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Incêndios avançam sobre Bordeaux e forçam retirada de 325 mil na França e na Espanha

Os grandes incêndios que atingem a França e a Espanha desde a semana passada já provocaram a retirada de mais de 325 mil pessoas de suas casas e mobilizam milhares de bombeiros, militares e aeronaves em uma das crises mais severas do verão europeu. Neste domingo (26), as autoridades francesas confirmaram que o principal foco da Gironda, no sudoeste do país, chegou a cerca de 15 quilômetros da região metropolitana de Bordeaux, enquanto a Espanha enfrentava novos incêndios nos arredores de Madri e Valência.

26 jul 2026 - 09h22
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Na França, o incêndio da Gironda já consumiu 42 mil hectares, uma área equivalente a quatro vezes o tamanho da cidade de Paris. O fogo figura entre os maiores registrados no país desde a Segunda Guerra Mundial e desencadeou o que o governo considera ser, provavelmente, a maior operação de retirada de civis realizada em território francês em tempos de paz.

Apesar da aproximação das chamas, o prefeito de Bordeaux, Thomas Cazenave, voltou a descartar uma evacuação da cidade. Segundo ele, o fogo permanece a uma distância entre 25 e 30 quilômetros do centro urbano e a cerca de 15 quilômetros dos limites da metrópole, na altura de Martignas-sur-Jalle.

A preocupação, porém, aumentou depois que o incêndio avançou rapidamente durante a madrugada. Novas retiradas preventivas foram ordenadas em várias cidades da região metropolitana, onde vivem mais de 850 mil pessoas.

Ao amanhecer deste domingo, uma névoa alaranjada cobria parte das margens do rio Garonne em Bordeaux, enquanto o cheiro de queimado se espalhava pelas ruas da cidade.

Entre os evacuados está a advogada Aurore Vigreux, de 38 anos, retirada de casa durante a madrugada junto com a filha e vários animais. Ela afirma ver poucos sinais de melhora. "Não é exatamente medo. Estou consternada ao ver que o incêndio continua avançando e que nada traz esperança. Ainda há vento forte e a previsão indica uma nova onda de calor para os próximos dias."

Moradores resistem a deixar áreas ameaçadas

Enquanto as autoridades multiplicam os apelos para que a população deixe as zonas de risco, parte dos moradores continua resistindo às ordens de evacuação.

Em Le Barp, município de menos de 6 mil habitantes ao sul de Bordeaux, policiais percorriam as ruas neste domingo para identificar as pessoas que decidiram permanecer. A cidade fica próxima de Marcheprime, uma das áreas para onde o fogo avançou durante a noite.

O ex-militar Sébastien Piquet, de 50 anos, optou por ficar. Sua mulher e seu filho deixaram a cidade, mas ele decidiu permanecer para ajudar o cunhado, dono de um canil com cerca de 60 cães. "Se for necessário evacuar os animais, quero estar aqui."

O acompanhamento da progressão das chamas passou a fazer parte da rotina dos moradores. Piquet afirma monitorar constantemente os mapas disponíveis na internet para verificar se o fogo atravessa a rodovia A63, considerada uma barreira natural entre a área incendiada e sua cidade.

A decisão de permanecer também reflete a angústia de quem não tem para onde ir. Em frente à prefeitura de Le Barp, agentes precisaram tranquilizar uma moradora preocupada com a possibilidade de deixar a região enquanto cuida do marido com Alzheimer.

Entre os resistentes está ainda Jacques Lamotte, de 88 anos. Morador da cidade há mais de quatro décadas, ele afirma que pretende ficar tanto pela falta de um local alternativo quanto pelo receio de saques. Mesmo assim, já separou uma bolsa com medicamentos caso a evacuação se torne obrigatória.

O vice-prefeito Jacques Moretto reconhece que algumas decisões são difíceis de explicar à população. Segundo ele, muitos moradores questionam por que Le Barp foi evacuada enquanto municípios vizinhos permanecem habitados. "Em algum lugar é preciso definir limites operacionais. É assim que funciona uma situação de emergência."

Exército reforça combate e autoridades alertam para cenário instável

A gravidade da situação levou o governo francês a mobilizar 1.500 militares a partir da noite de sábado (25). O efetivo auxilia nas evacuações, na proteção de propriedades abandonadas e no apoio logístico aos bombeiros.

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, afirmou neste domingo que "a situação continua muito desfavorável" não apenas na Gironda, mas também nos departamentos de Landes e Var.

Segundo ele, durante parte da madrugada o incêndio da Gironda voltou a apresentar comportamento extremamente agressivo, criando correntes de vento próprias e avançando de forma imprevisível em direção à aglomeração de Bordeaux.

No departamento vizinho de Landes, o fogo que começou na quinta-feira (24) permanece ativo. A área atingida chegou a 3.600 hectares, e mais de 30 mil pessoas tiveram de abandonar suas casas ou locais de hospedagem. As autoridades avaliam que o incêndio está mais contido, mas ainda não estabilizado.

Já no Var, no sul do país, outro foco consumiu cerca de 4.500 hectares. Aproximadamente 2 mil pessoas foram retiradas preventivamente, enquanto bombeiros alertam para o risco de reativação das chamas devido aos ventos.

Espanha enfrenta emergência climática em escala nacional

A crise também se agravou na Espanha, onde cerca de 75 mil pessoas foram obrigadas a deixar suas casas ou locais de férias.

O primeiro-ministro Pedro Sánchez afirmou neste domingo que o país ainda enfrentará "horas difíceis", embora tenha destacado avanços obtidos durante a madrugada no combate aos incêndios que cercam a região de Madri.

As autoridades espanholas calculam que aproximadamente 60 mil pessoas foram evacuadas da área da capital. Os incêndios já destruíram até 25 mil hectares a oeste da cidade, em uma situação descrita por autoridades regionais como a mais grave já enfrentada pela comunidade madrilenha.

Em paralelo, outro grande incêndio atingia a região de Valência. Cerca de 15 mil pessoas foram evacuadas em Castellón, enquanto ventos fortes dificultavam as operações de combate.

A representante do governo central em Valência, Pilar Bernabé, afirmou que a noite foi particularmente intensa e alertou para uma piora das condições meteorológicas ao longo do dia.

Uma pessoa morreu no sábado (25) em um incêndio próximo de Valência, único registro fatal confirmado até o momento nos grandes focos que atingem simultaneamente a França e a Espanha.

Diante da magnitude da crise, aeronaves italianas e portuguesas passaram a apoiar as equipes espanholas. Sánchez voltou a defender um pacto nacional para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas e afirmou que todas as esferas de governo precisarão adaptar suas respostas a eventos extremos que se tornam cada vez mais frequentes no sul da Europa.

RFI com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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