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Relatório expõe racismo estrutural enfrentado por jovens imigrantes e negros na França

Um relatório publicado nesta quinta-feira (26), na França, revela que um quarto dos jovens imigrantes, descendentes de imigrantes ou nascidos no exterior sofreu discriminação com base na cor da pele, origem ou nacionalidade nos últimos cinco anos, inclusive em instituições do Estado, como escolas e universidades. Segundo o documento, essas discriminações são "cumulativas e estruturais" e devem ser tratadas como prioridade pelo Estado.

26 fev 2026 - 14h15
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De acordo com o relatório Jeunesses et discriminations fondées sur l'origine: répondre à l'impératif d'égalité (Juventude e discriminação com base nas origens: respondendo ao imperativo da igualdade, em tradução livre), elaborado pela Defensoria dos Direitos - autoridade administrativa independente que tem entre suas funções combater discriminações e o racismo institucional - as ocorrências aparecem em diferentes momentos da vida: na escola, no ensino superior, no acesso à moradia, ao emprego, à saúde e nas interações com instituições públicas.

Relatório publicado na França mostra que um quarto de jovens negros e imigrantes relatam discriminações na escola, universidade e no acesso à moradia. Imagem ilustrativa.
Relatório publicado na França mostra que um quarto de jovens negros e imigrantes relatam discriminações na escola, universidade e no acesso à moradia. Imagem ilustrativa.
Foto: REUTERS/Charles Platiau/Files / RFI

A análise se apoia em queixas formais recebidas pela instituição, além de relatos de jovens afetados e de profissionais que os acompanham (educadores, trabalhadores sociais etc.). Também foram utilizados dados estatísticos disponíveis, análises qualitativas de práticas discriminatórias e exemplos de casos reais relatados.

O relatório, de 103 páginas, salienta que as discriminações começam já na infância, pois a escola é permeada por elas, "frequentemente inconscientes e sistêmicas". Elas se manifestam pela falta de mixidade social, escolhas de orientação influenciadas pela origem, estigmatização e até violências físicas.

Tabu na escola

O documento reconhece que as discriminações na escola, na França, "parecem ser um tabu". Segundo o relatório, "a escola francesa se inscreve historicamente em uma perspectiva de igualdade herdada da tradição republicana, que exige neutralidade, universalidade e tratamento idêntico para todos os alunos". Porém, "o reconhecimento das discriminações confronta essa concepção ideal da escola francesa. (...) Ao limitar a discriminação a atos individuais e isolados, em vez de compreendê-la como parte de um fenômeno sistêmico, essa interpretação tende a permanecer focada em estudantes ou em alguns poucos funcionários, apresentados como exceções raras e lamentáveis", explica o documento.

"Frequentemente me confundiam com outras meninas negras na sala de aula e presumiam que eu tinha laços familiares com outros alunos negros, quando isso não era verdade", diz o testemunho de uma jovem de 21 anos citado no relatório.

"Uma professora de francês, na décima série, nos disse sem rodeios para não continuarmos os estudos gerais (recomendando os profissionalizantes) porque éramos estrangeiros e nunca teríamos sucesso, mesmo depois de eu lhe dizer que meu sonho era ser piloto e que minha amiga queria ser advogada", relata outra jovem de 19 anos.

Os atos racistas tiveram um aumento acentuado nas escolas, passando de 870 casos relatados em 2022-2023 para 1.960 em 2023-2024 (+125%), diz o documento.

Ensino superior

No ensino superior, as discriminações não diminuem e podem inclusive piorar, devido à estrutura que privilegia a autonomia e tem menos intervenções educacionais. De acordo com o relatório, as políticas de combate às discriminações até existem, mas seu impacto é limitado.

Os jovens enfrentam barreiras já no acesso aos cursos universitários, e as desigualdades persistem no cotidiano, afetando a integração, a construção de uma rede social e as oportunidades.

"Na minha universidade, no segundo ano, alguns dos meus colegas franceses alegaram que não queriam estar no mesmo grupo que eu e outros estudantes negros porque não queriam se misturar conosco, e isso sem qualquer consequência, diante de professores que nos obrigavam a nos virar sozinhos na formação dos grupos", relata uma jovem de 22 anos.

A importância do diploma para a inserção profissional na França agrava o problema, salienta o relatório. Posteriormente, jovens imigrantes ou descendentes de imigrantes são confrontados com recusas discriminatórias desde a busca por estágios até o mercado de trabalho. Esse acúmulo afeta oportunidades econômicas e trajetórias profissionais.

As barreiras também são significativas no acesso à habitação, um dos campos onde a discriminação é mais documentada na França. Ela ocorre em várias fases da locação: na triagem dos candidatos, na escolha dos bairros e nas práticas de agentes imobiliários e proprietários.

"Com perfis econômicos estritamente equivalentes (dois funcionários públicos, um percebido como francês e o outro como norte-africano), candidatos de minorias recebem significativamente menos ofertas de visitas ou propostas de aluguel", diz o relatório. "Embora uma candidatura financeiramente sólida possa reduzir a extensão das disparidades, ela não é suficiente para eliminar o tratamento diferenciado", complementa.

Os casos mais frequentemente relatados dizem respeito a proprietários ou agentes imobiliários que, ao se depararem com um candidato negro ou de origem estrangeira, anunciam repentinamente que o imóvel já está alugado e se recusam a mostrá-lo. Muitos jovens descrevem mudanças imediatas de atitude durante o encontro presencial: tom mais ríspido, frieza repentina, comentários intrusivos ou condescendentes. Esse tipo de situação acaba levando jovens a adotar estratégias para evitar discriminação durante a análise da candidatura - como não enviar foto, mudar o nome ou ocultar o local de residência. As mesmas estratégias são frequentemente usadas na elaboração do currículo e no mercado profissional.

O relatório sublinha que essa discriminação tem impactos múltiplos na vida social e profissional destes jovens.

Discriminação no acesso aos cuidados de saúde

O relatório inclui um capítulo específico sobre saúde: há obstáculos discriminatórios no acesso ao sistema de cuidados. A taxa de negligência em relação à saúde, que está em ascensão na população em geral, é particularmente alta entre os jovens: 74% dos jovens de 18 a 24 anos relataram ter deixado de procurar atendimento médico nos últimos 12 meses.

No caso dos imigrantes, descendentes de imigrantes e negros, preconceitos e estereótipos influenciam comportamentos e práticas de profissionais de saúde, resultando em desigualdades e deterioração dos cuidados e da saúde, especialmente quando se trata de mulheres.

"Tive muitas experiências desagradáveis com profissionais de saúde. Primeiro, desde muito jovem, com meu clínico geral, que constantemente minimizava minha dor e prescrevia medicamentos genéricos para se livrar de mim. Finalmente, aos 25 anos, fui diagnosticada com uma doença autoimune no estômago, depois de trocar de clínico e lutar para ser levada a sério", relata uma jovem de 25 anos.

Recomendações

Embora os jovens sejam o segmento da população que mais reconhece e denuncia a discriminação, são também os que menos conhecem seus direitos de recurso. "Para essa faixa etária, marcada por múltiplas fragilidades e vulnerabilidades, a discriminação tende a corroer não apenas suas trajetórias de vida, mas também seu senso de pertencimento, sua confiança nas instituições e na promessa republicana, que são o alicerce de nossa coesão social", lamenta o documento, que também apresenta recomendações.

Entre elas estão: tornar obrigatórias as formações sobre preconceitos raciais destinadas a professores e profissionais, reavaliar o sistema de alocação escolar para reduzir a segregação, intensificar ações de sensibilização no mercado imobiliário e melhorar a medição e o acompanhamento das denúncias.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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