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Paradise Papers: vazamento global revela investimento de R$ 43 milhões da rainha da Inglaterra em offshores

Ducado de Lancaster, que administra patrimônio da rainha, investiu nas Ilhas Cayman e em Bermuda, conforme documentos vazados.

6 nov 2017 - 10h57
(atualizado às 17h48)
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Cerca de £10 milhões (R$ 43,2 milhões) do patrimônio pessoal da rainha foram investido em offshores, revelam documentos vazados.

Rainha da Inglaterra
Rainha da Inglaterra
Foto: BBC News Brasil

O Ducado de Lancaster, que provê receitas à rainha, possuiu fundos nas Ilhas Cayman e em Bermuda. Uma pequena quantia foi parar nas empresas verejistas BrightHouse, rede acusada de financiamentos irresponsáveis, e Threshers, que faliu devendo £17,5 milhões (R$ 75,7 milhões) em impostos ao Reino Unido.

O Ducado de Lancaster disse que sua participação na BrightHouse equivale hoje a £ 3.208 (R$ 13.883) e que não teve participação nas decisões de investimento dos fundos. Informou ainda que não estava ciente de que as empresas varejistas estavam entre os investimentos feitos pelos fundos.

O coordenador financeiro do patrimônio de £500 milhões, Chris Adcock, disse à BBC: "Nossa estratégia de investimento é baseada nos conselhos e recomendações dos nossos consultores de investimento e na alocação apropriada de recursos. O Ducado só investiu em conceituados fundos de capital privado, seguindo recomendações dos nossos consultores financeiros".

Um porta-voz do Ducado de Lancaster acrescentou: "Nós operacionalizamos uma série de investimentos e poucos deles são fundos offshores. Todos os nossos investimentos são auditados e legítimos. A rainha paga, voluntariamente, impostos sobre toda a receita que recebe do Ducado".

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O que diz o Ducado

Detalhes sobre os investimentos do Ducado de Lancaster vieram à tona pelo vazamento dos Paradise Papers - um acumulado de 13,4 milhões de documentos de companhias como a Appleby, uma das maiores empresas offshore do mundo.

Os dois fundos que receberam investimentos do Ducado ficam em territórios onde não são cobrados impostos corporativos e que integram o centro da indústria financeira offshore.

Mas o Ducado diz que não estava ciente das vantagens fiscais do investimento em fundos offshore, acrescentando que estratégia fiscal não faz parte de sua política de investimento patrimonial.

gráfico
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Foto: BBC News Brasil

Os documentos mostram que o Ducado de Lancaster investiu £5 milhões (R$ 21,6 milhões) no Jubilee Absolute Return Fun Limited, em Bermuda, em 2004. O investimento foi encerrado em 2010.

Documentos mostram que o fundo investiu em empresas médicas e de tecnologia. As conexões com a empresa varejista BrightHouse começaram em 2007, quando uma empresa norte-americana que controlava o fundo solicitou ao Ducado que investisse US$ 450 mil (R$ 1,48 milhão) em cinco projetos, que incluíam a compra de duas empresas varejistas britânicas.

Com esse recurso, foi adquirida uma participação na empresa de private equity baseada em Londres Vision Capital, que comprou 100% da BrightHouse e 75% dos donos da rede de venda de bebidas alcoólicas Threshers.

Sob o comando dos novos donos, a Threshers acumulou dívidas e deixou de pagar, por dois anos, impostos corporativos. Quando a rede de bebidas alcoólicas faliu, em outubro de 2009, quase seis mil pessoas perderam o emprego.

A maior parte dos investimentos da Vision Capital na varejista BrightHouse foi transferida para uma empresa baseada em Luxemburgo. A transferência trouxe vantagem fiscal, com pagamento menor de impostos corporativos ao Reino Unido.

No mês passado, a Autoridade de Conduta Financeira (Financial Conduct Authority), agência de regulação financeira do Reino Unido, disse que a BrightHouse, que vende produtos elétricos e móveis a pessoas de baixa renda via crediário, não agiu como um "credor responsável" e exigiu o pagamento de £14,8 milhões (R$ 48,9 milhões) em compensação para 249 mil consumidores.

O Ducado de Lancaster disse que seus investimentos nas Ilhas Cayman devem continuar até 2019 ou 2020 e que eles representam 0,3% do total do valor do patrimônio do Ducado, enquanto a participação na empresa BrightHouse atualmente equivale a apenas 0,0006% de sua fortuna.

O Ducado não forneceu dados sobre sua participação no Threshers. Um porta-voz da Vision Capital disse: "A Vision Capital respeita todas as leis e regulamentos e paga impostos em sua totalidade e no prazo. Qualquer sugestão em contrário é errada".

'Explorando vulneráveis'

O modelo de negócios da BrightHouse tem sido há anos alvo de polêmica.

Um relatório do Parlamento de 2015 diz que a empresa cobrava juros de até 94% sobre os produtos, para vendas parceladas. Um em cada cinco consumidores atrasou os pagamentos e um em cada 10 não conseguiu arcar com os custos.

Um caso examinado pelos parlamentares foi o de um freezer que custava £644 a vista e que era vendido por £1,7 mil, no plano de pagamento em cinco anos oferecido pela BrightHouse.

A BrightHouse já estava recebendo atenção negativa na época do investimento feito pelo Ducado de Lancaster- com o jornal Financial Times desafiando a diretoria da empresa, em novembro de 2008, a responder às acusações de que a rede estava explorando vulneráveis.

A empresa afirma que é um credor responsável e que as suas 300 lojas prestam serviços a milhões de britânicos que não conseguem acesso a linhas tradicionais de crédito.

A BrightHouse disse ao jornal The Guardian que observa todas as normas de tributação e que paga impostos na sua totalidade e dentro dos prazos legais.

Documentos que apontam investimentos da Rainha

cópia de documento
cópia de documento
Foto: BBC News Brasil

Documentos de offshores mostram que o Ducado de Lancaster está entre os 46 investidores do Dover Street VI Caymand Fund LP.

documento
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Foto: BBC News Brasil

Em setembro de 2007, investidores foram solicitados a pagar 6% de seus recursos no fundo para cinco investimentos, incluindo um chamado "Project Bertie".

Eles foram informados que o Project Bertie era destinado a viabilizar a compra, pela Vision Capital, do portfolio de duas varejistas do Reino Unido.

Documento
Documento
Foto: BBC News Brasil

O Ducado de Lancaster investiu US$ 450 mil (R$ 1,4 milhão) no "Project Bertie", conforme mostram os documentos.

Documento
Documento
Foto: BBC News Brasil

Outro documento mostra o investimento no Jubilee Absolute Return Fund.

Ducado de Lancaster

Estabelecido há mais de 700 anos, o Ducado de Lancaster tem portfólios comerciais e residenciais, além de investimentos financeiros.

A principal função do Ducado é garantir uma receita à rainha, que é a "duquesa de Lancaster".

Embora o Ducado não esteja sujeito a pagamento de impostos, desde 1993, a rainha voluntariamente paga tributos sobre todas as receitas que recebe.

O relatório anual do Ducado, que inclui um resumo de suas ações e performance financeira, é apresentado para votação no Parlamento. Os investimentos em offshore não foram citados nos relatórios, mas não existe a exigência de que o Ducado apresente detalhes específicos dos investimentos feitos.

Dave McClure, autor de um livro sobre a fortuna da família real, disse à BBC que "a pressão vai aumentar para que o Ducado se abra para uma real investigação do Parlamento, por meio do Escritório de Auditoria Nacional."

"A solução para o problema pode ser, simplesmente, total transparência, para que todos saibam onde os investimentos estão sendo feitos."

Threshers
Threshers
Foto: BBC News Brasil

O Ducado disse que a rainha "tem grande interesse no patrimônio e aluguéis do Ducado", mas "nomeia um chanceler e o Conselho do Ducado para administrar os negócios de seu Ducado".

Informou também que os investidores do Dover Street VI Cayman Fund LP assinaram um compromisso "por um período específico" e que "não participam das atuais decisões de investimento" nem ficam cientes de onde o dinheiro é "por fim investido".

Perguntado se tem investimentos em outros fundos offshore, o Ducado disse que "atualmente investe em um fundo com sede na Irlanda".

A divulgação, no domingo, do conteúdo de parte dos Paradise Papers, traz dados sobre milhares de pessoas - aparecem nos arquivos 31.180 endereços nos Estados Unidos, 14.434 no Reino Unido e 5.924 na China, por exemplo.

A investigação também encontrou offshores relacionadas a pessoas próximas ao presidente dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump. Entre os citados estão o secretário de Comércio, Wilbur Ross.

Ao todo, participaram da reportagem 382 jornalistas de 67 países, atuando em 96 veículos de mídia. A BBC participou das investigações por meio do programa Panorama, do canal de TV britânico BBC One.

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