'França não protege as crianças o suficiente': relatório do Senado aponta falhas sistêmicas nas escolas
Uma comissão do Senado francês apresentou, nesta quinta-feira (15), as conclusões de um relatório sobre problemas "sistêmicos" nas atividades extracurriculares oferecidas em escolas na França. Entre eles estão a falta de formação dos monitores, casos de agressão não denunciados e a transferência de profissionais, problemas que vieram à tona em estabelecimentos de ensino de Paris.
Um relatório do Senado francês aprovado por unanimidade denunciou falhas sistêmicas na proteção infantil em escolas e atividades extracurriculares do país, apontando centenas de investigações sobre violência física e sexual. A comissão atribui a crise ao descontrole na expansão dessas atividades desde 2013, à falta de triagem e ao despreparo de monitores. Para conter o problema, senadores propõem a checagem rigorosa de antecedentes, a proteção a delatores e sanções contra a omissão de casos graves.
A verdade "é que a França não protege suficientemente suas crianças", denunciou Agnès Evren, relatora do texto, durante uma entrevista coletiva. O relatório, aprovado por unanimidade pelo Senado, destaca a situação de Paris, onde foram abertas 235 investigações criminais por casos de violência psicológica, física e sexual.
Até junho de 2026, 132 monitores da Prefeitura de Paris haviam sido suspensos, 52 deles por suspeitas de violência sexual, de acordo com dados divulgados na época pelo prefeito de Paris, Emmanuel Grégoire.
Segundo a parlamentar do partido de direita Os Republicanos, as falhas observadas na capital se repetem em todo o país, com denúncias registradas em 73 departamentos. Segundo a comissão, a reforma dos horários escolares de 2013, que reduziu a duração da jornada de aulas e ampliou o tempo dedicado às atividades extracurriculares, estaria na origem do problema.
Atualmente, nove em cada dez crianças frequentam atividades extracurriculares pelo menos uma vez ao dia, segundo o relatório. Entre 2013 e 2016, a oferta chegou a triplicar, passando de 840 mil para 2,6 milhões de vagas para crianças.
Entre as falhas identificadas pela comissão estão problemas na contratação de pessoal, falta de formação, ausência de uma verificação efetiva dos antecedentes judiciais dos monitores e ainda a "diluição das responsabilidades" entre a escola, as atividades extracurriculares e a Justiça em caso de problemas.
"A visão da comissão permite, enfim, relacionar as falhas judiciais, administrativas, institucionais, regulatórias e organizacionais", afirmou, em comunicado, o coletivo SOS Périscolaire. "Nosso sistema é reativo demais, não é preventivo", lamentou a parlamentar parisiense antes de apresentar as principais medidas propostas pela comissão.
Entre as prioridades está o aumento das exigências de formação dos candidatos, que deverão passar por verificação de antecedentes e inspeções regulares. Segundo o relatório, mais de uma em cada três escolas públicas de educação infantil de Paris é alvo de uma investigação criminal após as denúncias.
"Romper a lei do silêncio"
"Propomos criar uma sanção penal em caso de não comunicação de incidentes graves ao prefeito", acrescentou a senadora Agnès Evren, com o objetivo de "romper a lei do silêncio" e "instaurar uma verdadeira cultura de transparência para recuperar a confiança das famílias".
Outra medida de destaque é a proteção de denunciantes, que "não ousam falar por medo de represálias" caso relatem os fatos. A comissão do Senado também ressalta a importância de apresentar um organograma completo e atualizado das atividades extracurriculares.
"Essas recomendações demonstram uma conscientização que agora é compartilhada", afirmou a associação MeToo École. "Estamos hoje às vésperas de uma eleição crucial para a França. Precisamos mudar de lógica: não cabe mais à criança se adaptar às nossas instituições, mas às nossas instituições se adaptarem às necessidades da criança", concluiu Agnès Evren.
Com agências
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