Meu avô era nazista? Arquivos inéditos permitem pesquisar passado familiar
A digitalização de cerca de 13 milhões de documentos do passado estão permitindo a famílias do mundo todo a responderem pela primeira vez a uma incômoda pergunta: será que meus antepassados eram nazistas? As fichas cadastrais dos membros do partido de Adolf Hitler, obtidas pelos Estados Unidos em 1945, agora estão acessíveis através de uma busca simples no site do jornal Die Zeit e está causando muito impacto na Alemanha.
Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf
Os documentos não eram secretos, mas nunca foram disponibilizados pelos americanos de forma que o público pudesse acessá-los facilmente. O Arquivo Nacional dos Estados Unidos chegou a publicar os arquivos online, em microfilme, mas não era possível fazer buscas por nome.
O jornal alemão Die Zeit teve acesso a todos os dados e os organizou de modo que fosse possível simplesmente digitar um sobrenome e consultar a ficha de filiação ao Partido Nazista, acompanhada de data de nascimento, cidade de origem, profissão e outras informações.
Pouco antes do fim da guerra, a direção do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães — nome oficial do Partido Nazista — ordenou a transferência de todos os fichários, cerca de 50 toneladas de papel, da sede da legenda, conhecida como Casa Marrom, em Munique, para uma fábrica de papel no distrito de Freimann. A intenção era destruir todo o material.
O proprietário da fábrica, Hanns Huber, porém, interrompeu o processo ao perceber o conteúdo dos documentos. No outono de 1945, os americanos recuperaram os arquivos e os levaram para o Centro de Documentação de Berlim. Trata-se de dois fichários distintos, um regional e outro nacional. Estima-se que 44% do fichário central e 77% do regional tenham sobrevivido a essa tentativa literal de queima de arquivo. Juntos, eles reúnem 12,9 milhões de fichas de filiação ao Partido Nazista.
"Encontrei meu pai nos arquivos"
O Die Zeit vem reunindo e publicando relatos de leitores que descobriram o passado de membros de suas famílias. Um deles afirma: "Encontrei meu pai, que se tornou membro aos 18 anos. Nascido em 1926, ele cresceu completamente doutrinado".
Outro escreve: "Sem grandes surpresas: meu avô paterno era membro do Partido Nazista. Eu já suspeitava, mas agora tenho a prova em preto e branco". Um terceiro leitor relata: "Já encontrei dois parentes próximos, contrariando o que se dizia em nossa família de que ninguém esteve envolvido. Mudar minha perspectiva aos 71 anos é um choque amargo".
Eu mesmo também fiz minha pesquisa. Embora minha família tenha emigrado para o Brasil ainda no século 19, busquei o sobrenome Brust e encontrei 50 registros. Parece pouco, mas é bastante, já que o sobrenome não é comum na Alemanha. Isso dá uma dimensão de quantas pessoas estavam envolvidas.
O perfil dos filiados
As fichas de registro não informam o motivo da filiação ao partido. Ainda assim, segundo o Die Zeit, a data de adesão oferece algumas pistas. Quem se filiou antes de janeiro de 1933, quando Adolf Hitler chegou ao poder, o fez, em geral, por convicção ideológica. Nos primeiros anos de existência do partido, ser filiado trazia mais desvantagens do que benefícios sociais e era algo malvisto.
Esse cenário muda a partir de 1933, quando Hitler assume o poder e a filiação passa a representar uma possibilidade de vantagem pessoal. O número de adesões cresce rapidamente a partir de então.
Não é possível concluir que todas as pessoas filiadas participaram ativamente dos crimes nazistas, como a perseguição e a exploração da população judaica. Mas há consenso entre historiadores de que ninguém era obrigado a se filiar ao Partido Nazista, como muitos alegaram ao fim da guerra.
A adesão exigia assinatura de próprio punho, e o partido contou com amplo apoio de cidadãos comuns. Em 1933, os nazistas chegaram inclusive a suspender temporariamente novas filiações, diante do volume excessivo de pedidos e do receio de adesões oportunistas.
20 milhões de membros
Os documentos oferecem um retrato estatístico detalhado, de grande interesse para pesquisadores. Ao longo de cerca de 20 anos, 10,2 milhões de pessoas receberam cartões de filiação ao partido. Até 1930, porém, o número de filiados era baixo — apenas 82 mil. Com a chegada ao poder, o total explode e atinge seu pico no fim da guerra, quando o Partido Nazista contabilizava cerca de 9 milhões de membros ativos.
O perfil típico do filiado era o de homens jovens, principalmente nascidos entre 1900 e 1915, que viveram a Primeira Guerra Mundial na infância e adolescência. Em geral, eram trabalhadores dos setores público e privado — cerca de 60% dos servidores públicos pertenciam ao partido —, além de profissionais liberais e pessoas com formação técnica. Os trabalhadores industriais, por sua vez, permaneceram majoritariamente leais ao Partido Social-Democrata.
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