorizando a população palestina.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.