Como a China trocou a dependência pelo protagonismo estratégico na economia do futuro
Visto da China, o G7 parecia girar em torno de uma questão: será que as economias mais avançadas do Ocidente podem reduzir sua dependência de Pequim?
Thomás Zicman de Barros, analista político
Foi-se o tempo em que os carros chineses pareciam feitos de papelão. Em Xangai, a regra são os modernos veículos elétricos que cruzam silenciosamente as avenidas da cidade. Ao mesmo tempo, milhões de pagamentos são feitos por QR Code e trens de alta velocidade ligam metrópoles distantes em poucas horas. O presente chinês parece, de fato, coisa do futuro.
Foi dessa China que acompanhei as notícias do G7 - o clube das economias mais avançadas do Ocidente - reunido em Évian, na França. Sim, mesmo estando longe de Paris, onde moro, continuo falando da atualidade francesa. Mas agora a observo pelo olhar chinês.
Oficialmente, a China não era o tema central do encontro. Mas ela estava presente em quase todas as conversas.
A principal iniciativa econômica anunciada pelos líderes do G7 foi o reforço da cooperação para reduzir dependências em áreas consideradas estratégicas, especialmente os minerais críticos e as chamadas terras raras, indispensáveis para baterias, carros elétricos, semicondutores e equipamentos militares.
O comunicado do G7 evitou apontar um alvo. Ainda assim, ninguém teve dúvidas sobre quem estava sendo discutido.
A China ocupa uma posição dominante em diversas etapas da cadeia de produção desses materiais. Para a Europa, sobretudo, o equilibro não é fácil: diante da administração errática na Washington de Donald Trump, os europeus observam a China, por um lado, como parceiro mais confiável do que os Estados Unidos, mas com o qual se estabelece cada vez mais uma relação de dependência.
Nos últimos meses, restrições impostas por Pequim às exportações de alguns deles aumentaram a preocupação de governos e empresas ocidentais. O objetivo do G7 é simples: reduzir vulnerabilidades e diminuir a dependência em relação à China.
Neste imbróglio, a reação de Pequim foi clara. Autoridades chinesas acusaram o G7 de politizar questões econômicas e defenderam seus controles de exportação como uma prática legítima para proteger interesses nacionais.
O episódio revela uma inversão histórica interessante
Durante décadas, a ascensão chinesa foi interpretada como consequência de sua integração a uma ordem econômica internacional dominada pelo Ocidente. A rigor, se formos mais atrás na história, a China parecia ocupar uma posição subalterna no arranjo das nações desde as Guerras do Ópio, em meados do século XIX, que inauguraram o chamado Século das Humilhações. Derrotas militares, tratados desiguais e intervenções estrangeiras reduziram drasticamente a autonomia do país diante das potências ocidentais.
Mesmo nas últimas décadas, a China dependia dos mercados externos, dos investimentos estrangeiros e do acesso às cadeias globais de comércio para sustentar seu desenvolvimento.
A ironia é observar, em Évian, o que parece ser uma inversão de papéis. As potências que durante muito tempo moldaram as regras da economia internacional discutem hoje como reduzir sua dependência em relação à China. Pequim não substituiu o Ocidente no comando do mundo, mas conquistou uma posição estratégica em setores considerados essenciais para a economia do futuro.
Observando os carros elétricos que cruzam as ruas chinesas, fica difícil não pensar que essa é uma das questões centrais do nosso tempo. Não apenas quem produz mais ou quem cresce mais, mas quem depende de quem.
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