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Influência da gastronomia brasileira na cozinha portuguesa reforça laços culturais entre os dois países

Como toda pessoa que um dia decidiu mudar de país, a enorme comunidade brasileira que escolheu Portugal para viver trouxe na bagagem muito mais do que a saudade. O arroz com feijão, a farofa no domingo e o pão de queijo são frequentes nas mesas dos imigrantes brasileiros neste outro lado do Atlântico. Aromas, sabores, ingredientes e o nosso jeito de cozinhar têm conquistado paladares mundo a fora.

29 mar 2026 - 07h24
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Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa

Frutas do Brasil, desenho de Thierry Frères a partir de obra de Jean-Baptiste Debret, em 1839.
Frutas do Brasil, desenho de Thierry Frères a partir de obra de Jean-Baptiste Debret, em 1839.
Foto: © Acervo Biblioteca Nacional do Brasil / RFI

Nos últimos anos, Portugal viu crescer endereços onde o Brasil é a grande estrela, da comida de rua reinventada à cozinha de autor. Um cenário totalmente diferente dos rodízios de carne que durante muito tempo foram sinônimo de comida brasileira em terras lusitanas. Hoje, até mesmo em alguns restaurantes portugueses, é possível pedir uma moqueca de camarão com azeite de dendê e feita em panela de barro. Verdade seja dita, este prato nasceu na África, atravessou o oceano e criou raízes na Bahia. A versão servida no Cantinho do Avillez, um dos restaurantes do chef estrelado José Avillez, é a Moqueca do Mar, que é uma combinação de corvina com camarão e um toque de amendoim.

Comida é memória, afeto e origem

Outra estrela da gastronomia lusitana é Kiko Martins, conhecido por ser um chef ousado e criativo em seus cinco restaurantes lisboetas. Em um deles, o Boteco, dedicado à cozinha brasileira, há no cardápio dadinhos de tapioca, pão de queijo, pastéis de vento, feijoada, picanha e bolo brigadeiro. Filho de pai português e mãe pernambucana, o chef passou sua infância no Rio de Janeiro e explica que quis abrir este espaço para honrar a sua herança familiar.

Graças ao talento de chefs o Brasil tem proporcionado descobertas que vão muito além dos clichês: um peixe grelhado com manteiga de maracujá ou uma picanha com farofa de mandioca e legumes na brasa com rapadura são exemplos da criatividade que tem feito a cozinha brasileira brilhar e ser mais respeitada.

A chef sergipana Lizandra Almeida é uma estrela em ascensão. Ela estudou no renomado Le Cordon Bleu do México, graças a uma bolsa de estudos e depois trabalhou com grelhados em restaurantes de São Paulo. Agora, aos 31 anos e vivendo há três anos em Lisboa, Lizandra foi uma das finalistas na categoria chef revelação do prestigiado prêmio Mesa Marcada, que reconhece os talentos da gastronomia em Portugal. Ela, que trabalha com grelhados no Pils Grill Eatery, conta como recebeu a notícia de que tinha sido indicada ao prêmio.

Ainda em São Paulo, ao ter contato com o processo de defumação da carne, Lizandra se apaixonou por este mundo e quis conhecer mais as técnicas. Ela relembra que teve bastante dificuldade por ser um universo bem masculino e fechado. "Foi desafiador, consegui me destacar e também alcançar as possibilidades de entrar para o meio, porque eu era sempre vista como a menina que estava ali para fazer a sobremesa e não para trabalhar com a carne", recorda. Na opinião da chef, o aumento significativo da comunidade brasileira em Portugal - há cerca de 500 mil brasileiros residentes em terras lusitanas - explica esta "invasão" da nossa gastronomia.

A relação luso-brasileira é também marcada pela gastronomia

Durante os séculos que o Brasil foi colônia de Portugal os hábitos alimentares sofreram transformações profundas. Ingredientes essenciais dos povos indígenas como a mandioca e dos africanos como o azeite de dendê foram em parte substituídos pela comida que os portugueses estavam habituados a comer. A fritura dos alimentos é uma herança portuguesa e os doces bem açucarados começaram a surgir no Brasil com a chegada da família Real Portuguesa.

O sociólogo e historiador Gilberto Freyre, autor de Casa Grande e Senzala, dizia que a influência da culinária portuguesa se manifestava de maneira mais forte no litoral - do Maranhão ao Rio de Janeiro - enquanto a africana sobressaia na Bahia e a indígena no norte do país. Já na década de 1960, Luís da Câmara Cascudo, um dos mais respeitados folcloristas brasileiros, escreveu em sua "História da alimentação do Brasil" que o patrimônio culinário brasileiro não possuía o peso do regionalismo, e sim, da miscigenação entre as cozinhas indígenas, africanas e portuguesas.

Um dos símbolos mais emblemáticos da nossa culinária, a feijoada, teria raízes no cozido português, que no Brasil foi adaptado com o feijão preto. Para Câmara Cascudo, a feijoada como conhecemos hoje seria uma combinação criada apenas no século XIX. Décadas depois, os modernistas a elegeram prato nacional - onde influências portuguesas, africanas e indígenas se misturam - na construção de uma identidade brasileira.

"Esta identidade da gastronomia brasileira está ainda em processo, não é uma realidade pronta", costumava afirmar o historiador e membro da Academia Brasileira de Gastronomia, Ricardo Maranhão. "Nós passamos 150 anos valorizando a gastronomia estrangeira e não demos bola para a cozinha nacional."

Maranhão destacava a importância da culinária mineira, da amazônica, assim como as do litoral e do sertão do nordeste, a afrobrasileira da Bahia, a gaúcha e a do centro-oeste.

"A gastronomia define nossa identidade tanto quanto os sons do samba, a arquitetura barroca ou modernista", lembra o sociólogo Carlos Alberto Dória, especialista em cultura culinária.

É inegável o espaço e prestígio que a gastronomia brasileira tem conquistado no exterior. Hoje em Portugal, além da cozinha autoral, há pão de queijo nas padarias e supermercados do país, brigadeiros nas festas infantis e lojas de doces, farofas como acompanhamento nas churrascarias. É o Brasil usando sua culinária como soft power para reforçar, ainda mais, os laços culturais entre os dois países.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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