Médicos da França alertam para aumento de procedimentos estéticos clandestinos após morte de duas mulheres
Em um manifesto publicado no jornal francês Le Parisien neste domingo (2), cerca de cinco mil médicos e especialistas em medicina estética exigem punições mais severas para a prática de injeções de botox, ácido hialurônico e outros procedimentos de forma ilegal. O protesto é realizado após a morte de duas mulheres que haviam sido submetidas a intervenções de beleza realizadas clandestinamente.
A França registra o aumento de procedimentos estéticos feitos por pessoas sem qualquer competência, muitos deles promovidos nas redes sociais. O médico Eric Essayagh, copresidente do Círculo de Boas Práticas em Medicina Estética da França, afirma que 40% das injeções de botox e ácido hialurônico são realizadas fora do ambiente médico - "em apartamentos, institutos ou locais que escapam a qualquer tipo de controle".
Por isso, "é preciso agir rápido", afirmam profissionais em uma coluna publicada no jornal francês Le Parisien, que alerta para "uma emergência de saúde pública". Em um intervalo de quatro meses, duas mulheres perderam a vida no país ao realizar intervenções estéticas por pessoas sem qualificação.
A morte mais recente foi registrada em 27 de julho em um pequeno salão de beleza de Nice, no sul da França. Uma jovem de 25 anos foi até o local para receber injeções de botox nos glúteos. No entanto, passou mal após a aplicação de lidocaína, um anestésico, e não pôde ser reanimada.
A gerente do estabelecimento e a funcionária que realizou a injeção foram colocadas sob custódia policial. Ao vasculhar o estabelecimento, os investigadores encontraram "diversos produtos novos e usados, incluindo medicamentos, seringas e substâncias injetáveis aparentemente provenientes da Ásia", diz um comunicado.
Segundo a polícia local, a mulher que realizou a injeção não tinha qualquer formação específica e vinha atuando clandestinamente desde 2022. Residente na região parisiense, ela estava passando férias no sul da França e foi solicitada pela gerente do salão de Nice.
Em março deste ano, uma mulher de cerca de 40 anos morreu após uma parada cardíaca quando recebia injeções de lidocaína e ácido hialurônico nos glúteos. As aplicações foram feitas em um apartamento da cidade de Villeurbanne, centro-leste da França, por uma influenciadora que se dizia especialista neste procedimento.
Apelo à ministra da Saúde
"Senhora ministra, de quantas mortes precisamos ainda?", questionam os signatários do manifesto, fazendo um apelo à responsável pela pasta da Saúde na França, Stéphanie Rist. O texto menciona procedimentos como aumento de lábios com ácido hialurônico, alisamento de rugas com botox e aumento de glúteos "com substâncias de origem duvidosa, em salões de beleza clandestinos, feitos por pessoas sem qualquer noção da anatomia". "Resultado: as pessoas destroem seus corpos e suas vidas", reiteram os médicos.
Um dos signatários do manifesto, Dominique Bellecour, presidente da União da Medicina Estética do Sindicato dos Médicos Liberais, afirma que o problema não é novo e vem sendo subestimado há anos pelas autoridades. O especialista diz que os profissionais do país se deparam com "graves mutilações" causadas pela prática de injeções e procedimentos clandestinos. "Estou falando de narizes que caem, de lábios destruídos, de tecidos cutâneos apodrecendo", salienta, alertando para a quantidade de "jovens desfiguradas" que chegam aos hospitais da França.
Na mira dos médicos estão as redes sociais que promovem serviços por pessoas não qualificadas. O Sindicato de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética da França afirma ter emitido um alerta ao governo em 2022, sem obter retorno. Em entrevista à emissora Franceinfo, o secretário geral da organização, Adel Louafi, lamenta a falta de "consciência" e pede que "as autoridades sanitárias e judiciais batam na mesa para obrigar as redes sociais a fechar as contas que são manifestamente ilegais".
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