França reduz dispositivos especiais para acolher ucranianos que fogem da guerra
Há quatro anos, uma resposta emergencial e um espírito de solidariedade ganharam força na França para acolher milhares de ucranianos que fugiam da guerra. Hoje, mais de 40.000 ainda estão sob proteção temporária, mas os programas específicos de apoio e acolhimento vêm sendo gradualmente eliminados em favor de procedimentos legais padrão, o que fragiliza ainda mais a situação dos mais vulneráveis.
Aurore Lartigue, enviada especial da RFI a Nice
Uma gargalhada ecoa em um cinema no centro de Nice. Na tela, um piloto ucraniano vaga sozinho pelo espaço, como último sobrevivente de uma Terra destruída. Com seu humor ácido, o filme de ficção científica "Você é o universo", do diretor Pavlo Ostrikov, parece emocionar alguns dos ucranianos reunidos ali a convite da Associação Franco-Ucraniana (AFUCA) da Côte d'Azur. O náufrago espacial não está completamente sozinho: outra pessoa, uma francesa, também presa em uma estação espacial nos confins do sistema solar, entra em contato com ele.
"É raro ver um filme ucraniano por aqui", comenta Anna Bielova ao sair do cinema. Ela chegou a Nice em 2024 com o marido. Sua irmã já vivia na região sul da França. Hoje, ela participa de um programa de imersão profissional em uma organização ambiental local e espera conseguir um emprego. "Não é fácil, mas estou bem", afirma.
Em 2022, após a invasão russa, esforços de solidariedade foram organizados de maneira emergencial em toda a Europa, incluindo a França, para ajudar milhares de pessoas que fugiam da guerra entre Rússia e Ucrânia. No total, cerca de 115.000 ucranianos foram acolhidos no território francês sob o Status de Proteção Temporária (SPT), um mecanismo jurídico que permite proteger rapidamente pessoas que fogem de uma situação de emergência em seu país de origem.
Quatro anos depois, o conflito se tornou crônico. Embora alguns refugiados tenham retornado para casa, segundo o Ministério do Interior francês, 40.850 ainda viviam na França sob esse status no início de 2026. Prorrogado pela União Europeia até março de 2027, o SPT permite que eles residam, trabalhem, recebam auxílio de subsistência e tenham acesso à saúde pública.
Sair da situação de emergência
No fim de 2024, de acordo com uma circular do então primeiro-ministro Michel Barnier, 50% dos deslocados internos não recebiam "nenhuma assistência das autoridades públicas para acomodação ou habitação". Para os demais, as medidas excepcionais de acolhimento implementadas em 2022 deram lugar gradualmente aos procedimentos jurídicos padrão para imigrantes, com suas limitações.
Depois da região parisiense, a Provence-Alpes-Côte d'Azur, no sudeste, foi a segunda a receber o maior número de ucranianos. Nice e seus arredores, onde já existia uma grande comunidade ucraniana, tornaram-se um ponto de entrada natural.
Na cidade, o centro que oferecia alojamento temporário e apoio aos recém-chegados fechou em agosto de 2024. No fim de 2025, o último centro de acolhimento da região também encerrou suas atividades.
"Não há mais vagas de alojamento financiadas pelo Estado", confirma a Secretaria de Segurança do departamento de Alpes-Maritimes, onde fica Nice.
Os refugiados ucranianos estão agora submetidos ao sistema geral de assistência social e são tratados como outras populações vulneráveis. Essa mudança observada em Nice reflete uma tendência mais ampla. Segundo o Ministério do Interior, a capacidade de acolhimento destinada aos ucranianos será reduzida para apenas 4.000 vagas no início de 2026, em comparação com quase 20.000 no início da guerra e 9.000 em 2024. O sistema, ainda operacional, está agora sujeito a uma "gestão mais rigorosa" para "se adaptar às necessidades reais", afirma o ministério.
Na região de Paris, o centro inicial de acolhimento em Porte de la Villette, que oferecia estadia temporária antes do encaminhamento, teve sua capacidade significativamente reduzida, e os serviços administrativos foram transferidos para um novo local, segundo a Secretaria de Segurança de Paris.
Poucos lugares de acolhimento
Nos escritórios da AFUCA, o fluxo de pessoas é constante. Fundada em 2016, a associação cultural tornou-se, desde o início da guerra, um recurso essencial para ucranianos deslocados. "O único lugar para encontrar apoio agora é aqui", resume sua fundadora, Iryna Bourdelles, que também é cônsul honorária da Ucrânia no departamento. A associação auxilia na preparação de documentos, busca de emprego e compreensão de procedimentos administrativos. Mas os recursos são incertos. "Não temos perspectiva para 2026", admite.
Entre os recém-chegados, alguns já iniciaram a reconstrução de suas vidas. É o caso de Karina Youdenkova, de 23 anos, que deixou Kiev sozinha após a explosão que estilhaçou as janelas de seu apartamento e após a morte do pai na guerra.
Primeiro, ela foi acolhida em um centro, depois realocada para um hotel. Conseguiu emprego em um café e agora aluga um apartamento, planejando se matricular na universidade. "Vejo minha vida na França; não vejo futuro para mim na Ucrânia", explica. Seu principal obstáculo atual é a carteira de motorista: sua inscrição para o exame foi negada por estar sob proteção temporária. Ela recorreu à AFUCA para saber como solicitar um status administrativo mais estável. "Uma autorização de residência ajuda na integração. Não é como a cidadania, mas já faz diferença", afirma.
Assim como Karina, com o tempo muitos desejam deixar o status excepcional de proteção temporária. Concebido como um mecanismo emergencial, ele deve ser renovado a cada seis meses na França (na Alemanha, a renovação é anual) e não garante acesso a certos benefícios sociais, como o subsídio de invalidez para adultos.
Os mais integrados podem solicitar autorizações de residência padrão, como vistos de trabalho ou de empreendedor. Porém, muitos recorrem ao pedido de asilo, que garante proteção mais duradoura e, quando aplicável, acesso a moradia adequada. No entanto, esse status nem sempre é ideal para deslocados que planejam retornar à Ucrânia. Em 2025, 12.310 ucranianos solicitaram asilo na França, segundo o Escritório Francês de Proteção de Refugiados e Apátridas (OFPRA), e mais de 12.000 já recebiam proteção internacional no fim de 2024.
No primeiro semestre de 2025, o Senado francês aprovou uma proposta da senadora centrista Nadia Sollogoub para melhorar a proteção temporária aos ucranianos, visando oferecer maior estabilidade sem obrigá-los a pedir asilo. Contudo, o projeto ainda não foi incluído na agenda da Assembleia Nacional. A senadora também lamenta que desde o ano passado não há um responsável pela coordenação do acolhimento. "Hoje não existe mais um ponto de contato nacional", observa, sinalizando um desinteresse silencioso por parte do Estado.
A Ucrânia deixou de ser prioridade
Para organizações humanitárias, essa nova fase marca o fim do apoio excepcional e o início de um período mais incerto.
"Não digo que o Estado nos abandonou, mas a Ucrânia deixou de ser prioridade. E é compreensível; já se passaram quatro anos", reconhece Bourdelles.
Mas as necessidades permanecem grandes: aprender francês, procurar emprego, regularizar a situação migratória, isso sem falar nos traumas psicológicos. Segundo ela, cerca de cem novos imigrantes entram em contato com a associação todos os meses.
Audrey Terradura, chefe de serviço da associação Agir pour le Lien Social et la Citoyenneté (ALC), que esteve no centro do acolhimento emergencial em 2022, vê essa evolução como lógica. No início da crise, uma linha direta e um sistema específico foram criados para os ucranianos, mas tudo foi gradualmente encerrado conforme o fluxo diminuiu. "Hoje, eles são alojados como todos os outros, em acomodações convencionais, e recebem apoio social dentro dessa estrutura", explica.
A transição ocorreu de forma "tranquila", segundo a assistente social. "Os que restaram têm perfis mais complexos: idosos, pessoas com doenças graves ou famílias com crianças com deficiência, para quem o acesso à moradia independente e ao emprego é mais difícil". A vantagem do novo sistema, diz ela, é que há "menos incerteza".
Caminhos frágeis de integração
No térreo de suas instalações, a AFUCA ainda distribui cestas básicas duas vezes por semana, com apoio do Secours Catholique. Entre as 70 pessoas atendidas está Tetyana, que chegou há um ano e meio. Ela esperava ajudar financeiramente a filha, que permaneceu na Ucrânia com o marido mobilizado na guerra. Mas sua situação deteriorou-se a ponto de, no mês passado, depender das cestas básicas.
Na França, ela vivia inicialmente com outra filha. Mas, desde o verão passado, precisou se virar sozinha e já não consegue pagar o aluguel. Trabalhou na cozinha de um restaurante e depois em uma loja de ajustes de roupas, mas o empregador enfrentava dificuldades financeiras. Ela se candidatou a uma vaga em uma agência de assistência domiciliar. "Gostaria muito de trabalhar; trabalhei a vida toda, mas sempre há um obstáculo", lamenta.
Na fila, outra mulher com expressão cansada segura seu carrinho de compras. Chegou à França logo após o início da guerra e conta, nos dedos, os diversos alojamentos de emergência pelos quais passou. Hoje vive com a filha e o neto, que tem deficiência, em um quarto de hotel social para pessoas encaminhadas por uma linha de atendimento. "Às vezes é insuportável", diz.
"Você deve desocupar o apartamento em três meses"
O fim gradual das medidas de apoio é difícil principalmente para os mais vulneráveis. Sollogoub diz que vem sendo há meses procurada por refugiados que enfrentam o fim do auxílio. "Recebo cartas desesperadas", afirma. No centro dessas situações está o programa de intermediação de aluguel, criado em 2022. Financiado majoritariamente pelo Estado, ele permite que associações aluguem apartamentos e os disponibilizem temporariamente para refugiados até que se tornem financeiramente independentes.
As associações relatam ter recebido cartas oficiais ordenando que beneficiários desocupem suas moradias. Em uma delas, consultada pela RFI, a administração informa a um casal de mais de sessenta anos, do leste da Ucrânia, ambos com deficiência, que eles "serão obrigados a desocupar o imóvel" em três meses, pois o auxílio não poderá ser prorrogado. A decisão é justificada pela "falta de esforço ativo de integração".
O casal explicou, em carta, que não tem condições de arcar com o aluguel, já que não conseguiu trabalho, e expressou o medo de ficar sem moradia.
No sofá da entrada da AFUCA, Natalia aguarda sua vez. Ela chegou há dois anos com o filho de 13, vinda da região de Chernihiv. Na Ucrânia, era funcionária pública. Hoje trabalha como faxineira em um hotel, cujo proprietário lhe aluga um pequeno quarto.
"Sou grata, porque em setembro de 2024 achei que iria parar na rua", confessa.
Mesmo assim, ela anseia por uma moradia mais estável e buscou a associação para se informar sobre a obtenção da carteira de saúde e os benefícios a que tem direito. Natalia se preocupa com o futuro, especialmente porque, durante este inverno rigoroso na Ucrânia, a perspectiva de retorno parece cada vez mais distante. Para ela, como para muitos outros, a crise imediata já passou, mas a incerteza continua.