Mostra revela que Alemanha Ocidental 'comprou' 34 mil presos orientais
14 ago2012 - 12h48
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Até a queda do Muro, a Alemanha Ocidental comprou a liberdade de cerca de 34 mil presos políticos da Alemanha comunista. Exposição em Berlim relata destinos daqueles que foram negociados pelos governos do país dividido.
Berlinense acena para parente que ficou preso do outro lado do muro, em agosto de 1967, após a divisão da capital. Em agosto de 1961, a Alemanha Oriental deu a ordem para a construção de um "muro de proteção antifascista", com o objetivo de separar a parte leste (setor soviético) do lado oeste capitalista (aliados). Durante 28 anos, a barreira física dividiu Berlim, separando famílias e amigos. Cinquenta anos depois, os alemães relembram um dos principais símbolos da Guerra Fria
Foto: Getty Images
O acordo era politicamente explosivo, e dependeu do aval pessoal do chanceler federal Konrad Adenauer. Sob sigilo absoluto, em 2 de outubro 1963, foram libertados os primeiros oito prisioneiros da Alemanha Oriental. De ônibus, eles cruzaram o posto de fronteira interna alemã Wartha Herleshausen.
O regime comunista embolsou exatamente 205 mil marcos pelo negócio, a ser seguido por muitas centenas de acordos similares. Pela primeira vez, uma exposição se dedica exclusivamente a esse capítulo da divisão da Alemanha: Freigekauft Wege aus der DDR-Haft (Liberdade comprada Caminhos para fora da prisão na Alemanha Oriental) pode ser visitada em Berlim até o final de março de 2013.
A mostra retrata seis histórias de indivíduos e famílias presos por motivos políticos. Entre elas, a da família Kolbe, de Dresden, que tentou escapar da Alemanha Oriental em outubro de 1973, com a intenção de chegar à Áustria através da então Tchecoslováquia. A tentativa falhou, e os pais acabaram na prisão.
Em maio de 1975, eles foram comprados pelos alemães ocidentais, mas tiveram que esperar mais quatro meses até que pudessem abraçar seus dois filhos novamente, no lado ocidental. Os visitantes da exibição podem tomar conhecimento, através de entrevistas em vídeo, de como os Kolbe sobreviveram àquela época, entre esperança e medo.
Advogados mediavam
A opinião pública de ambos os lados da fronteira não deveria tomar conhecimento do comércio estatal com seres humanos. Por isso, os presos se comprometiam a manter segredo. Claro que havia sempre boatos, mas nunca uma confirmação oficial.
Nos bastidores, os advogados Wolfgang Vogel (leste) e Jürgen Stange (oeste) coordenavam as negociações. Seus anos de correspondência estão documentados no Museu Centro de Refugiados Marienfelde, localizado no antigo posto, em Berlim Ocidental, para acolhida de emergência de refugiados da Alemanha Oriental.
A escolha de palavras é seca e objetiva, como de costume em cartas comerciais. Mas a impressão é opressiva, pois por trás daquelas linhas estão destinos humanos. "A lista que foi passada está em fase de revisão. Numericamente ainda não é possível uma definição", escreve Vogel em 20 de agosto de 1973 a seu colega Stange.
Frases como essa indicam simplesmente que as autoridades estavam pechinchando, nas negociações com os prisioneiros da Alemanha Oriental. "Critérios como relações familiares, estado de saúde e profissão faziam bastante diferença", lembra a diretora do museu, Bettina Effner. "Médicos e engenheiros valiam mais", afirma, trazendo à tona a fria lógica do regime da Alemanha Oriental.
Duas vezes na prisão
Profissionais urgentemente necessários do lado oriental dificilmente entravam na lista dos presos "negociáveis". Essa foi a experiência da médica berlinense Renate Werwigk. Ela desejava unir-se ao irmão, que em 1963 escapara para o lado ocidental através de um túnel. Quando a polícia secreta do governo comunista, conhecida como Stasi, tomou conhecimento, Renate e seus pais foram condenados a vários anos de detenção.
Após sua libertação, a jovem entrou em contato com o advogado Wolfgang Vogel. De início, ele excluiu qualquer esperança de uma transferência para o Ocidente, lembra a médica em entrevista à Deutsche Welle. Por fim, acenou que a solução seria ela se submeter a uma segunda prisão.
Após a tentativa fracassada de tentar entrar com passaporte falso na Turquia, através da Bulgária, Renate Werwigk foi novamente condenada à prisão em 1967. Um ano depois, foi deportada para o Ocidente, em troca de um espião da Alemanha Oriental mais 100 mil marcos.
"Agora são alemães ocidentais"
Para camuflar o tráfico estatal de pessoas, o governo imbuiu o Diakonisches Werk, organização de caridade da Igreja Evangélica da Alemanha, de tratar da burocracia financeira da compra de prisioneiros orientais. Desde 1957, a Igreja Evangélica dava apoio material a comunidades protestantes em Berlim Oriental, o que tornava a instituição uma parceira ideal para o negócio.
No nível político, o responsável era o Ministério para Questões Pan-Alemãs, rebatizado em 1969 como Ministério de Assuntos Internos Alemães. Desde o princípio, o advogado Ludwig Rehlinger acumulou grandes méritos na compra da liberdade de prisioneiros políticos. Numa detalhada entrevista, mostrada em vídeo na exposição, o berlinense conta suas experiências como negociador.
Até a queda do Muro de Berlim, em 1989, cerca de 87 mil cidadãos da Alemanha Oriental acabaram atrás das grades por tentarem fugir ou por serem considerados pelo regime politicamente "pouco confiáveis". A Alemanha Ocidental comprou cerca de 34 mil desses "inimigos do socialismo".
O primeiro ônibus com refugiados, em 1963, foi pago em espécie. Mais tarde, adotou-se o negócio de permuta de gente em troca de mercadorias, que podiam ser alimentos ou petróleo dependendo do que estivesse em falta na cronicamente carente economia da Alemanha comunista. Porém diamantes também migraram do oeste para o leste, por essa via.
Com propriedade, a curadora da exposição, Lucia Halder, sugere que a compra de prisioneiros era uma forma de "aquisição de divisas", propiciando que mercadorias no valor de mais de 3 bilhões de marcos fossem parar na falida República Democrática Alemã. Era o preço da liberdade de alemães orientais. A primeira escala deles no Ocidente era o centro de acolhimento (Bundesaufnahmestelle), localizado na cidade de Giessen. Seu diretor, Heinz Dörr, os recebia com as palavras: "Senhoras e senhores, vocês agora são alemães ocidentais".
Berlinense acena para parente que ficou preso do outro lado do muro, em agosto de 1967, após a divisão da capital. Em agosto de 1961, a Alemanha Oriental deu a ordem para a construção de um "muro de proteção antifascista", com o objetivo de separar a parte leste (setor soviético) do lado oeste capitalista (aliados). Durante 28 anos, a barreira física dividiu Berlim, separando famílias e amigos. Cinquenta anos depois, os alemães relembram um dos principais símbolos da Guerra Fria
Foto: Getty Images
Foto de 1961 mostra o muro de Berlim em construção para dividir a Alemanha Oriental da Berlim Ocidental com um dos objetivos de evitar a emigração em massa
Foto: AFP
Prédios na Berlim Oriental (setor soviético) são fotografados em junho de 1968
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Policiais portando rifles fornecidos pelos EUA montam guarda em frente ao Portão de Brandemburgo, em dezembro de 1961
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Fotografia de junho de 1968 mostra o muro de Berlim em construção para separar a região ocupada por soviéticos da ocupada por potências ocidentais (EUA, Grã-Bretanha e França)
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Foto tirada em outubro de 1976 registra o posto de passagem Heinrich Heine Strasse, entre o setor soviético e o americano
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Ponte sobre o rio Spree marca a fronteira entre a Alemanha Oriental e Berlim Ocidental, em outubro de 1976
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Pichação em lado da Berlim Oriental faz referência aos soviéticos, em 13 de outubro de 1976
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Casal passa em frente a pichações no lado ocidental da barreira física, em abril de 1984
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Um dos personagens da influência americana sobre a Berlim Ocidental, o então presidente americano Ronald Reagan comemora o 750º aniversário da capital alemã em visita à cidade em junho de 1987
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Residentes do leste de Berlim dirigem o histórico trabant - também conhecido como trabi, ou "caixa de papelão sobre rodas", carro-símbolo da Alemanha comunista), em fila para cruzar a fronteira urbana, em novembro de 1989
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Sob fiscalização policial, moradores da Berlim Oriental atravessam o posto de passagem Invalidenstrasse para visitar o setor do Ocidente, em novembro de 1989
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Alemães ocidentais passam por terreno inabitado que divide a capital alemã na véspera da Alemanha se reunificar, em novembro de 1989
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Guardas de fronteira da Alemanha Oriental fiscalizam região perto do portão de Brandenburgo, em novembro de 1989
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Após a construção do muro, alemães aguardam a abertura para ultrapassar a linha divisória e visitar parentes no setor Leste da capital
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Policiais alemães do setor Ocidental e do Oriental se enfrentam na fronteira entre as duas regiões, em 1955
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Soldados constróem o Muro de Berlim a mando das autoridades da Alemanha Oriental, em 1961
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Após a ativação do muro, pessoas abanam para familiares e amigos que ficaram presos do outro lado da construção
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Mulheres do lado soviético de Berlim acenam para familiares na fronteira entre as duas regiões
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Walter Ulbricht (1893-1973), então primeiro secretário do Partido Comunista da Alemanha Oriental e premiê da República Democrática Alemã, visita trabalhadores em 25 de agosto de 1961
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Recém-casados acenam para parentes impossibilitados de participar da cerimônia matrimonial em Berlim, em setembro de 1961. O casal Dieter e Monika Marotz vivia no setor Ocidental da capital, enquanto os familiares estavam fixados no setor soviético
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Policiais da Alemanha Ocidental prendem jovem que estava junto com multidão atirando pedras em ônibus com guardas soviéticos em agosto de 1962
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Mulher utiliza o Muro como suporte para varal em Berlim, em novembro de 1963
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Homem, a mãe (porta-malas) e a noiva (atrás) se organizam para tentar cruzar o Muro de Berlim, em 1965
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Soldados americanos observam sobre o Muro de Berlim na parte Ocidental da cidade, em 1965
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Berlinenses ocidentais espiam nos espaços entre o muro o lado oriental da capital
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Berlinenses orientais se preparam para atravessar brecha no Muro de Berlim depois que o governo da antiga Alemanha Oriental levantou restrições contra a emigração para o lado ocupado por ocidentais, em dezembro de 1989
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Alemães orientais sobem no muro para celebrar o fim da divisão na capital, em dezembro
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Menino ajuda na destruição do muro após o fim da divisão que chocou o mundo, em dezembro de 1989
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O presidente francês François Mitterrand (dir.) recebe o então chanceler alemão Helmut Kohl no castelo de de Fontainebleau, em junho de 1984. Assim que a União Soviética deixou de controlar a Europa Oriental, entre 1989 e 1990, Kohl passou a incentivar a reunificação da Alemanha Ocidental e da Oriental
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O líder soviético Mikhail Gorbachev (esq.), secretário-geral do PCUS, e Erich Honecker, secretário-geral do Partido Comunista da República Democrática Alemã, participam de congresso na Berlim Oriental, em abril de 1986
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Com o fim da divisão, milhares de pessoas se uniram ao mutirão para destruir o muro em Berlim, em 1989
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O presidente americano Ronald Reagan durante visita a Berlim em junho de 1987
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Berlinense do setor ocidental agita sua bandeira sobre o muro após o fim da divisão ser acordado, em novembro de 1989
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Guardas da Alemanha Oriental acompanham a demolição do muro divisor por pessoas da Berlim do oeste, em novembro de 1989
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Soldados da Alemanha Oriental em frente ao muro destruído em novembro de 1989
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Símbolo da divisão da nação, Muro de Berlim se tornou espaço para pinturas de 1989 para cá
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Alegres, berlinenses comemoram o fim da sepração em frente ao Portão de Brandemburgo, em dezembro de 1989
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Em cima de muro, berlinenses comemoram a reunificação das Alemanhas em dezembro de 1989
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Estudantes simulam destruição do Muro de Berlim para comemorar os 10 de sua queda, em Taipei, Taiwan, em outubro de 2000
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Ciclista passa em frente a trecho remanescente do Muro de Berlim, com a pintura histórica do beijo entre o ex-secretário geral do Partido Comunista soviético, Leonid Brezhnev (esq.) e o colega da Alemanha Oriental Erich Honecker
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Turistas visitam os restos do Muro de Berlim no memorial feito para contar o período, em agosto de 2001
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Pequeno pedaço do muro foi conservado entre prédios comerciais no centro de Berlim
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Berlinenses participam de homenagens às vítimas do período de divisão dos alemães, no centro de Berlim
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Foto de março de 2005 mostra jovem observando trechos que foram mantidos do Muro de Berlim na região leste da cidade
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Flores colocadas no muro homenageiam as vítimas no 21º aniversário da queda do Muro de Berlim, em 2010
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Em dezembro de 2010, o príncipe britânico Harry prestou homenagem às vítimas da época em que a Alemanha esteve dividida
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Trabalhadores reparam partes do Muro de Berlim na Bernauer Strasse, em agosto de 2011, cinquenta anos após a queda
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Mulher põe flores em memorial do Muro de Berlim, em agosto de 2011
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O ex-chanceler alemão Helmut Kohl (dir.) relembra os 50 anos do Muro de Berlim em frente à trecho conservado da construção, em 13 de agosto
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