Obra-prima de Rubens esquecida por mais de 400 anos é leiloada por quase € 3 milhões em Versalhes
Uma obra-prima de Peter Paul Rubens, esquecida por mais de 400 anos, foi vendida por € 2,9 milhões em leilão em Versalhes, nos arredores de Paris. Trata-se de um Cristo crucificado, iluminado e destacado do céu, criado pelo mestre barroco no auge de sua carreira. Encontrada por acaso em 2024 durante um inventário em um palácio em Paris, a pintura passou por análises científicas que confirmaram sua autenticidade, consolidando-se como um tesouro artístico raro e histórico.
Nascido em Antuérpia, Bélgica, Rubens, que era protestante e se converteu ao catolicismo, fez deste quadro uma profissão de fé, refletindo seu apreço por Cristo, tema recorrente em sua obra. É a única pintura do artista em que se vê sangue e água saindo do lado de Cristo, algo que ele representou apenas uma vez.
O aspecto mais impressionante é que a obra estava desaparecida desde 1613. Mais de 400 anos de busca terminaram em 2024, quando o quadro foi encontrado por acaso durante um inventário em uma mansão em Paris, no contexto de uma sucessão, um evento raríssimo. Os proprietários, William Bouguereau e sua filha, haviam adquirido o quadro no século XIX, provavelmente sem ter noção de seu valor, que passou de geração em geração.
Segundo a casa de leilões Osenat, a pintura passou por Alemanha e Bélgica para verificação, e especialistas confirmaram que se tratava de um Rubens, e não de um discípulo. Foram realizadas análises científicas e exames microscópicos, que revelaram o uso de pigmentos brancos, pretos e vermelhos nas áreas da carne, além de azuis e verdes, característicos da representação da pele humana pelo artista.
Quadros "escondidos" na França
Nos últimos anos, a França voltou a revelar quadros antigos, mantidos por décadas (ou séculos) em coleções privadas, que ressurgem de forma inesperada e alcançam valores expressivos em leilões. Um exemplo recente é o de uma pintura até então desconhecida de Pierre‑Auguste Renoir, intitulada L'enfant et ses jouets - Gabrielle et le fils de l'artiste, Jean. A obra, que retrata o filho do artista em companhia da babá, nunca havia sido exibida nem leiloada publicamente. Em 2025, foi vendida em Paris por € 1,8 milhão, surpreendendo o mercado e recolocando‑a no radar de colecionadores e historiadores.
Em 2025, uma pintura de Picasso intitulada Busto de Mulher com Chapéu de Flores (Dora Maar), — retrato de sua musa e parceira Dora Maar — reapareceu após mais de 80 anos sem exposição pública, mantida numa coleção particular desde 1944. Quando foi levada a leilão em Paris, a obra atingiu o valor de € 32 milhões, batendo recorde de valor na França daquele ano e provocando grande comoção no mercado e na crítica.
Outro caso recente se refere a uma tela do pintor barroco francês Lubin Baugin — uma natureza morta até então desconhecida — que veio à luz em 2025, durante o inventário de uma coleção privada. Em leilão na França, esta obra superou as expectativas e foi arrematada por € 550 mil, estabelecendo um novo recorde para o artista.
Esses achados expõem a dimensão imprevisível e fascinante do mercado de arte: às vezes, o que parecia apenas uma pintura esquecida em um sótão ou herança familiar pode revelar‑se uma peça de grande valor histórico e artístico. O processo costuma envolver reconhecimento por leiloeiros atentos, análise de proveniência e, em muitos casos, exames científicos — pigmentos, técnicas de pintura, estilo — para confirmar a autenticidade e autorias, antes de serem apresentadas ao mercado.
Para colecionadores, museus e o público, essas redescobertas representam reaberturas de capítulos da história da arte, com chance de revisitar trajetórias de artistas pouco presentes nas coleções públicas. Ao mesmo tempo, reforçam que os acervos privados — muitas vezes negligenciados — podem esconder obras valiosas.
RFI com agências