França se prepara para novo dia de protestos; Macron recebe estudantes após crítica sobre gestão da crise
Após mais de um mês de protestos na França, o presidente Emmanuel Macron recebeu pela primeira vez, nesta sexta-feira (23), representantes dos estudantes do ensino médio, grupo de iniciou a onda de manifestações. Depois, o chefe de Estado visitou as forças de segurança em Paris, na véspera de um novo dia de mobilizações sob rigoroso esquema policial.
Sob forte pressão política, Emmanuel Macron reuniu-se com líderes estudantis que exigem reformas no ensino, prometendo rever o sistema educacional. A iniciativa ocorre em meio a graves tensões na França, que incluem a repercussão de um atentado em Trappes e a expectativa de até 500 mil manifestantes neste sábado. Para conter a violência, o governo mobilizou 70 mil agentes e impôs restrições a atos públicos, medidas que a oposição de esquerda denunciou como uma escalada autoritária.
Cerca de vinte representantes de organizações estudantis passaram quase três horas no Palácio do Eliseu, sede da Presidência francesa, a convite do chefe de Estado, que pretendia "ouvir suas reivindicações e preocupações". Macron antecipou-se, assim, ao primeiro-ministro Sébastien Lecornu, que receberá os alunos na segunda-feira (26).
Os estudantes, que exigem reformas nas escolas, melhores condições de estudo e a reformulação da plataforma de acesso ao ensino superior Parcoursup, pretendem continuar a mobilização até o anúncio de medidas concretas. Eles afirmaram que Macron lhes prometeu uma "reformulação" do sistema.
"Estamos aguardando nossa reunião com o primeiro-ministro", declarou Nathanaël Combary, do grupo Renouveau Lycéen, incentivando os estudantes a "continuarem mobilizados" para manter o "braço de ferro" com o Executivo. "Falamos com ele sobre revogação, clareza, transparência e reformulação", comentou Ryad Rani, presidente da Union Syndicale Lycéenne.
Louis Letoublon, do grupo Les Lycéens!, mencionou uma "brecha" aberta pelo presidente, na qual "precisamos entrar" para conquistar "melhores condições de estudo e aprendizagem".
Segurança
Paralelamente às reivindicações estudantis, Macron assumiu a linha de frente de duas questões urgentes relacionadas à segurança: a preparação para uma nova jornada de manifestações, neste sábado (24) em toda a França, e a resposta a um tiroteio que deixou um morto e cinco feridos na manhã desta sexta-feira, no departamento de Yvelines.
Emmanuel Macron foi à cidade de Trappes no início da noite para expressar "sua solidariedade a todas as pessoas mobilizadas", segundo o Palácio do Eliseu, que descreve o ocorrido como "um atentado terrorista racista". Recebido pelas autoridades locais, ele conversou, entre outros, com o procurador da República e com as equipes de socorro que chegaram primeiro ao local.
Em seguida, o presidente visitou um quartel no 19º distrito de Paris para manifestar seu "reconhecimento às forças de segurança" e encontrar agentes feridos durante as intervenções realizadas nos protestos dos últimos dias.
70 mil policiais e gendarmes mobilizados
Para este novo dia de protestos, as forças de segurança, criticadas pela resposta considerada insuficiente aos episódios de violência de 17 de outubro, contarão com um efetivo 15% maior do que o da semana passada, garantiu o governo. Elas serão apoiadas por militares da força Sentinelle, unidades de elite da polícia e da gendarmeria (como o RAID, o GIGN e a BRI), além de helicópteros e veículos blindados para controle de distúrbios urbanos.
Entre 400 e 500 mil manifestantes são esperados neste sábado em toda a França.
Após a imposição de toques de recolher e a proibição de manifestações ao longo desta semana em certos bairros de Paris e municípios como Toulon e Marselha, 70 mil policiais e gendarmes estarão mobilizados neste sábado para um novo dia de protestos.
"Estamos prontos", garantiu o ministro do Interior, Laurent Nuñez, na sexta-feira. "Não deixaremos passar absolutamente nada", acrescentou, acusando grupos da ultraesquerda de incentivarem atos de violência e afirmando que alguns manifestantes chegaram a convocar saques pelas redes sociais.
As autoridades buscaram limitar ao máximo as mobilizações, autorizando apenas os atos organizados pelos sindicatos.
Em Lyon, as manifestações foram proibidas neste sábado. Em Marselha, um protesto sindical acabou sendo autorizado.
As restrições recorrentes são consideradas uma ameaça às liberdades públicas pela oposição. O partido La France Insoumise (A França Insubmissa, da esquerda radical), por exemplo, denunciou uma "escalada autoritária".
A coalizão sindical da região de Île-de-France lamentou a "imposição" de uma "mudança de trajeto" para a manifestação em Paris.
O gabinete do primeiro-ministro também solicitou às plataformas digitais, como Meta, Snap e TikTok, uma "vigilância especial" durante o fim de semana.
Orléans sob tensão
Outro ponto de tensão neste fim de semana é o congresso do partido de extrema direita Reunião Nacional (RN), em Orléans, no sábado e domingo (25). Estima-se a presença de 20 mil a 30 mil manifestantes contrários ao RN no sábado, incluindo o primeiro-secretário do Partido Socialista (PS), Olivier Faure, e a secretária-geral da central sindical CGT, Sophie Binet.
Cerca de 3 mil agentes das forças de segurança serão mobilizados. É, de certa forma, um teste para a futura campanha presidencial, alertou Laurent Nuñez em Orléans, defendendo a necessidade de "conciliar" a liberdade de manifestação com a liberdade de encontros políticos.
Criticado pela esquerda por sua resposta considerada insuficiente à crise, o governo vê sua margem de manobra limitada pelas restrições orçamentárias, em meio à preparação de um orçamento para 2027 sob forte pressão fiscal.
Com AFP
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.